Determinada desde a infância, a médica ortopedista e legista Louise Paula de Lima Celeste, 39 anos, transformou desafios em combustível para alcançar seus sonhos. Nascida em uma família humilde de Paranaguá, ela superou dificuldades financeiras, enfrentou os obstáculos de crescer sendo neurodivergente (sem diagnóstico) e seguiu na busca pelo que acreditava ser possível.

No mês das mulheres, Louise compartilhou sua história com o JB Litoral. Desde a infância, passando pelo sonho de ser médica. Hoje, atuando na medicina e na perícia criminal, sua trajetória é marcada por estudo e pela convicção de que acreditar em si mesma pode abrir caminhos que muitos consideraram impossíveis.
“Nasci em 1987, no Hospital Paranaguá. Quem fez a cesariana da minha mãe foi o Dr. Nélio, bem conhecido na cidade. Estudei no Colégio Estadual Roque Vernalha até a quinta série e depois fui para o Colégio Nova Geração. No início, minha família arcava com as mensalidades, mas, sem condições de continuar, consegui uma bolsa e permaneci na instituição até o segundo ano do Ensino Médio. No terceiro ano, fui para Curitiba para realizar meu sonho de ser médica”, contou Louise.
A ideia de exercer a medicina surgiu na infância, assim como outras que foram desacreditadas pelos familiares. “Quando eu dizia que queria ir para a Disney, ouvi que era impossível porque éramos muito pobres. Quando dizia que queria ser médica, diziam que era muito difícil. Como criança, pensei que se tentasse fazer tudo sempre da melhor maneira possível, talvez eu conseguisse”, disse.
Diagnóstico tardio de autismo
Já na faculdade, por meio do contato com os professores, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e superdotação com altas habilidades. A partir daí, ela conta que teve uma explicação para as dificuldades de socialização enfrentadas na infância.
“Minha maior dificuldade era a interação social e a comunicação. Até hoje tenho algumas esquisitices, como eu mesma brinco. Muitas coisas aprendi a mascarar, algo comum em autistas de menor grau de suporte, especialmente entre mulheres”, destacou.
Louise também acredita que seria importante ter recebido o diagnóstico antes, para ter se compreendido melhor e se culpado menos. O apoio maior veio da mãe, que teve papel fundamental na sua formação. Foi dela a decisão de tirar a filha da escola após a professora não ter oferecido acolhimento e de alfabetizá-la em casa antes do período obrigatório.
“Minha mãe acabou exercendo vários papéis: foi um pouco fisioterapeuta, fonoaudióloga, psicóloga e, principalmente, meu suporte emocional. Naquela época, início da década de 1990, falava-se muito pouco sobre superdotação e praticamente nada sobre autismo”.
O esporte como aliado
Mas não só a intenção de ter um futuro na medicina incentivava a jovem parnanguara a seguir em frente. Foi no esporte que parte de suas dificuldades foram superadas. No extinto Clube de Regatas Santa Rita, Louise se dedicou ao remo, à vela e à canoagem de velocidade olímpica. Aprendeu a remar no Rio Itiberê, cartão postal de sua cidade natal e chegou a ser atleta júnior no remo, com destaque e a possibilidade de se preparar para tentar uma vaga no Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro.
No entanto, a chance no esporte coincidiu com o sonho de criança. “Eu teria que optar entre o esporte de alto rendimento e a medicina. O sonho de ser médica falou mais alto. Mas remar continua sendo uma das coisas que mais gosto de fazer na vida”, contou a médica.
Além do remo, outra atividade que marcou sua juventude foi o xadrez. As regras foram aprendidas na apostila do colégio. “Durante uma atividade de férias, vi algumas pessoas jogando e comecei a observar. Logo fui convidada para jogar. Pouco tempo depois fui chamada para participar de um campeonato municipal”.
A conquista da medicina
Logo no primeiro vestibular, Louise foi aprovada para o curso de medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR), o mais concorrido da instituição, e seu sonho de criança começou a tomar forma. Nesta época, ela deixou de ser a “super aluna”, posição que ocupou durante toda a vida de estudante, para só mais uma aluna.
Após a graduação, seguiu para a residência médica em ortopedia e traumatologia, também na UFPR. “Depois fiz especialização em traumatologia esportiva e artroscopia (cirurgia ortopédica para diagnosticar e tratar lesões dentro de articulações), com ênfase em cirurgia de joelho”, disse.
Atualmente, a parnanguara é médica do Hospital de Clínicas da UFPR, no serviço de ortopedia e traumatologia, e médica legista na Polícia Científica do Paraná.
“Costumo dizer que a universidade se tornou minha segunda casa. Embora pareçam áreas muito diferentes, ortopedia e medicina legal têm bastante relação. Como ortopedistas lidamos frequentemente com traumas e acidentes, o que também aparece com frequência na perícia”, explicou.
O trabalho como médica legista
Na Polícia Científica, Louise atende casos relacionados a mortes violentas ou suspeitas. Ela atua na realização de exames periciais em vítimas de agressão física, violência doméstica, abuso sexual, maus-tratos contra crianças e outros tipos de violência.
Segundo ela, nos casos de violência sexual, por exemplo, existe uma janela de tempo importante para coleta de vestígios. O ideal é que o exame seja realizado nas primeiras 24 horas.
No âmbito da violência contra mulheres, a médica ressalta que o feminicídio é a etapa final de um ciclo, antes disso, geralmente, existe violência psicológica, emocional ou física.
No trabalho pericial, a neutralidade é fundamental. O lado humano sai de cena por alguns momentos para que o trabalho seja executado com precisão e colabore na produção de provas técnicas para a Justiça. Mas, fora do ambiente profissional, de acordo com a médica, é impossível não se sensibilizar com as vítimas.
“A violência que vemos é mais grave do que aquilo que aparece nas notícias. Muitos casos correm em segredo de justiça e a população não tem dimensão completa da realidade”, completou Louise.