Quinze anos após a tragédia das Águas de Março, que deixou marcas no Litoral do Paraná, o temor de novos eventos extremos volta a mobilizar autoridades e moradores diante da influência do fenômeno El Niño. Estado e municípios têm se preparado com ações preventivas especialmente em Morretes e Antonina.

Segundo o Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná), o Estado deve registrar um leve aumento no volume de chuvas entre junho e agosto deste ano. A partir de setembro, com a chegada da primavera, os acumulados tendem a aumentar significativamente, o que pode trazer riscos de alagamentos, inundações e deslizamentos.
“O El Niño é o aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o que favorece com que haja mais calor e umidade para formar tempestades na região equatorial e isso altera as condições dos ventos. Como é um grande sistema climatológico, muda a circulação em vários pontos do globo”, explicou Reinaldo Kneib, meteorologista do Simepar.
Na América do Sul, o fenômeno favorece o aumento no transporte de umidade e de calor da região Amazônica para o Sul do País. “Historicamente, ocorre mais seca no Norte do Brasil, e mais chuvas no Sul”, destacou Kneib.
Defesa Civil reforça monitoramento no Litoral
O Major Anderson Gomes, chefe do Centro de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cegerd), da Defesa Civil do Paraná, afirmou que certamente haverá situações de anormalidade, mas que ainda não é possível prever a região mais vulnerável nem a magnitude.
“Atuamos em conjunto com o Simepar, que nos fornece os dados utilizados para definir estratégias junto aos municípios, além do envio de alertas à população”, detalhou o major.
Em nota, a Defesa Civil do Paraná explicou ao JB Litoral que o 6º Núcleo de Atuação Regional (NAR) trabalha de maneira próxima às sete prefeituras, orientando ações de prevenção e mitigação. Cabe aos gestores municipais a preparação para possíveis adversidades climáticas.
“Nesse sentido, em 2026, já foram realizados dois simulados de desastres em Antonina e Morretes. O desassoreamento de canais, rios e a revisão do sistema de drenagem, principalmente nas áreas de risco, são algumas das práticas adotadas”, afirmou.
Morretes atua na prevenção
Moradores do bairro Floresta, em Morretes, participaram de um simulado de resposta a desastres naturais promovido pela Defesa Civil Estadual, Corpo de Bombeiros e Prefeitura.
Durante o exercício, foram simuladas situações de inundação e deslizamento, incluindo evacuação de moradores e abertura de abrigo temporário.
A comunidade, localizada às margens da BR-277 e marcada pelos impactos da tragédia das Águas de Março de 2011, foi escolhida para testar protocolos de emergência.
A Prefeitura de Morretes também iniciou ações preventivas de desobstrução de valas e limpeza de drenagens.
Simulado também já foi realizado em Antonina
No dia 23 de maio, foi a vez de Antonina realizar o simulado. A mobilização ocorreu na região do Jagatá. Segundo a Prefeitura de Antonina, a ação teve início no Centro Esportivo Joubert Gonzaga Vieira.
O encerramento do simulado foi na Escola Gil Feres, ponto de encontro das famílias atendidas durante a operação.
O capitão Dhieyson Weslen Budernick, da Defesa Civil, afirmou que estão em preparação novos treinamentos para Guaratuba e Guaraqueçaba.
“A ideia é que esse tipo de ação seja feita em todos os municípios do Litoral”, ressaltou o capitão.
Águas de Março resultou em mais de 10 mil desalojados
Em março de 2011, chuvas intensas provocaram enchentes e deslizamentos no Litoral do Paraná. Os volumes registrados foram históricos, alcançando 398 milímetros entre os dias 10 e 11 de março. Os municípios mais afetados foram Antonina, Morretes, Paranaguá e Guaratuba.
A tragédia resultou em mais de 2,5 mil deslizamentos em todo o Litoral. Dados do Governo do Estado apontam que 816 pessoas precisaram ser resgatadas por terra ou com o auxílio de aeronaves. Ao todo, 10.761 moradores ficaram desalojados e outros 2.500, desabrigados.
Após o desastre, a região enfrentou um longo processo de reconstrução, que envolveu a recuperação de estradas, pontes e moradias. Em Morretes, um morro inteiro deslizou. Na BR-277, pontes foram destruídas pela força das águas, enquanto a BR-376 registrou quedas de barreiras que interromperam o tráfego. Comunidades inteiras ficaram isoladas e, em alguns casos, aguardaram por dias até serem resgatadas em meio aos destroços.