Caiaques e bicicletas, doados pelo TCP à Ilha dos Valadares, estão parados desde 2016, denuncia AMIV

por Redação JB Litoral
26/09/2019 18:32 (Última atualização: 24/02/2020)

JB Litoral

Formada em 2013, por iniciativa do Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), como medida compensatória, a Rede Caiçara de Turismo de Base Comunitária existe na Ilha dos Valadares, na Ilha de Piaçaguera, Eufrasina, São Miguel e Ponta do Ubá. Esta rede, formada por grupo pesqueiro destes locais, tem o objetivo de desenvolver o turismo com influência direta do TCP, e surgiu no âmbito do Programa de Educação Ambiental às Comunidades, da empresa.

Por meio de capacitação, o Terminal planejou e executou ações para a implantação e gestão do turismo comunitário nestes lugares, como os cursos de agente ambiental e condutor turístico, que foram complementadas pela doação de materiais e equipamentos básicos solicitados pelos integrantes da Rede Caiçara. Ao todo, a empresa fez a doação de sete caiaques, sendo três para a Comunidade Marítima de Piaçaguera e quatro para a Ilha dos Valadares, a fim de estimular as atividades recreativas nestes locais. Além de 10 bicicletas, 10 capacetes e oito coletes salva-vidas para a Ilha dos Valadares.

No entanto, nas últimas semanas, a Presidente da Associação de Moradores da Ilha dos Valadares (AMIV), Mirian Mathias, denunciou, nas redes sociais, que estes equipamentos não estão sendo utilizados, prejudicando o turismo no local. “Os cursos foram realizados em 2013 e, em 2014, a doação dos equipamentos, no valor de R$ 15.800, foi quando começamos a realizar os passeios. A Rede iniciou com oito pessoas, que participaram dos cursos e são capacitadas, mas, atualmente, apenas seis fazem parte, porque eu e mais outra integrante saímos do grupo após discussões”, conta.
 

"Zuleide

“Parado desde 2016”
 

Segundo a presidente, desde quando ela saiu da equipe, em 2016, os passeios não acontecem e os equipamentos estão parados, sem utilização. “De lá para cá, o projeto parou, todos saíram do grupo e só está a Zuleide (dos Santos), que está com as coisas guardadas na casa dela. Mas, por exemplo, as bicicletas poderiam estar sendo utilizadas pela comunidade, os caiaques também, desenvolvendo o turismo na região”, diz.

Procurada pelo JB Litoral, Zuleide dos Santos, liderança comunitária na Ilha dos Valadares e principal responsável pela Rede Caiçara de Turismo de Base Comunitária do local, confirmou que os equipamentos se encontram em sua residência. “Os responsáveis são as pessoas que concluíram o curso, mas, atualmente, eles estão na minha casa e devem ser utilizados como medida de renda aos integrantes da Rede Caiçara. Não posso dar caiaques na mão de ninguém, nem as bicicletas, porque é o grupo que tem que utilizar para levar turistas”, explica.

De acordo com ela, estes equipamentos estão guardados porque não existe procura, pelos turistas, nos Valadares. “As bicicletas, por exemplo, na Ilha, existem milhões delas além das nossas, então não tem procura. E eu não vou dar uma bicicleta, para alguém, sem conhecer”, diz.

Questionada a respeito da situação dos materiais, ela declara que todos estão em boas condições, porque nem usados são. As bicicletas, agora, estão estragadas, porque caíram pedaços de madeira em cima delas e ficaram meio danificadas, mas estão andando, falta encher os pneus”, relata.

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“Equipamentos não são para a população”
 

Zuleide diz que os equipamentos não são para a população da Ilha dos Valadares, mas para a comunidade pesqueira do local, chamada de caiçaras. “Se eu levar o equipamento, ensiná-los, e eles fizerem tudo conforme eu falei, e o que está no estatuto, como tem que fazer, não tem problema nenhum, eles vão usar. Mas sempre tem um espírito de porco que quer o caiaque para fazer o que quiser, e vai esquecer que é para adquirir uma renda”, afirma.

Segundo ela, os passeios oferecidos pela Rede Caiçara não estão sendo procurados pelos turistas, mas podem ser adquiridos por meio do cardápio turístico da rede, disponibilizado no site www.redecaicara.wordpress.com/cardapio-turistico. “A gente quer que o TCP continue oferecendo estes cursos para agregar mais pessoas à Rede, para que também possam trabalhar, porque hoje está praticamente parado, pois eu só posso aos finais de semana. Os equipamentos estão na minha casa, quando tiver gente capacitada, estarão lá, e eles não são para a comunidade em geral, são para a Rede, que é formada por seis pessoas que administram da forma que querem”, esclarece a representante da Rede Caiçara de Turismo de Base Comunitária.

De acordo com o Estatuto da entidade, disponibilizado por Zuleide, o direito do grupo e dos membros é o de “lucrar, ser reconhecido por agências de turismo e ser respeitado por autoridades da cidade de Paranaguá”. E o dever dos membros é o de “cumprir com suas responsabilidades e não faltar mais do que três reuniões por ano”. Vale destacar que, segundo o documento, do valor cobrado pelos serviços de passeio, 10% deveria ser guardado no “caixa reserva” – este seria o lucro.

AMIV pede retorno dos passeios

A presidente da Associação lamenta que os passeios tenham sido paralisados, e solicita que o Terminal de Contêineres de Paranaguá volte a apoiar o projeto. “Eu, como moradora da Ilha há 43 anos, queria que o projeto voltasse e que fossem feitas mais parcerias entre o TCP e a AMIV, bem como com a Associação Mandicuera, que é de turismo. Os projetos realizados em conjunto com as associações sobreviverão ao tempo, pois será algo que estará na comunidade para sempre, independente de quem esteja à frente, agora com os grupos isolados de pessoas surgem brigas”, diz.

Ela afirma que o Estatuto da Rede não está registrado em Cartório e que a entidade não possui Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), que seria o documento básico de identificação da Rede Caiçara, possibilitando a consulta da situação do órgão.

O JB Litoral procurou o TCP, que se limitou a informar que “após a doação voluntária dos equipamentos, a gestão dos mesmos ficou a cargo das comunidades e dos integrantes da Rede Caiçara de Turismo de Base Comunitária”.

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