Associação nacional impulsiona presença feminina e debate igualdade nos portos


Por Gabriela Perecin

No mês dedicado às mulheres, a Associação Mulheres e Portos se prepara para completar quatro anos de atuação em defesa da maior participação feminina no setor portuário brasileiro. A entidade foi criada em 31 de março de 2022, a partir de uma conversa entre gestoras durante um evento nacional do setor realizado em Brasília, e hoje reúne mais de 130 integrantes de diferentes portos do país.

Entre as fundadoras — e hoje diretora de Marketing e Comunicação da Associação Mulheres e Portos — está Shana Bertol, diretora executiva do OGMO Paranaguá. Ela lembra que a ideia surgiu diante da baixa presença feminina nos espaços de discussão do setor.

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Há oito anos na direção executiva do OGMO Paranaguá, Shana Bertol acredita que a presença feminina no setor tende a crescer nos próximos anos. Foto: Maria Heiffer/JB Litoral

“Nos eventos que participávamos havia uma ou duas mulheres no meio de muitos homens. Em um café da manhã, durante um encontro em Brasília, surgiu a ideia de criar um grupo para discutir temas portuários e apoiar a presença feminina nesse ambiente, que muitas vezes intimida as mulheres”, contou a diretora.

Inicialmente informal, o grupo cresceu rapidamente e passou a reunir trabalhadoras portuárias, lideranças de órgãos de gestão de mão de obra, representantes de operadoras e profissionais de diferentes áreas ligadas aos portos. Atualmente, mulheres de estados como Paraná, Rio de Janeiro, Bahia e Maranhão participam ativamente da iniciativa.

De grupo informal a associação nacional

Com o crescimento da rede e o aumento das pautas discutidas, surgiu a necessidade de institucionalizar o movimento. Segundo Shana Bertol, a formalização permitiu ampliar o alcance e desenvolver novas ações.

“Entendemos que, como grupo, não conseguiríamos representar as mulheres em espaços importantes, como audiências públicas ou discussões com o Governo. Por isso criamos a Associação, elaboramos estatuto e obtivemos CNPJ, garantindo legitimidade para falar em nome dessas trabalhadoras”, explicou Shana.

A entidade conta com apoio da Federação das Operações Portuárias e atua a nível nacional na defesa da equidade de gênero no setor. Para alcançar os diferentes portos do país, a Associação estruturou comitês regionais, com representantes locais responsáveis por levantar demandas e articular ações junto às empresas e trabalhadores, como explicou a diretora.

“Cada porto tem suas particularidades. As representantes regionais entendem as necessidades locais e desenvolvem ações que incentivem a participação feminina e promovam melhores condições de trabalho”, afirmou Shana.

As irmãs gaúchas Eduarda e Fernanda Garcia da Costa foram as duas primeiras estivadoras do Porto de Paranaguá. Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

Participação feminina ainda é pequena

Apesar dos avanços e da presença das mulheres na faixa portuária, os números mostram que a presença feminina na área ainda é bastante reduzida. De acordo com levantamento citado pela Associação, apenas 0,7% dos mais de 16 mil trabalhadores portuários avulsos do país são mulheres.

Em Paranaguá, um processo seletivo realizado em 2024 trouxe mudanças nesse cenário. A seleção teve 7.415 inscritos, sendo 815 mulheres (10,9%). Ao todo, 37 foram aprovadas, sendo 10 chamadas imediatamente e outras 27 incluídas em cadastro reserva.

Entre elas estão as primeiras estivadoras da história do Porto de Paranaguá. Mesmo assim, o número de inscrições femininas ainda foi considerado baixo.

“Percebemos que muitas mulheres aprovadas vieram de outros portos, como Rio Grande, e não necessariamente de Paranaguá. Isso mostra que ainda existe um certo receio de ingressar na atividade, que historicamente foi vista como masculina”, disse a diretora.

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

Desafios estruturais e culturais

Entre os principais desafios apontados pelas trabalhadoras estão questões de infraestrutura, como a adaptação de banheiros e vestiários nos portos, além do combate ao assédio.

Segundo a Associação Mulheres e Portos, muitos trabalhadores ainda não conseguem identificar comportamentos que caracterizam assédio, devido à cultura tradicional do ambiente portuário. Para enfrentar o problema, a entidade tem promovido ações de conscientização e cursos sobre o tema.

“O setor está aprendendo. Antes não havia mulheres trabalhando nessas funções. Por isso é importante levar informação e promover mudanças culturais”, afirmou Shana.

Outro ponto discutido é a licença-maternidade para trabalhadoras portuárias avulsas, já que muitas vezes, ao se afastarem da atividade durante a gestação, acabam enquadradas de forma equivocada como auxílio-doença. A Associação explicou que trabalha junto a órgãos públicos para corrigir esse tipo de situação.

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

Formação e incentivo à entrada de mulheres

Uma das estratégias adotadas para ampliar a presença feminina no setor portuário é a qualificação profissional. Em Paranaguá, a Associação desenvolveu parcerias para formar mulheres em cursos de operadoras de equipamentos portuários, como empilhadeiras, capacitação que conta pontos em processos seletivos.

A iniciativa ajudou a equilibrar as condições de disputa com candidatos homens, que tradicionalmente já possuem esse tipo de formação. Empresas do setor também têm demonstrado interesse em contratar mulheres, segundo a diretora.

“Temos relatos de empresas que destacam o cuidado e a atenção das operadoras com os equipamentos, o que muitas vezes reduz avarias durante as operações”, destacou a diretora.

Transformação gradual

Embora o processo ainda seja gradual, as primeiras trabalhadoras portuárias já começam a abrir caminho para outras mulheres. Segundo relatos das próprias profissionais, o apoio de colegas homens nas operações tem sido fundamental para a adaptação ao trabalho.

“Elas têm sido desafiadas em algumas atividades que exigem esforço físico, mas contam com apoio da equipe. A tendência é que a presença feminina aumente nos próximos processos seletivos”, acredita Shana.

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

“O cais também é nosso”

Para Shana Bertol, o avanço da participação feminina no setor portuário representa uma transformação inevitável. “Durante muito tempo os portos foram pensados para homens. Mas o mundo está mudando e o cais também é nosso”, afirmou.

A diretora deixa um recado para mulheres interessadas em ingressar na área. “Que elas não se intimidem. O porto precisa de diversidade, de novos olhares e de mais mulheres ocupando esses espaços. Estamos abrindo caminhos para que cada vez mais profissionais façam parte desse setor”, conclui a diretora.

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