Ficará no escuro? MPF pede suspensão de licenciamento de Superpostes na Orla de Matinhos e Justiça Federal faz determinações ao IAT


Por Redação Publicado 19/07/2026 às 19h40
Equipados com placas fotovoltaicas, as estruturas utilizam a luz do sol para gerar parte da própria energia que consomem.
Equipados com placas fotovoltaicas, as estruturas utilizam a luz do sol para gerar parte da própria energia que consomem. Foto:AEN/PR

Eles já fazem parte da paisagem à beira-mar de Matinhos há dois anos. Com a instalação dos superpostes iniciada em fevereiro de 2024 e concluída em outubro do mesmo ano, as estruturas foram posicionadas ao longo dos 6,3 quilômetros de revitalização da orla, entre o Morro do Boi e o balneário Flórida. Na semana passada, porém, os “gigantes” de 17 metros de altura voltaram a ser alvo de medidas judiciais. Desta vez, a determinação da Justiça questiona o licenciamento ambiental do projeto que viabilizou a mudança da iluminação pública.

Os postes não estavam previstos no projeto inicial da requalificação da Orla de Matinhos, iniciada em 2022. Fotos: Gabriel Rosa/AEN
Os 145 superpostes foram instalados em 2024 e, segundo o MPF, não passaram pelo processo de licenciamento ambiental necessá

Atendendo a pedido do Ministério Público Federal (MPF), a Justiça Federal determinou que o Instituto Água e Terra (IAT) realize um Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) para avaliar a instalação de 145 superpostes. “A decisão acolhe os argumentos do MPF de que o novo sistema foi implantado sem o licenciamento adequado e sem estudos técnicos que pudessem medir os danos provocados pela luminosidade contínua na praia”, informou o órgão ministerial na quarta-feira (15).

HISTÓRICO DE ENTRAVES

De acordo com o MPF, as licenças concedidas anteriormente autorizaram a instalação das estruturas por meio de atos simplificados, sob a premissa de que os impactos seriam insignificantes. No entanto, na ação civil pública, o Ministério Público sustenta que as estruturas de grande porte alteraram drasticamente a paisagem e que a iluminação artificial projetada sobre a faixa de areia é excessiva, gerando uma luminosidade intensa, com riscos ao ecossistema costeiro.

Com base nisso, o MPF expediu a Recomendação nº 30/2024, dirigida ao chefe do Escritório Regional do IAT em Paranaguá, para que cancelasse a Autorização Ambiental nº 60128, bem como observasse o trâmite administrativo no Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Cepha). Também foi recomendada a realização do devido licenciamento ambiental, “tendo em vista danos potenciais às pessoas, aos animais, à vegetação e ao meio ambiente como um todo, pela exposição desregrada de luminosidade em período noturno”, diz o documento.

À época, em abril de 2024, conforme noticiou o JB Litoral, a instalação chegou a ser suspensa por três meses, sendo retomada em julho, após decisão da Justiça Estadual.

Os postes não estavam previstos no projeto inicial da requalificação da Orla de Matinhos, iniciada em 2022. Fotos: Gabriel Rosa/AEN
Os postes não estavam previstos no projeto inicial da requalificação da Orla de Matinhos, iniciada em 2022. Foto: Samar Iluminação e Engenharia

Depois dessa etapa, que permitiu a continuidade da instalação dos postes, em um projeto orçado em R$ 15 milhões pelo Estado, o IAT encaminhou um ofício à Samar Iluminação e Engenharia Ltda., empresa responsável pela execução da obra, determinando que os superpostes não fossem ligados até a complementação dos estudos.

No entanto, em 20 de dezembro de 2024, diante da proximidade do Ano-Novo e mesmo sem a conclusão dos estudos, o Instituto voltou a autorizar a ligação dos superpostes.

Leia também: Instalação de superpostes é retomada após decisão judicial, em Matinhos

O QUE MUDA COM A NOVA DECISÃO

Agora, com a determinação da Justiça Federal, que tem caráter liminar, o licenciamento ambiental do empreendimento deverá ser totalmente revisado. Segundo o MPF, o funcionamento do sistema poderá sofrer ajustes e restrições até que os estudos sejam concluídos e aprovados pelos órgãos competentes de planejamento e gerenciamento costeiro.

Procurado pelo JB Litoral, o Ministério Público Federal afirmou que a atuação do órgão  baseou-se em análises técnicas que apontam riscos concretos decorrentes da poluição luminosa, tais como:

• Danos à fauna e à flora: a exposição contínua à luz artificial durante a noite desorienta animais noturnos, interfere na rota de aves migratórias, perturba o ciclo reprodutivo de espécies costeiras e pode prejudicar organismos marinhos fundamentais, como o plâncton, e alterar o desenvolvimento da vegetação de restinga.

• Impacto visual na paisagem: os superpostes causaram forte impacto visual na “Paisagem da Orla Marítima de Matinhos”, descaracterizando a harmonia da área, que constitui Patrimônio Cultural do Paraná, tombado em 15 de fevereiro de 1970.

• Inversão de etapas: o MPF sustentou que as estruturas foram licitadas e instaladas antes de qualquer avaliação ambiental profunda e sem a manifestação prévia da Coordenação do Patrimônio Cultural. A Secretaria de Cultura do Estado do Paraná classificou os superpostes como elementos intrusivos “destoando da estética natural do ambiente” e criando “um elemento visual repetitivo e artificial cumulativo que se sobrepõe à paisagem natural”.

Também questionado pela reportagem, o IAT afirmou, na sexta-feira (17), que irá avaliar a determinação da Justiça Federal, em conjunto com a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), assim que for notificado da decisão.

Superpostes não estavam previstos em projeto inicial de requalificação da Orla de Matinhos

As recomendações expedidas pelo MPF e os pedidos posteriormente apresentados à Justiça Federal defendem o cancelamento do processo que levou à instalação dos superpostes, sob a alegação de que o projeto não tramitou previamente pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná nem foi submetido ao devido licenciamento ambiental para a instalação das estruturas.

Os superpostes não estavam inicialmente previstos no projeto da obra de engorda da Praia… [] A paisagem da orla marítima de Matinhos é tombada pelo Patrimônio Cultural do Paraná e os superpostes, da forma como foram instalados, influenciam direta e pejorativamente na paisagem. Se o projeto tivesse tramitado no Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico – CEPHA, haveria balizas para a instalação, que envolve número de postes, bem como localização. Ao contrário, os superpostes já foram instalados antes de qualquer tramitação na CEPHA”, ressalta a representação do MPF.

Segundo a procuradora da República Monique Cheker, o Cepha deveria “intervir no licenciamento da instalação dos superpostes para analisar primeiro o projeto e todos os aspectos da instalação, a exemplo da posição e da quantidade, para, só então, haver a efetiva instalação, se o projeto fosse aprovado”.

A procuradora também destacou, na recomendação, que alterar o aspecto ou a estrutura de local protegido por lei sem autorização da autoridade competente constitui crime ambiental.

O MPF também apurou que a Autorização Ambiental nº 60128, expedida pelo IAT, não apresenta estudos sobre os impactos da iluminação excessiva na orla de Matinhos.

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