Municípios do Litoral do Paraná têm 61 estudantes com diagnóstico de altas habilidades e superdotação, aponta Rede Estadual


Por Gabriela Perecin
O Colégio Estadual Maria Arminda, em Antonina, é o único do Litoral com uma Sala de Recursos para Altas Habilidades e Superdotação
O Colégio Estadual Maria Arminda, em Antonina, é o único do Litoral com uma Sala de Recursos para Altas Habilidades e Superdotação.

É comum eles serem conhecidos como “muito inteligentes” e até mesmo “gênios”. São crianças e adolescentes que decoram e soletram com facilidade ou decifram desafios de raciocínio lógico com rapidez. Essas são algumas das características que os pais percebem nos filhos que têm altas habilidades ou superdotação. De acordo com o Núcleo Regional de Educação de Paranaguá (NRE), o Litoral tem 61 estudantes diagnosticados com essa condição. Em todo o Paraná, eles são cerca de 12 mil identificados.

Neste mês, no dia 10 de agosto, foi comemorado o Dia Estadual das Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). A data traz o tema para a discussão pública com o objetivo de conscientizar pais, professores e toda a sociedade para o assunto que, para muitos, é visto como algo positivo, mas ainda carece de informações e estrutura específica para acolher esses estudantes.

A psicóloga que atua em Paranaguá, Renata da Cunha Abdnor, afirmou ao JB Litoral que os dados divulgados pelo NRE podem estar subnotificados, pois muitos não chegam a ser informados à Secretaria de Estado da Educação (Seed) ou não são identificados. Tanto as altas habilidades quanto a superdotação são consideradas condições de neurodivergência, mas não estão inseridas na Classificação Internacional de Doenças (CID), conforme explicou a psicóloga.

“Altas habilidades seria tudo aquilo que eu posso treinar. Qualquer pessoa pode ter uma alta habilidade em algo. A superdotação não, a pessoa já nasce com ela e envolve outros contextos. No Brasil, temos ambas como sinônimo, pessoas com desempenho muito superior em comparação com pessoas da sua idade, experiência, o ambiente que ela vive. Além disso, têm uma capacidade de aprendizado rápido, são pessoas criativas”, disse Renata.

Diferenças entre as condições

Uma pessoa com altas habilidades ou superdotação pode demonstrar inteligência em áreas específicas. Segundo a profissional, existem as inteligências lógico-matemática; linguística; espacial; interpessoal; existencial; corporal-cinestésica; musical; e naturalista.

“Às vezes encontramos, por exemplo, uma criança superdotada na área corporal, na área intrapessoal, mas não é superdotada na área acadêmica. Esse é um dos equívocos que nós temos hoje nas conceituações, porque se espera que um superdotado seja aquele aluno que tira 10 em tudo, e não é necessariamente isso”, afirmou a psicóloga.

Para Renata, a identificação pode ocorrer por volta dos seis ou sete anos, idade na qual a avaliação é mais facilitada. Geralmente, essas crianças são aquelas que saíram antes da fralda, que andaram e falaram antes do tempo e que dialogam facilmente por volta dos três anos.

Uma dificuldade encontrada é com relação às escolas que, segundo ela, não estão preparadas para atender às crianças.

“Por desconhecimento do que é a superdotação e de como fazer, de como organizar uma sala de aula para integrar esse aluno. Muitas vezes, esse superdotado acaba não tendo vontade de ir para a escola. É muito tedioso, principalmente os acadêmicos, porque aquilo que é falado pelo professor, para ele, é muito fácil, ele pega rápido. Eles merecem e precisam de suporte e adaptações também”, destacou.

A psicóloga Renata da Cunha Abdnor e a filha Clara descobriram a superdotação em 2023. Foto: Arquivo pessoal

Já as pessoas com altas habilidades podem ter problemas para se relacionar com outras da sua idade, dificuldade quanto às suas emoções, ansiedade e depressão.

Além de tratar o tema diariamente no consultório e buscar conscientizar sobre o assunto, Renata e a filha Clara vivem a realidade da condição dentro de casa. Ambas foram identificadas com superdotação. No início, a especialista relata que percebeu alguns comportamentos diferentes na filha e solicitou uma avaliação, em 2023.

“Para minha surpresa constatou a superdotação. Então, comecei a perceber que eu tinha comportamentos muito semelhantes e descobri a minha também. Na época, ela tinha 10 anos e eu 39. A partir daí, comecei a me aprofundar mais no assunto e perceber que o superdotado não é uma pessoa genial, é alguém que tem uma capacidade cognitiva muito alta. Às vezes, a gente quer saber de coisas que as pessoas não querem saber, e somos tidas como chatas, às vezes teimosas”, relatou a psicóloga.

Único no Litoral

O Colégio Estadual Maria Arminda, em Antonina, é o único do Litoral com uma Sala de Recursos para Altas Habilidades e Superdotação. De acordo com o NRE, no local é realizado o atendimento a nove estudantes matriculados, atualmente.

Daniele Carvalho é professora especialista em Educação Especial no Colégio Estadual Maria Arminda, em Antonina, o único do Litoral que possui Sala de Recursos para altas habilidades. Foto: Thaiz Batista Cordeiro

“Esses alunos estudam desde o oitavo ano [do Ensino Fundamental], até o Ensino Médio. Eles são atendidos no contraturno do ensino regular, seguindo um cronograma em que desenvolvemos atividades para suplementar o conhecimento deles, como projeto de pesquisa e oficinas de enriquecimento. Temos também a feira científica, na qual inscrevemos projetos e é feita a seleção entre os estudantes de todas as salas de recursos do Paraná”, disse Daniele dos Santos Carvalho, professora especialista em Educação Especial.

“É preciso se encaixar para ser feliz?”

A Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Pessoa com Deficiência (CRIA) da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) lançou a cartilha “É preciso se encaixar para ser feliz?”. O material é voltado para educadores, profissionais da área, famílias e à sociedade em geral, com informações sobre o que são AH/SD, como identificar, as características intelectuais e emocionais, além de dados sobre os direitos e garantias legais para esse público e suas famílias.

“Desde que começamos a tratar desse tema, percebemos uma escassez de informações, o que deixa essa população vulnerável e invisibilizada. Conversamos com especialistas, famílias e estudantes nessa condição e desenvolvemos essa cartilha, com linguagem acessível”, explicou o presidente da Comissão, deputado estadual Evandro Araújo (PSD).

O Estado tem uma legislação específica que trata sobre o tema. Em novembro de 2023, foi criada a Lei Estadual 21.743/2023, com as diretrizes gerais para ações e políticas públicas voltadas ao desenvolvimento das potencialidades de estudantes com AH/SD na rede pública de ensino e à capacitação de educadores para ajudar na identificação dentro das salas de aula. Foi essa mesma lei que instituiu o dia 10 de agosto como o Dia Estadual das Altas Habilidades/Superdotação, data que coincide com o Dia Mundial da Superdotação.

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