Servidora denuncia vereador de Guaraqueçaba por assédio, perseguição política e uso indevido de programa público


Por Brayan Valêncio Publicado 20/07/2025 às 21h55

A fiscal do programa social “Estrelas do Mar”, Beatriz Ferreira Alvez, denunciou ao Ministério Público do Paraná (MPPR) o vereador e pastor Elton Mendes Ambrósio (MDB) por uma série de supostas irregularidades em Guaraqueçaba.

O JB Litoral teve acesso à íntegra da denúncia. A mulher afirma ter sido alvo de coação, assédio moral, perseguição política e retaliação depois de se recusar a mobilizar mulheres do programa para limpar a Ilha de Almeida durante um evento da igreja Assembleia de Deus, da qual o vereador é pastor.

ilha do almeida
Servidora denúncia que vereador exigiu limpeza para realização de um evento de sua igreja, mas sua recusa resultou na substituição Foto: Divulgação

Segundo Beatriz, o pedido foi feito no dia 6 de junho de 2025, sob frio e chuva intensa. Ao contestar a ordem por questões de saúde e segurança das trabalhadoras, ela afirma ter sido ameaçada. “Vou mudar a fiscalização aí. Depois da festa da igreja, vamos ver”, teria dito o vereador.

O áudio enviado por Ambrósio à servidora confirma a pressão e a tentativa de responsabilizá-la pela recusa das mulheres. “Você é fiscal aí, né? Você tem que dar uma palavra positiva. Tem que dar uma palavra positiva tipo ‘vocês que estão bem de saúde mulherada’ [vão lá]”, diz o vereador. Em outro trecho, reforça, “não custa nada, Beatriz. Não custa nada uma pessoa fazer meia hora de limpeza. Não custa nada”.

O vereador é pastor e teria tentado utilizar a estrutura governamental para garantir a limpeza de um espaço onde realizaria um evento de sua igreja. Foto: Divulgação.
O vereador é pastor e teria tentado utilizar a estrutura governamental para garantir a limpeza de um espaço onde realizaria um evento de sua igreja. Foto: Divulgação.

Na mesma gravação, Ambrósio sugere que, por conta da postura da fiscal, haveria mudanças na equipe. “Essa semana aí eu já vou ver alguém pra colocar aí, tá bom, como fiscal, pela forma que você me tratou.” Em outro ponto, ele é ainda mais explícito: “Deixa eu passar essa festa aí, nós vamos ver certinho isso aí, beleza? […] Querendo ou não, a gente é autoridade do lugar”, disse em áudio também obtido pelo JB Litoral.

Para Beatriz, a fala confirma a perseguição política. Ela foi removida da função no dia 11 de junho, cinco dias após se negar a acatar a ordem. No lugar dela, foi nomeada a irmã do vereador.

Criado por lei municipal, o programa “Estrelas do Mar” tem como objetivo promover educação ambiental e geração de renda para mulheres em situação de vulnerabilidade. A denúncia aponta que o vereador usou a estrutura pública para atender interesses particulares da igreja, o que pode configurar desvio de finalidade, abuso de poder, nepotismo e violação à laicidade do Estado.

“Não é que a gente não quer fazer, é que não tem condições. Está tudo molhado, empossado. Eu só coloquei a minha situação e a situação das meninas que estão doentes. O senhor está pensando em você pelo jeito”, rebate Beatriz em um dos trechos em que responde à pressão do vereador.

No pedido encaminhado ao MPPR, ela solicita a investigação formal do caso, o afastamento cautelar de Ambrósio de cargos de liderança na Câmara, medidas protetivas para si e sua família e o acompanhamento psicológico das envolvidas. A denúncia está registrada no sistema “MP Atende” e encontra-se em fase de atendimento.

A reportagem procurou tanto Beatriz Ferreira Alvez quanto o vereador Elton Mendes Ambrósio, mas não obteve retorno até a última atualização deste texto. O espaço segue aberto para manifestações.

Ouça o áudio:


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.

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