Qual cidade do Litoral tem mais mulheres à frente de secretarias municipais? O JB traz os dados dos sete municípios


Por Gabriela Perecin Publicado 07/03/2026 às 21h21 Atualizado 09/03/2026 às 09h36

Motivadas pelo desejo de transformar suas comunidades, mulheres que ocupam cargos de liderança pública no Litoral revelam que, muitas vezes, precisaram provar sua competência mais vezes do que colegas homens. Apesar dos avanços, barreiras estruturais e culturais ainda são apontadas como fatores que dificultam que elas alcancem posições de destaque no serviço público. Em Paranaguá, maior município da região, dos 5.732 servidores que atuam na Prefeitura, 3.964 são mulheres — ou seja, 69,17% do quadro é formado por elas. Mas essa maioria não se reflete nos cargos de secretariado.

Mesmo sendo maioria no serviço público, as mulheres ainda são minoria nos cargos de liderança no Litoral do Paraná. Das 114 secretarias municipais da região, apenas 35 são comandadas por elas, o que representa 30,7% de representatividade.
Mesmo sendo maioria no serviço público, as mulheres ainda são minoria nos cargos de liderança no Litoral do Paraná. Das 114 secretarias municipais da região, apenas 35 são comandadas por elas, o que representa 30,7% de representatividade. Foto: Prefeitura de Paranaguá

O JB Litoral apurou a quantidade de secretarias municipais em cada uma das sete cidades do Litoral e chegou a um número que reforça que elas estão presentes, mas que o cenário poderia ser melhor. Hoje, das 114 secretarias responsáveis por áreas como Saúde, Obras e Educação nas prefeituras da região, apenas 36 são comandadas por mulheres. O número corresponde a 31,6% de representatividade nos cargos de liderança.

De todos os municípios do Litoral do Paraná, proporcionalmente, Morretes se destaca como o que concentra maior número de pastas nas mãos de gestoras: 42,86% (14 secretarias no total, seis com mulheres no comando).

Em Paranaguá, maior município da região, a cidade ocupa a segunda colocação em representatividade feminina na liderança das pastas. Das 19 secretarias, oito possuem mulheres à frente (42,11%).

Em Pontal do Paraná, são 16 secretarias, sendo seis lideradas por mulheres (37,5%). Em Antonina, são 20 secretarias, sendo seis com mulheres no comando (30%).

Já Guaratuba tem 18 secretarias municipais, quatro delas comandadas por mulheres (22,22%). Em Guaraqueçaba, são 14 secretarias, sendo três lideradas por mulheres (21,43%).

Matinhos tem o menor índice de liderança feminina: das 15 secretarias municipais, somente três têm mulheres no comando (20%).

Desafios históricos

Formada em Serviço Social pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carolina de Miranda Evangelista Lourenço entrou no ramo político no ano passado. Ela é atual secretária municipal da Mulher, Desenvolvimento Social e Igualdade Racial, com o objetivo de implementar ideias voltadas à política de assistência social, enfrentando desafios históricos de orçamento e estrutura.

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Carolina Lourenço falou sobre os desafios das mulheres em vulnerabilidade. Foto: Maria Heiffer/JB Litoral

“Quando assumimos um espaço de poder sendo mulher, sendo um nome novo na política, acabamos sofrendo comentários que nos qualificam a partir do ponto de vista das próprias pessoas, não pela nossa competência. Precisamos estar a todo momento reafirmando nosso valor diante de espaços que foram dominados, historicamente, por homens”, disse Carolina.

Ela acredita que, para a mulher ocupar um cargo de liderança, é preciso ter apoio da família e de outras mulheres, principalmente pelo fato de ainda estarem responsáveis por um trabalho “invisível”.

Se analisarmos o Cadastro Único, ele nos mostra que a maior porcentagem de mulheres está em situação de vulnerabilidade, são mães solo. Ou seja, têm filhos para cuidar, trabalho, casa. São trabalhos que as mulheres precisam desempenhar durante o dia e que não são remuneradas por isso”, afirmou a secretária.

Mulher também ganha eleição

Hoje como secretária municipal de Educação de Guaratuba e vice-prefeita da cidade, Evani Justus (MDB) já foi prefeita por oito anos. Embora tenha alcançado um papel de destaque, seus familiares, no início, quiseram lançar a candidatura de seu marido ao invés dela como prefeita, defendendo a ideia de que “mulher não ganhava eleição”.

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“Estamos conquistando, aos poucos, espaços de destaque”, disse Evani Justus. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

“Eu respondi que não tinha problema, que eu continuaria meu trabalho independente de eleição”, ressaltou Evani.

Para Evani, as mulheres precisam ter coragem para chegar nos cargos de liderança, movimento que deve ser incentivado também por outras mulheres.

“Quando me tornei prefeita, havia poucas vereadoras mulheres. No ano seguinte, já eram cinco. Se hoje temos uma mulher começando, as outras passam a ter coragem também. Estamos conquistando o nosso espaço. Mas não podemos ter medo, é preciso mostrar do que somos capazes”, ressaltou.

Sensibilidade e técnica andam juntas

O que motiva a secretária de Ação Social em Morretes, Maria Cristina Moraes da Costa, é o trabalho e a superação. Antes de chegar à gestão pública, ela contou que trilhou um caminho marcado pela persistência e busca pelo conhecimento.

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Morretes é a cidade do Litoral que, proporcionalmente, tem mais mulheres liderando secretarias; uma delas é Maria Cristina Costa. Foto: Prefeitura de Morretes

“Fui babá, menor aprendiz, empregada doméstica e diarista. Decidi que os estudos seriam minha ferramenta de mudança. Fui aprovada logo no primeiro concurso que prestei para Assistente Social em Morretes. A liderança surgiu como consequência da minha dedicação e do reconhecimento de pessoas”, relatou Maria Cristina.

O maior desafio, segundo ela, foi o exercício constante de demonstrar que a competência técnica é indispensável.

“Lidei com as pressões do cargo, mostrando que olhar para o lado humano e social com empatia não enfraquece a gestão, pelo contrário, a torna muito mais assertiva e eficiente. Precisamos mostrar que a sensibilidade e a técnica podem, e devem, caminhar juntas”, frisou Maria Cristina.

Dedicação à saúde

O compromisso com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) é a motivação diária da doutora em Enfermagem e secretária municipal de Saúde de Pontal do Paraná, Michele Straub. Segundo ela, para ocupar espaços públicos é preciso abraçar a missão de transformar realidades.

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A secretária de Saúde de Pontal do Paraná, Michele Straub, levanta a bandeira do Sistema Únicos de Saúde (SUS). Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral

Acredito que liderar na gestão pública é assumir o desafio de equilibrar responsabilidade técnica, sensibilidade social e transparência. É compreender que cada decisão impacta vidas e territórios, especialmente os mais vulnerabilizados”, considerou Michele.

A secretária de Saúde também destacou que há uma cobrança para que as mulheres gestoras sejam “firmes”, mas também tenham postura “adequada”. Embora haja essa expectativa, Michele afirma que lida com isso investindo em qualificação e no diálogo. Para ela, não se trata de competir com homens, mas de questionar estruturas historicamente excludentes.

“A segurança no conhecimento e na legalidade das decisões é uma ferramenta importante de enfrentamento. Busco fortalecer redes de apoio entre mulheres na gestão pública, porque a transformação é coletiva. Em Pontal, temos um grupo de mulheres ocupando funções estratégicas, nas quais me espelho e me apoio”, declarou Michele.

Ainda segundo ela, é fundamental políticas institucionais concretas, como incentivo à participação feminina em espaços decisórios e a transparência nos critérios de nomeação. “A democracia se fortalece quando a gestão pública reflete a diversidade da sociedade que representa. E sim, as mulheres fazem diferença!”, completou Michele.

Visão de liderança

Para a secretária municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Matinhos, Kássia Novochadlo, a entrada na política partiu da vontade de transformar ideias em ações que pudessem impactar positivamente a vida das pessoas.

Kássia está à frente do Turismo e Desenvolvimento Econômico de Matinhos. Foto: Arquivo Pessoal
Kássia está à frente do Turismo e Desenvolvimento Econômico de Matinhos. Foto: Arquivo Pessoal

“A política, quando exercida com responsabilidade e visão de futuro, é uma ferramenta importante para promover desenvolvimento e criar oportunidades. Assumir uma posição de liderança, para mim, significa ter a responsabilidade de trabalhar com seriedade, diálogo e dedicação para que as decisões públicas gerem resultados reais para a cidade”, declarou Kássia.

O reconhecimento, para ela, decorre do trabalho feito com seriedade, preparo e compromisso. “Apesar dos avanços que tivemos nos últimos anos, ainda existem barreiras culturais importantes que acabam dificultando a presença de mais mulheres em espaços de liderança pública”, disse Kássia.

Essas barreiras podem ser quebradas, de acordo com Kássia, à medida que mais mulheres assumirem cargos de liderança e contribuírem para a construção de políticas públicas mais sensíveis e equilibradas. “Quanto mais abrirmos caminhos e oportunidades, mais natural será ver mulheres participando e liderando processos importantes na vida pública”, frisou a secretária de Turismo de Matinhos.

Em defesa dos direitos

Antonina e Paranaguá são as únicas cidades que possuem Secretarias Municipais dedicadas a tratar dos direitos das moradoras. Em Antonina, a nomenclatura é Secretaria Municipal Especial da Mulher, comandada por Thaiz Batista Cordeiro. Formada na área de Comunicação e especializada em Marketing Político, ela iniciou na Câmara de Paranaguá assessorando uma vereadora que posteriormente se tornou secretária da Mulher, Vandecy Dutra.

Thaiz Secretaria de Mulher Antonina
Thaiz Batista Cordeiro é secretária da Mulher em Antonina e luta pelos direitos das moradoras. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral

Thaiz participou de todos os trâmites para a implantação da então Secretaria da Mulher de Paranaguá, a primeira do Litoral. Foi assim que surgiu a vontade de atuar na defesa dos direitos da mulher.

“Descobrimos novos caminhos que deram certo na época e hoje trago como referência para Antonina. Na maioria dos cargos que ocupei, fui a mulher mais jovem desses espaços de poder e decisão, mas aprendi que a melhor resposta é o trabalho, a dedicação e os resultados”, contou Thaiz.

A carga de responsabilidade colocada na mulher ainda é um obstáculo para que outras assumam cargos de liderança, de acordo com ela. “A mulher sempre foi vista como a responsável pelo lar e pelos filhos, e isso tira tempo, energia e oportunidade para que estude, se prepare e se envolva politicamente dentro do seu município”, declarou Thaiz.

A secretária é representante da única cidade do Litoral do Paraná que tem uma mulher como prefeita. “Isso fortalece todas nós, por isso é tão importante ampliarmos a rede de apoio às mulheres, investirmos na formação, no incentivo e no despertar do interesse delas pela vida pública, mostrando que a política também é lugar de mulher”, concluiu Thaiz.

Protagonismo na educação 

Dos sete municípios do Litoral, seis possuem mulheres à frente de Secretarias Municipais de Educação. Apenas Paranaguá não entra na lista. A secretária de Educação de Guaraqueçaba, Alessandra Morais da Costa, relatou que vê um movimento crescente no fortalecimento da liderança feminina, com mais formação e protagonismo.

 Alessandra – Guaraqueçaba
Entre os municípios do Litoral, seis têm mulheres comandando a Secretaria de Educação; Alessandra é a representante de Guaraqueçaba. Foto: Arquivo Pessoal

“Acredito que a gestão pública é um espaço de transformação real, onde decisões responsáveis impactam diretamente a vida das pessoas, especialmente das crianças e das profissionais que atuam na rede municipal de Educação. Assumir um cargo de liderança foi um passo natural dentro dessa trajetória de dedicação, sempre com foco na melhoria da qualidade do ensino e na valorização das equipes”, afirmou a secretária.

Alessandra compartilha da mesma opinião que outras líderes do Litoral quando o assunto são os desafios estruturais que impedem que mulheres alcancem cargos de protagonismo.

“Ainda existe a cultura de sempre associar cargos de poder aos homens e, ainda, falta incentivo para que mulheres se enxerguem como líderes, além da sobrecarga da dupla jornada. Por outro lado, é fundamental continuar incentivando a participação nos espaços de decisão, promovendo equidade e oportunidades reais”, pontuou a secretária de Educação de Guaraqueçaba.

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