Feminicídio cai no Paraná, mas Litoral segue nas estatísticas


Por Por Gabriela Perecin e Flávia Barros

Jéssica Rodrigues da Costa era uma mulher jovem. Aos 31 anos, grávida de sete meses, ela foi brutalmente atacada pelo companheiro e pai do bebê, Juliano do Rosário Cerqueira, 27 anos. Segundo testemunhas, Juliano chutou a barriga da mulher por diversas vezes e a golpeou com uma faca por, pelo menos, quatro vezes.

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Grávida, Jéssica Rodrigues da Costa, foi morta pelo marido, Juliano do Rosário Cerqueira, em frente aos outros filhos, em Paranaguá. Foto: Reprodução/Redes sociais

O crime aconteceu diante dos outros três filhos de Jéssica, de 4, 9 e 13 anos de idade, em 1º de novembro de 2025, na casa onde a família morava, no Parque Agari, em Paranaguá. A vítima chegou a ser socorrida, mas ela e o bebê não resistiram. Juliano fugiu do local após o ataque, mas se entregou à polícia, horas depois, e foi preso em flagrante.

Sete meses antes, também dentro de casa, a 1,5 km de distância, na Vila dos Comerciários, Ana Beatriz Velozo, de 24 anos, foi baleada pelo marido, em 3 de abril. O homem, que permaneceu no local do crime enquanto Ana era socorrida, fugiu antes da chegada da polícia, mas foi preso preventivamente uma semana depois.

Assim como Jéssica, Ana não resistiu aos ferimentos e morreu no Hospital Regional do Litoral (HRL). Nos dois casos, havia histórico de violência anterior ao feminicídio.

Também em Paranaguá, Ana Beatriz Velozo foi assassinada pelo marido, que alegou tiro acidental, mas familiares relataram à polícia que o homem, preso dias depois, agredia a esposa. Foto: Reprodução/Redes sociais

Mais do que uma tragédia familiar esses crimes são exemplos de que casos assim seguem ocorrendo no Litoral. E, apesar de o Paraná ter registrado queda de 20,2% nos casos do ano passado (87 ocorrências, frente a 109 em 2024), alcançando o patamar de uma das menores taxas do país (0,73 caso por 100 mil habitantes), em Paranaguá, esse índice quase dobra: 1,36/100 mil habitantes, com os feminicídios ocorridos em abril e novembro.

Relatório traz dados dos municípios

Com números abrangentes que consideram todo o Estado, nem sempre é possível ter a ideia de como estão os casos nas regiões. Por isso, o JB Litoral consultou tanto as estatísticas divulgadas pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) quanto os dados disponíveis no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), atualizado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, para fazer um recorte da realidade no Litoral.

O último relatório da Sesp refere-se às mortes violentas registradas entre janeiro e setembro de 2025. No período, a região aparece com um caso de feminicídio em Matinhos e um em Paranaguá. No entanto, o segundo feminicídio que aconteceu no maior município da região, em novembro, já consta no sistema do Sinesp.

O outro caso registrado no ano passado, no Litoral, foi em Matinhos, quando uma mulher foi morta a tiros pelo marido em frente aos filhos, em fevereiro de 2025, no bairro Tabuleiro. O crime também chamou a atenção, pois após atirar na esposa, o homem bateu o carro em que fugia portando duas armas. Com o impacto da batida em uma árvore, o veículo capotou. De acordo com testemunhas, o suspeito saiu do carro com as armas e um ferimento por tiro em uma das pernas. Ele chegou a ser socorrido, mas morreu a caminho do hospital.

Segundo dados do relatório divulgado pela SESP, o Litoral registrou um caso em Matinhos e um em Pontal do Paraná, em todo o ano de 2024.

Antonina sai na frente no combate à violência contra a mulher

Antonina, Morretes, Guaraqueçaba, Guaratuba e Pontal do Paraná não registraram crimes de feminicídio em 2025. Segundo as autoridades, a redução da violência contra a mulher nesses municípios está relacionada a ações de conscientização, ao incentivo à denúncia e à implementação de políticas públicas voltadas ao acolhimento das vítimas.

Antonina se destaca no Litoral por ser a única a ter uma Secretaria Municipal destinada exclusivamente às mulheres. Nas demais cidades da região, as ações são desenvolvidas pela Secretaria de Assistência Social ou pastas similares.

A secretária da Mulher de Antonina, Thaiz Batista Cordeiro, destacou a recente conquista da pasta com o anúncio de construção da Casa da Mulher Paranaense, obra que será iniciada em breve. “O espaço será um importante equipamento público de atendimento integrado às mulheres, especialmente em situação de violência”, disse Thaiz.

A secretária da Mulher de Antonina, Thaiz Cordeiro, citou algumas das ações realizadas no enfrentamento a violência. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral

O município também conta com um veículo oficial da Secretaria da Mulher, identificado com a cor rosa, utilizado para o deslocamento da equipe nas ações de enfrentamento à violência contra a mulher.

“O veículo também é fundamental no apoio ao transporte de mulheres vítimas de violência até Paranaguá, para a realização de exames de lesão corporal, considerando que muitas delas não possuem condições físicas ou financeiras para se deslocar sozinhas”, afirmou Thaiz.

Mulheres em situação de violência no município podem participar de rodas de conversa, semanalmente, na Secretaria. Nesta quarta-feira (11), será realizada a formação do Selo Empresa Amiga da Mulher, com capacitação sobre como agir em casos de assédio nos estabelecimentos comerciais de Antonina. A ação é realizada em parceria com a Polícia Militar.

Combate ao assédio no Carnaval: “é importante que denuncie e registre a ocorrência”

A delegada da Polícia Civil em Paranaguá, Kemelly M. da Silva Lugli, falou ao JB Litoral que os casos de assédio e violência contra a mulher tendem a aumentar no Carnaval. Por isso, segundo ela, é importante que as mulheres fiquem atentas aos próprios limites.

“Temos o costume de aceitar alguns comentários ou alguns toques no corpo, porque entendemos que talvez seja visto como um exagero denunciar. Mas cada mulher sente qual é o seu limite, portanto, deve deixar claro para o outro que aquilo está desconfortável e, caso se sinta violentada, agredida, faça um boletim de ocorrência e informe a polícia para que possa ser apurado”, disse a delegada.

A delegada da Polícia Civil em Paranaguá, Kemelly Lugli, falou sobre os casos de assédio no Carnaval. Foto: Maria Heiffer/JB Litoral

Ela reforçou que as mulheres que precisarem fazer o Boletim de Ocorrência (B.O) serão bem recebidas na delegacia.

“A mulher está no direito de fazer a denúncia, independente do que seja falado, do que a gente entende como normal ou não. A partir do momento que se sentiu ofendida, se sentiu violentada, é importante que denuncie e registre a ocorrência”, afirmou Kemelly.

Como em toda investigação, quanto mais provas existirem, melhor, assim como testemunhas que tenham presenciado o assédio, vídeos e fotos. No entanto, mesmo que não haja provas e os casos fiquem restritos à vítima e ao agressor, o fato pode ser denunciado.

“Mesmo nesses casos, pode ser feito o B.O e a gente vai buscar, por meio de outras diligências, esclarecer o que houve. O fato de não ter testemunhas, por exemplo, não deve ser um impeditivo da pessoa vir registrar o boletim de ocorrência”, ressaltou a delegada.

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