Um paraíso. Essa é a definição comumente usada para descrever a Ilha do Mel, um dos destinos turísticos mais visitados do Paraná, mesmo tendo 93% de sua extensão protegida por unidades de conservação, incluindo o Parque Estadual da Ilha do Mel e a Estação Ecológica, que abrangem manguezais, restingas e a Mata Atlântica.

Para garantir também essa preservação ambiental, a coleta e a destinação correta dos resíduos sólidos gerados na ilha são fundamentais.
Mas, moradores da comunidade de Nova Brasília procuraram o JB Litoral para denunciar irregularidades na forma como o serviço vem sendo realizado naquela porção insular. De acordo com eles, que preferem não ter a identidade revelada, o lixo vem se acumulando desde antes do evento que marcou o encerramento do Verão Maior Paraná, realizado há uma semana (27 e 28 de março).
“O centro de transbordo já está saturado. Essa empresa não está conseguindo fazer a coleta de lixo na Ilha do Mel porque os carrinhos elétricos estão todos com problema. Alguns estão em manutenção, só vemos um funcionando, e acaba que ele não consegue fazer toda a coleta de lixo”, diz um dos moradores.
Outro morador levanta a questão de problemas também na etapa seguinte à coleta: o transporte dos resíduos até o continente.
“A prefeitura também tem um contrato com a balsa que leva os sacos de lixo para Paranaguá. No momento, essa balsa está em manutenção. Porém, mesmo quando está em atividade, ela não realiza a coleta em todos os dias em que deveria ir até Nova Brasília, porque a empresa acaba utilizando a embarcação no Porto, porque ela ganha mais. Assim, deixa de lado o contrato com a prefeitura de Paranaguá para atender a outro contrato no Porto”, denuncia.
De acordo com a prestação do serviço, o correto seria a balsa ir três vezes por semana à ilha, com a coleta se dividindo entre os dois pontos, fazendo dois dias de recolhimento do lixo em Brasília e um dia em Encantadas. Invertendo na semana seguinte, com um dia em Brasília e dois em Encantadas, e assim sucessivamente.
“Agora, nesse último mês de março, a balsa só veio para Brasília três vezes e era para ter vindo seis, que é só a metade do que deveria, causando esse acúmulo de resíduos”, afirma.
Ainda conforme os moradores locais, a irregularidade começou a se intensificar desde dezembro de 2025, causando transtornos mesmo com reforço contratado pelo Governo do Estado para a temporada.
“O Governo fazia a parte dele, mas a balsa contratada pela Prefeitura falhava nos dias de vir, e a situação do centro de transbordo nunca estava adequada. Isso gera muitos transtornos e riscos para a nossa comunidade”, completa o morador de Nova Brasília, em conversa com o JB Litoral.
Dificuldades “naturais”
Para saber se o problema também tem afetado os moradores da comunidade de Encantadas, a reportagem procurou o presidente da Associação dos Moradores de Encantadas, Agnaldo da Silva dos Santos. Segundo ele, naquela porção da ilha, o serviço não tem sofrido variações significativas.
“Que eu saiba, o pessoal está fazendo a coleta e a balsa está vindo buscar aqui em Encantadas. Não sei como está para o lado de Brasília e do Farol”, falou Agnaldo.
Segundo a Prefeitura de Paranaguá, condições naturais e um defeito na embarcação prejudicaram a coleta na última semana.
“Encantadas tem um acesso fácil e a maré não atrapalha, mas, ali em Nova Brasília, quando a maré está baixa, o barco não entra. Então tem horários específicos para poder retirar os resíduos. Na semana passada, quando a maré iria favorecer a gente, a balsa quebrou. Ficou quatro dias no estaleiro”, explicou o secretário municipal de Meio Ambiente, Márcio Vega, ao JB Litoral.
Também segundo Vega, o serviço deve ser normalizado nesta semana. “Mesmo estando prevista a regularização, eu cobrei à empresa responsável, porque eles precisam agilizar isso”, disse.
Embora admita que houve acúmulo de resíduos durante a temporada, o secretário afirma que, antes do defeito na balsa, há duas semanas, a situação estava regularizada.
“Nós tivemos muito problema no verão, porque o montante de resíduo era muito alto. Mas na semana retrasada estava tudo limpinho, sem acúmulo”, ressaltou.
Já em relação à denúncia de que a balsa responsável pela coleta e transporte do lixo para o continente estaria dando preferência a serviços no Porto de Paranaguá, em detrimento do contrato com a Prefeitura, o secretário de Meio Ambiente explicou que se trata da mesma embarcação, mas sem conflito na prestação do serviço.
“O prestador realiza a coleta na Ilha às quartas, quintas e sextas, folgando na segunda e na terça. Nesses dias de folga, ele realiza os serviços para outras empresas, com a mesma balsa. O que estamos cobrando é que ele fique fixo com a gente”, explicou Vega.
Serviços ao longo da última década
A empresa responsável pela coleta de porta em porta, limpeza das vias e destinação dos resíduos até pontos indicados pela Prefeitura de Paranaguá é a Paviservice Engenharia e Serviços Ltda.
De acordo com levantamento feito pela reportagem, por meio dos dados disponíveis no Portal da Transparência do Município, a empresa é a responsável pela execução de serviços integrantes do sistema de limpeza pública (coleta de resíduos, varrição de vias e áreas verdes públicas de uso comum) em toda a cidade de Paranaguá, incluindo a Ilha do Mel, com fornecimento de materiais, mão de obra e equipamentos, ao longo da última década.
O contrato de 2015 ficou vigente até 2021, com renovações anuais (e a celebração de outros emergenciais no período), quando foi celebrado um novo contrato (172/2021), em 7 de dezembro de 2021, que é o atual em andamento.
O valor inicial do contrato, com validade de um ano, era de R$ 41.539.200,00 (Quarenta e um milhões, quinhentos e trinta e nove mil e duzentos reais.). Mas ele foi sendo prorrogado anualmente. A renovação mais recente aconteceu em 15/12/2025, por R$ 64.234.259,88 (Sessenta e quatro milhões, duzentos e trinta e quatro mil, duzentos e cinquenta e nove reais e oitenta e oito centavos.), com mais dois aditivos celebrados depois disso, um em 05/01/2026, no valor de R$ 666.370,43, e outro em 02/02/2026, de R$ 1.121.873,46.
Nesses 4 anos e 3 meses, a limpeza pública custou mais de R$ 280 milhões à Prefeitura de Paranaguá (R$ 281.821.552,20 é o valor atual do contrato, considerando todos os aditivos).
A Paviservice Engenharia e Serviços tem, atualmente, 10 contratos vigentes com o Governo do Estado. Juntos, eles somam R$ 60.017.900,87 (Sessenta milhões, dezessete mil e novecentos reais e oitenta e sete centavos).
O espaço está aberto no JB Litoral, caso a empresa queira fazer qualquer esclarecimento.