Sanções internacionais? Navio com carga do Irã descarrega no Porto de Paranaguá
Movimentou os bastidores do setor portuário a transação envolvendo uma carga de origem iraniana, no Porto de Paranaguá. O navio MV The Strong começou a descarregar, no início da segunda semana de abril, uma carga de ureia vinda do Irã. Até aí, nada fora do normal para os terminais que operam carregamentos de diversas nações do mundo. O detalhe está no fato de que o Irã é um país sob rígidas sanções internacionais.

A embarcação deixou o sudoeste asiático em 18 de dezembro de 2024. A princípio, o Bill of Lading (BL) – documento que assegura a condição da carga embarcada e funciona como um contrato entre o embarcador e o transportador – era de origem iraniana com destino à Argentina. Mas, em 27 de dezembro, o documento já indicava Paranaguá como destino. Acontece que em 17 de fevereiro de 2025 houve uma mudança na rota, em que o navio parou, e, antes de chegar ao Brasil, retornou a África do Sul e fez escala na Namíbia.
Após alguns dias, o MV The Strong recebeu o Uruguai como destino e, por fim, em 7 de abril de 2025, foi direcionado para Paranaguá. O navio chegou ao porto paranaense em 9 de abril e só deixou o Paraná nessa quarta-feira, dia 23, após finalizar a descarga de 60.000,000 Tons de ureia – fertilizante nitrogenado amplamente utilizado na agricultura por sua alta concentração de nitrogênio, essencial para o crescimento das plantas.
Esclarecendo as restrições
Ocorre que o Irã está entre os países que estão sofrendo uma série de sanções internacionais, principalmente encabeçadas pelos Estados Unidos da América, sobretudo pela questão de potencial nuclear. Porém, o JB Litoral foi em busca de esclarecimentos em relação às transações entre Brasil e Irã, e se a operação realizada aqui na região está dentro da normalidade.
O primeiro contato foi feito com a Portos do Paraná, empresa pública que administra os portos de Paranaguá e Antonina. No entanto, apesar de o pedido de informação ter sido feito no dia 17 de abril e reiterado nessa quarta-feira, 23 de abril, a empresa não respondeu à solicitação da reportagem.
Já o Porto de Santos, em São Paulo, único porto brasileiro que supera o de Paranaguá, respondeu ao JB Litoral como funciona a operação de cargas, inclusive as do Irã.
“Toda operação portuária em Santos é autorizada pelas autoridades anuentes por meio do sistema eletrônico ‘Porto Sem Papel’. Quando todos esses anuentes autorizam a operação, aparece uma luz verde para a Autoridade Portuária de Santos (APS). Com isso, a APS autoriza a operação do navio no porto. Essa prática é feita para todos os navios, seja qual for sua procedência ou destino”, informou.
Parceria diplomática e comercial
O JB Litoral também conversou com o Economista, Doutor em Sociologia e professor do Centro Universitário Internacional Uninter, em Curitiba, Marcos Valle. Ele explicou que o Brasil tem relações diplomáticas com o Irã há mais de um século e, além disso, os dois países mantêm boas relações comerciais.
“A gente exporta para o Irã, sobretudo, grãos, carne e, principalmente, milho, entre outros produtos derivados. Já no campo da importação, eles são os nossos principais fornecedores de ureia. E nessa relação comercial, a princípio, não há nenhuma restrição, porque, como ela passa por agentes internacionais de verificação, documentação, e depende de autorização para entrada no território, para chegar ao porto para fazer devidas trocas comerciais, tudo isso acontece dentro da questão legal”, detalhou Valle.
Ainda de acordo com o especialista, o que existe são recomendações dos Estados Unidos em relações ao país do sudoeste asiático.
“O posicionamento dos Estados Unidos em relação ao Irã é por conta de outras disputas, uma delas relacionada à questão de armas nucleares e energia. Nesse sentido, o país norte-americano força um embargo, faz recomendações de não estabelecer acordos comerciais e cria um sentimento de insatisfação à medida que essas relações acontecem, tentando criar situações de isolamento internacional ao Irã”, destacou.
“Então, dentro da questão comercial, o Brasil faz a sua parte, no sentido de estabelecer trocas, que são importantes. Não vamos deixar de exportar, porque é importante para a nossa receita, para a nossa economia, e também não deixaremos de importar, porque esse insumo é muito importante para o agronegócio, para a produção no Brasil”, completou.
