O nascimento de um filho é considerado um dos momentos mais especiais e inesquecíveis da vida de uma mulher. No entanto, em vez de alegria e um amor inexplicável, muitas mães enfrentam medo, insegurança, vazio, culpa e dificuldade de conexão com o bebê. Uma verdadeira avalanche de emoções.

Longe da romantização e mais perto da realidade, neste Dia das Mães, o JB Litoral destaca a experiência de mulheres com a maternidade e propõe uma reflexão sobre um tema que merece atenção: a depressão pós-parto e a importância da saúde mental materna.
Um estudo da fundação britânica Parent-Infant Foundation, divulgado em 2023, revelou que uma em cada dez mulheres enfrenta dificuldades para criar vínculo imediato com o bebê, enquanto cerca de 73% não recebem orientações sobre como fortalecer a conexão afetiva com os filhos, no Reino Unido.
Segundo a Universidade de São Paulo (USP), os dados se aproximam da realidade brasileira, onde cerca de 25% das mães enfrentam depressão pós-parto entre seis e 18 meses após o nascimento do bebê.
A prevenção pode ser feita com terapia. A psicóloga da Secretaria Municipal de Matinhos, Keila Yukie Taguchi Zucchi, iniciou um trabalho com as gestantes na maternidade do município, desde o pré-natal até depois dos nascimentos. “Recebemos encaminhamentos de gestantes pela Unidade Básica de Saúde (UBS), quando é visto algum risco de depressão ou ansiedade. Faço a triagem psicológica e começo o atendimento”, explicou Keila.
A sobrecarga materna e a expectativa da “Mulher-Maravilha”
Segundo ela, algumas mulheres idealizam a gestação e, quando finalmente se percebem grávidas, se deparam com sentimentos inesperados.
“Às vezes, a gente sente que está tudo bem, que a gestação vai ser linda e maravilhosa, mas começam a surgir sentimentos depressivos, ansiedade e preocupação”, afirmou Keila.
Depois que os bebês nascem, as preocupações mudam novamente devido às questões hormonais, à privação de sono, à nova rotina e à necessidade de criar vínculo com a criança, a famosa sobrecarga materna.
“Eu sempre falo que é uma redescoberta, um momento de reencontro consigo mesma. Nas visitas, também me coloco à disposição para dar continuidade ao acompanhamento, caso haja necessidade”, disse a psicóloga.
Para ela, é importante ter uma base emocional estruturada, saber delegar tarefas e contar com uma rede de apoio. “Esse é o nosso defeito: achar que somos a Mulher-Maravilha, mas não somos. Precisamos entender que também somos vulneráveis e precisamos de ajuda para cuidar do outro”, disse Keila.
As mães que, por algum motivo, perdem seus bebês também recebem acompanhamento psicológico na maternidade. Além disso, contam com acolhimento para enfrentar esse momento doloroso, mas que pode ser superado.
Experiência que fortalece o cuidado
A profissional atende de 60 a 70 mulheres por mês e compreende ainda mais as gestantes por também ser mãe de uma menina de três anos. Ela passou por duas perdas gestacionais e agora aguarda a chegada de um menino. Keila precisou realizar acompanhamento de gestação de alto risco e tratamentos para conseguir engravidar.
“É uma luta, você decide que será mãe e tem que buscar os caminhos. Além disso, tem que estar bem emocionalmente para conseguir ir atrás disso. Vem um sentimento de culpa também, de ‘eu não nasci para isso’, ‘o que eu fiz para merecer?’, ‘por que estou passando por isso?’. Vários questionamentos que surgem durante essas perdas gestacionais”, recorda Keila.
Ao encontrar uma mãe que perdeu o filho, a psicóloga entende exatamente o que ela está sentindo e consegue oferecer acolhimento e o tratamento adequado. “Independentemente da perda, elas já são mães desses bebês, já geraram, já fizeram planos e o acompanhamento é voltado para isso. A mulher quer ser ouvida, não quer julgamento, ela quer ficar bem”, destacou Keila.
A esperança depois do luto
Para a professora Michelli Silva Duarte Possas, a dor da perda de um filho transformou sua maneira de viver a maternidade. Mãe de Isabela, de 14 anos, ela contou que ela e o marido, Lennon Possas, sempre foram muito presentes na igreja e que, em janeiro de 2023, realizaram o sonho de se casar. Pouco tempo depois, nasceu o desejo de aumentar a família.
Em 2024, veio a notícia da gravidez de Mateus. A gestação seguia tranquila, marcada por momentos de oração e esperança. “Eu fazia a quaresma de São Miguel em um momento muito íntimo, só eu e meu filho ainda no ventre, unidos em oração”, relembra.
Mas, às 36 semanas de gestação, durante uma consulta pré-natal, em novembro, Michelli recebeu a notícia mais difícil de sua vida: o coração do bebê havia parado de bater.
“O nosso mundo desabou”, relatou Michelli. Após passar por uma cesárea, ela enfrentou o sofrimento de deixar o hospital sem o filho nos braços.
Segundo ela, o acolhimento recebido naquele período foi essencial para que a família conseguisse atravessar o luto. “Foi uma tempestade muito grande em nossas vidas. Mesmo em meio a tanta dor, nunca questionamos Deus. Buscávamos entender, mas nunca perdemos a fé”, disse.
No ano seguinte, o casal rezou o rosário durante a quaresma, buscando um caminho de fortalecimento para serem pais novamente. Em agosto daquele mesmo ano, Michelli descobriu uma nova gravidez.
Samuel, o “bebê arco-íris” da família, nasceu em março deste ano. Para Michelli, o filho representa esperança e renovação após o luto.
“Desta vez, saímos do hospital com a nossa promessa nos braços”, contou, emocionada. Hoje, ela deixa uma mensagem de fé para outras mães que enfrentam a perda gestacional. “Não desista do teu sonho. Acredite que Deus pode fazer o melhor sempre”, finalizou.