Paranaguá Previdência nega vínculo com Banco Master e afirma que recursos estão seguros


Por Redação Publicado 20/02/2026 às 14h13

Na última quarta-feira (18), o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno S.A. e da Pleno Distribuidora Títulos e Valores Mobiliário S.A., instituições relacionadas ao Banco Master. As novas liquidações fazem parte de uma série iniciada em novembro de 2025, totalizando 8 entidades, por suspeita de irregularidades cometidas, as quais envolvem esquema de pirâmide, uso de empresas de fachada, triangulação por meio de fundos e oferta de carteiras fictícias de créditos.

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Paranaguá Previdência é responsável por assegurar o pagamento de benefícios aos servidores municipais de Paranaguá. Foto: Maria Heiffer/JB Litoral

O caso é apontado como uma das maiores fraudes bancárias da história do Brasil e o assunto veio à tona após o jornal Folha de S. Paulo divulgar um levantamento com base em dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Ministério da Previdência, apontando que três previdências estaduais e 98 municipais colocaram recursos em cinco fundos de investimento conectados ao Banco Master, entre elas Paranaguá.

Autarquia municipal criada em 2006, a Paranaguá Previdência tem a finalidade de gerir o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) dos servidores públicos do Município. Atualmente, a entidade é responsável pelo pagamento de 949 servidores aposentados (663) e pensionistas (286), e arrecada de 4.242 servidores ativos (4.190 do Fundo Previdenciário e 52 do Fundo Financeiro), segundo dados oficiais do Cadprev (Sistema de Informações dos Regimes Públicos de Previdência Social), do Governo Federal. Recentemente, o instituto teve o nome envolvido no caso do Banco Master, mas negou a relação e afirmou que não há risco aos beneficiários.

No entanto, a apuração do veículo paulista indicou que o fundo Brazilian Graveyard and Death Care Services (CARE11) – ligado ao Master, administrado pela Zion Invest, teve como maior investidor o instituto de Paranaguá, que aplicou R$ 1,6 milhão até o fim do ano passado.

Instituto explica investimentos

O JB Litoral procurou o diretor-presidente da Paranaguá Previdência, Ali El Kadri, que enviou uma nota sobre o assunto. Ele explicou que o aporte no fundo Brazilian Graveyard and Death Care (CARE11) foi realizado em julho de 2017, período em que não havia vínculo com o Banco Master.

“O Instituto Paranaguá Previdência não possui e nunca possuiu recursos investidos em fundos ou produtos financeiros do Banco Master, tampouco realizou aportes em CDBs ou outros ativos vinculados à referida instituição”, disse El Kadri.

A posterior alteração da administração do fundo para o Banco Master, ocorrida apenas em 2025, não contou com o voto favorável da Paranaguá Previdência, de acordo com o diretor do instituto.

“Atualmente, o fundo CARE11 encontra-se sob administração de outra instituição, e o Instituto segue acompanhando os desdobramentos, sempre com foco na preservação dos recursos previdenciários e no cumprimento da legislação aplicável”, informou a Paranaguá Previdência.

A autarquia é responsável por assegurar a concessão e o pagamento de benefícios previdenciários aos servidores municipais e seus dependentes e garantir a sustentabilidade financeira do sistema.

Questionado sobre onde se encontram os fundos, El Kadri informou que “os recursos estão aplicados em grandes instituições financeiras do Brasil”, que os dados podem ser acessados pelos pensionistas no site do Cadprev e que são auditados pelo Ministério da Previdência.

Após perdas milionárias, TCE ordena saída de fundo de alto risco

De acordo com informações divulgadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), em outubro de 2025, a Paranaguá Previdência investiu R$ 5 milhões, em 2016, em um fundo imobiliário chamado Osasco Properties. Com o passar dos anos, passou a apresentar desempenho negativo e problemas graves de liquidez, reduzindo o valor do investimento para pouco mais de R$ 1 milhão (em fevereiro de 2025).

Em 2021, o Conselho Monetário Nacional (CMN) editou normas mais rígidas que proibiram os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) de manter investimentos em fundos administrados por instituições classificadas como de alto risco. O prazo legal para o resgate desses investimentos era de 180 dias. A Paranaguá Previdência, porém, não realizou o desinvestimento no prazo.

Em decisão unânime, o TCE determinou que a Paranaguá Previdência faça o desinvestimento integral do fundo ou adote medidas para liquidá-lo, inclusive com eventual responsabilização do fundo ou de seus administradores.

Caso as ordens não sejam cumpridas, o TCE-PR poderá aplicar multa ao administrador da autarquia e impedir a emissão de certidão liberatória. A Paranaguá Previdência tem até 23 de julho deste ano para atender as determinações, de acordo com o TCE.

Saúde financeira da instituição

Mesmo com essa determinação do TCE, o Comitê de Investimentos da autarquia afirmou que a saúde financeira da instituição nunca esteve tão boa. “Somente no mês de janeiro, a rentabilidade foi de R$ 19 milhões devido a uma ampla carteira de investimentos. Ou seja, não há qualquer risco para os beneficiários ”, informou o Comitê.

Alguns fundos, segundo a Paranaguá Previdência, têm períodos de carência. Sendo assim, não se pode mexer na aplicação a qualquer momento, ainda que estejam em prejuízo. De acordo com a autarquia, em Paranaguá o servidor contribui com 14% do salário e o Município manda mais 17% para a Paranaguá Previdência.

“Pegamos esse dinheiro e aplicamos, porque lá na frente temos que pagar 100% do benefício. Temos uma meta para alcançar todo mês. Essa meta é a inflação e mais um coeficiente. A carteira oscila, temos dinheiro em título público, título privado, e até no exterior, em ações, temos uma carteira gigantesca de investimento. Os fundos têm oscilações, tanto para baixo quanto para cima”, explicou o instituto.

Quanto à determinação do Tribunal de Contas, o instituto disse que não se questiona o investimento, mas o porquê de ainda não ter sido retirado. “Para sair do fundo temos que vender, e se vendermos por menos o TCE irá nos questionar quanto ao prejuízo deste fundo, porque oscila muito. Em resposta, nós já montamos todo um cronograma, vamos pedir mais prazo, porque não vamos conseguir vender dentro do prazo que eles estipularam”, ressaltou a Paranaguá Previdência.

A previdência municipal em números

O JB teve acesso ao Relatório da Avaliação Atuarial, que analisa a sustentabilidade financeira dos regimes de previdência, relacionado ao ano de 2024. O documento, entre outros dados, traz as informações do fundo previdenciário, que apresentou um custo total de R$ 1,9 bilhão.

Se comparado ao total das receitas esperadas com contribuições, compensações e os saldos de investimentos e parcelamentos, um total de R$ 1.947.914.270,38, resulta em um superávit atuarial de R$ 46,6 milhões, valor equivalente a 2,09% da folha salarial futura. O superávit atuarial ocorre quando um resultado positivo demonstra a solidez financeira, indicando que há recursos suficientes para cobrir as aposentadorias e pensões futuras.

Como funciona a previdência

Os regimes públicos de previdência têm adesão obrigatória para todos os cidadãos que exercem atividades remuneradas. No caso dos trabalhadores que têm carteira assinada, é descontado todo mês um valor diretamente no salário. Esse desconto varia de acordo com o ganho de cada assalariado.

O grupo de segurados da Paranaguá Previdência é composto por servidores municipais efetivos que são da Prefeitura, Câmara de Vereadores, Autarquias e Fundações. A instituição tem 4.346 contribuintes ativos (com renda salarial média de R$ 5.303,68) e 489 beneficiários (com renda média de R$ 2.948,39). Os dados são de dezembro de 2024.

A nível de comparação, o JB Litoral verificou os dados do boletim da Previdência Social por município. Em Paranaguá, pelo INSS, no mesmo período, em dezembro de 2024, havia 12.792 aposentados pelo INSS, sendo 5.263 aposentadorias por idade, 1.634 aposentados por invalidez e 5.895 segurados por tempo de contribuição. Sem contar os que recebem auxílios ou outros benefícios previdenciários.

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