Estudantes do curso de graduação em Licenciatura em Ciências da Natureza do Campo (Lecampo), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirmam enfrentar há meses a falta de pagamento de bolsas previstas no edital de seleção. O benefício, considerado essencial para alunos de comunidades tradicionais do Litoral, não é repassado desde o início do ano, segundo a turma, que procurou o JB Litoral.

As aulas ocorrem em dois fins de semana por mês, no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da UFPR, em Paranaguá. Durante os dias de atividades, os estudantes precisam arcar com despesas de alimentação, transporte (incluindo deslocamentos por embarcação, em alguns casos) e hospedagem, o que tem gerado dificuldades para a permanência na graduação.
Educação voltada para comunidades tradicionais
Com 11 anos de existência no Paraná, a Licenciatura em Educação do Campo (Lecampo) passou a ofertar aulas em Paranaguá neste ano. O curso possui um vestibular próprio, diferente do processo seletivo tradicional da UFPR. Os editais são publicados separadamente e seguem critérios específicos de seleção, com provas realizadas em um ano para ingresso no ano seguinte.
O curso é voltado à formação de docentes para atuar em escolas do campo, priorizando educadores sem licenciatura de comunidades tradicionais, como agricultores familiares, pescadores, quilombolas e indígenas. Baseado na agroecologia e no desenvolvimento sustentável, busca formar profissionais comprometidos com a Educação do Campo.
A representante da primeira turma do LeCampo em Paranaguá, Verônica Pieczkoski, afirmou ao JB Litoral que os estudantes foram informados, no início da graduação, de que teriam prioridade em bolsas de auxílio, o que ainda não ocorreu. Segundo ela, mesmo com o semestre já em andamento, o edital não foi efetivado.
“Eles estão alterando as datas, prorrogando mais para frente, e a gente já está numa situação que não consegue mais dar sequência nas aulas”, disse.
A turma reúne cerca de 40 alunos de comunidades quilombolas, indígenas, pescadores e áreas urbanas das ilhas da região. Verônica alerta que a falta de apoio financeiro já afeta a presença dos estudantes e pode levar à evasão. “Hoje, dos indígenas, ninguém veio para a aula”, relatou. Ela também fez um apelo à UFPR e às autoridades locais para a liberação das bolsas e apoio aos estudantes.
Alunos destacam dificuldades e temem evasão
Bhoaz Alves, de 40 anos, morador em Antonina, trabalha na área de pesca e turismo e é um dos estudantes do Lecampo que aguarda a ajuda de custo. “Tem sido complicado esse deslocamento, porque tem a questão financeira. Aqui tem muitos pais de família e existe toda essa parte de alimentação também. Já vamos terminar o primeiro período e ainda não saiu a ajuda. Estamos gastando por dia de aula cerca de R$ 200”, explicou.
Já o estudante Felipe dos Santos Cordeiro percorre um trecho ainda mais longo para cursar a faculdade. Ele é pescador e morador na Ilha Rasa, em Guaraqueçaba.
“Tem sido difícil, porque temos muita dificuldade financeira. Foi prometido que iríamos ganhar bolsa para continuar estudando. Imaginei que seria algo totalmente diferente. Entrei na universidade e não sabia que ia passar por essa situação. Quero ter o aprendizado para passar para a minha comunidade, meu objetivo é me formar”, declarou.
Joanides Peniche Gonçalves também reside em Guaraqueçaba, na Vila de Pescadores Costão. “Foi prometido auxílio permanente e auxílio alimentação e nenhum foi cumprido, nos sentimos excluídos”, destacou.
Liliane Ferreira Lopes Venâncio é da comunidade da Ilha do Almeida, em Guaraqueçaba, e contou que tem gastos com embarcação. “A gente vem na sexta, fica de sexta para sábado e de sábado para domingo. Mandamos os documentos que faltavam, porém, até agora, nada. Essa formação é para quem não teve oportunidade antes. Tem pessoas de mais idade, outros que saíram do ensino médio, mas o que era para ser gratuito está nos trazendo muitos gastos”, relatou.
Com 27 anos, Sidimar Cesar Oliveira Soares, morador na comunidade agroflorestal José Lutezenberger, em Antonina, disse que o curso é uma conquista, mas se torna um momento desafiador pelas dificuldades que os estudantes enfrentam.
“Esse curso é fundamental para podermos permanecer na comunidade, para as nossas crianças terem escola dentro delas. O principal é a gente poder ter acesso a universidade com qualidade. É fundamental ter uma casa de apoio, um acolhimento e também alimentação. Peço para que tenham essa atenção conosco”, afirmou.
Edital prevê diferentes tipos de bolsas e auxílios
No primeiro edital de seleção (nº 03/2026) da UFPR, o Programa Territórios prevê uma série de auxílios financeiros voltados à permanência estudantil, com valores que variam conforme a situação do aluno. Entre os benefícios estão o Auxílio Trajetória Acadêmica Territórios e o Auxílio Moradia Territórios, ambos no valor de R$ 600 mensais.
Também há o Auxílio Permanência Parental, de R$ 250 mensais, destinado a estudantes com filhos ou dependentes pequenos; e o Auxílio Acolhimento para Ingressantes, de R$ 300 mensais, pago inicialmente por um semestre, com possibilidade de prorrogação por mais seis meses.
Os benefícios podem ser acumulados com bolsas acadêmicas como monitoria, iniciação científica e extensão, mas não são cumulativos, com auxílios de mesma natureza oferecidos por outros programas federais ou pela própria UFPR.
Os auxílios têm vigência prevista até 31 de julho de 2027, condicionados ao cumprimento dos critérios acadêmicos e à manutenção da regularidade socioeconômica dos estudantes junto à universidade.
Conforme o edital, para estudantes aprovados após a análise socioeconômica, o pagamento começa na folha seguinte à assinatura do Termo de Compromisso no Sistema de Gestão de Bolsas.
O que diz a UFPR?
Em nota, a UFPR explicou ao JB Litoral que a gestão da universidade está realizando o levantamento de informações e dados relacionados à situação envolvendo duas de suas pró-reitorias, a P4E (Pró-Reitoria de Pertencimento e Políticas de Permanência Estudantil) e a Proafe (Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade).
“Ainda para esta quinta-feira (25), está prevista a realização de uma reunião para aprofundar a compreensão dos fatos e promover uma avaliação mais detalhada do cenário, com a participação da coordenação do curso”, informou.