Orgulho de pertencer a esta terra, onde a história de Paranaguá é escrita todos os dias pelo seu povo
Ela tem um jeito único de ser, agir e sentir, desde as crianças brincando nas ruas, de pés descalços, passando pelos vizinhos que se conhecem há gerações, até a paisagem com o vai-e-vem dos navios. É também a cidade da convivência harmoniosa entre pescadores, trabalhadores portuários, altos executivos e gente comum — que é a maioria — e que faz de Paranaguá uma das cidades com maior PIB do Estado, baluarte da história paranaense.
Nesta terça-feira (29), os parnanguaras comemoram os 377 anos da cidade — que está, sim, diferente; está mais Paranaguá. Essa valorização do que é da terra transborda, seja em eventos tradicionais, como a Festa Nacional da Tainha, seja na arte em que o povo se reconhece. É o caso da Passarela dos Valadares, que se transformou em uma obra de arte de 1.500 m², ilustrada com a temática caiçara da andada dos caranguejos.
O autor da obra tem sangue parnanguara e cresceu nas ruas históricas da cidade. Giovani Fanini Negromonte, o Gio Negromonte, 32 anos, é artista e advogado. Filho de mãe parnanguara e pai recifense, Gio nasceu no Recife (PE), mas se mudou para Paranaguá com a família aos 3 anos de idade.

“Através da arte, das cores, da pintura de modo geral, eu sempre trabalhei uma noção de pertencimento, da lógica da cultura local. Há anos, percebi que a sociedade parnanguara tinha uma baixa autoestima, o costume de só achar bonito o que é o dos outros. Então, quando comecei a pintar, a produzir arte, passei a fazer as minhas produções pensando nisso, em como fortalecer a nossa cultura”, disse Gio, ao JB Litoral.
O artista também detalhou em que o “ser de Paranaguá” impactou em seu modo de produzir cultura.
“O processo de crescer aqui faz parte do modo como eu enxergo o mundo, de como me porto nele. E isso que é muito legal, porque você vê como os parnanguaras, quando eles saem daqui, como eles se viram em qualquer lugar. A gente tem uma malandragem própria, é aquela coisa do bagre ensaboado, mas com esporas também. É um modo de vida próprio”, explicou Gio.
Declaradamente Influenciado pela natureza, pela Serra do Mar, pelos rios e por toda a beleza natural e histórica da cidade, Gio Negromonte tem um sonho para Paranaguá.
“Ela é a Mãe do Paraná, mas ela é tratada meio que como madrasta. E o que a gente sonha é que ela se torne tudo aquilo que pode ser – uma cidade rica em cultura, rica em história, com muito turismo, o nosso povo sendo bem tratado, com as ruas limpas, com as casas coloridas, com muito mais arte”, completou.
Comida e afeto
Além de ser uma população que começa a se enxergar de uma outra forma e vivencia um resgate da sua identidade, o parnanguara adora comer bem. E um evento que une tudo isso é a Festa Nacional da Tainha. A edição deste ano aconteceu de 11 a 20 de julho e fez parte da programação de aniversário da cidade.
“Nós tivemos 11 barracas de diversas comunidades, como Amparo, Piaçaguera, Ponta do Ubá, Ilha dos Valadares, Vila Guarani, entre outras. O evento gerou 160 empregos diretos, sem contar o pessoal que acaba trabalhando nos bastidores. Então, para nós, foi muito bom isso, porque é a economia local sendo valorizada”, avaliou o secretário Municipal de Pesca e Abastecimento, Márcio Vega.

Considerada uma das melhores edições dos últimos anos, durante a Festa, foram vendidos 11.500 kg de frutos do mar e quase 10 toneladas de tainha.
“Quero deixar uma mensagem para as comunidades das nossas ilhas, das nossas colônias: a de valorizar o trabalho deles, pois tudo nasceu aqui. Valorizar o povo, a cultura, entender que esse é o espaço deles, e que vamos sempre lutar para preservar tudo isso”, completou Vega.
E quando o assunto é comida, a cozinheira Denise Saturnino, de 43 anos, é autoridade no tema. Parnanguara, ela segue há 30 anos os passos da mãe, com quem sempre participou da Festa da Tainha, até o falecimento dela, no ano passado.

“Participei de quase todas as edições da festa. A desse ano foi muito boa, os barraqueiros ganharam, venderam bem, ninguém saiu no prejuízo”, comemorou.
Sobre o sentimento de ser de Paranaguá, Denise respondeu sem titubear. “Eu tenho muito orgulho de ser parnanguara, muita satisfação de ter nascido aqui, de morar aqui e viver aqui para o resto da minha vida, com meus filhos e meus netos”.
Voz local
Para fechar a programação da Festa da Tainha, a cantora Monique Santin, 33 anos, se apresentou diante de milhares de pessoas. Antes do show da dupla sertaneja Thaeme e Thiago, a atração local encantou.

“Foi maravilhoso, extraordinário, um sentimento muito gratificante cantar para o meu povo. Cantar para nossa gente é diferente. Então, fiquei em êxtase”, disse a cantora, que já tinha se apresentado em outras duas festas de aniversário de Paranaguá.
Além de cantora, Monique também é radialista e professora, mas, para ela, a sensação de subir ao palco, em casa, não tem igual.
“Quando eu entrei no palco e vi aquele mar de gente, foi muito gratificante. E o reconhecimento do público parnanguara é incrível. Em todos os lugares que eu vou, todas as pessoas que falam comigo, não tem explicação”.
A artista terminou a conversa com o JB Litoral expondo o que deseja para Paranaguá.
“O que eu quero para o futuro é que Paranaguá seja mais valorizada, que os patrimônios culturais sejam mais preservados, que a cultura também seja mais valorizada. Acho que é o que todo parnanguara quer”, concluiu.
Da gastronomia ao artesanato: Paranaguá em cada ponto
Outra tradição de Paranaguá é a Feira da Lua, que reúne artesãos e vendedores de guloseimas todas as terças-feiras na histórica Praça Eufrásio Corrêa (mais conhecida como Praça dos Leões). Além desses parnanguaras, que atuam o ano inteiro, a cidade agora conta com mais um espaço dedicado à atividade: a Vila do Artesanato.
“O projeto surgiu de uma pesquisa e de uma conversa da Secretaria de Cultura, principalmente do Centro Histórico, com os artesãos. Nós entendemos que aqui seria um bom espaço para a vila, porque ela pode ser ampliada. Hoje, nós estamos com 21 barracas aqui, mas temos potencial para chegar a 70”, detalhou o secretário de Cultura e Patrimônio Histórico de Paranaguá, Ivan Lapolli Filho.
A artesã Selma Leite, de 63 anos, é uma das profissionais que expõe seus produtos na Vila. Ela conta que é parnanguara de coração, pois foi acolhida pela cidade há quase 40 anos, quando trocou Moreira Sales, no norte do Paraná, pelo Litoral.

“Meu trabalho está tão ligado à terra que, desde que fiz um curso de artesanato com fibra de bananeira, há 12 anos, vivo disso. Fui aprendendo aos poucos, plantei bananeiras no meu quintal e tiro minha matéria-prima de lá. A banana vem da terra daqui de Paranaguá, e é com ela que faço meus trabalhos”, contou Selma.
Com isso, a artesã usa todo seu talento e técnica para produzir bandejas de café, bolsas e outras peças.
“Eu me sinto muito orgulhosa por plantar, colher e multiplicar. Eu sou parnanguara de coração, meus netos são todos nascidos aqui e eu não iria embora daqui para lugar nenhum desse mundo. Quando eu vim para cá, Paranaguá me acolheu, a mim e aos meus filhos”.
Cidade Mãe
Mãe dos seus filhos “legítimos” e de tantos outros que adota. Assim como acolheu Dona Selma há 40 anos, Paranaguá recebeu, há menos de três anos, a família de Diego do Nascimento Páscoa: ele, a esposa e as três filhas do casal.
“Nós viemos de Santos, São Paulo, e estamos muito felizes aqui. Agora, estamos passeando, vendo os artesanatos e mostrando a cidade para a minha sogra e o meu sobrinho, que vieram nos visitar”, disse.

A filha mais velha de Diego, Sofia Páscoa, 16 anos, também aprovou a mudança e já fala como cidadã parnanguara.
“Eu acho uma cidade muito boa, bem diferente de onde vim. Aqui, acho que a cultura é bem valorizada e muito legal. Adoro morar aqui”, declarou a adolescente.
E assim seguirá sendo, como nos últimos 377 anos, uma Paranaguá acolhedora e terreno fértil para quem se dispõe a plantar.

