“Não foram inevitáveis”, diz geólogo sobre os frequentes deslizamentos na Serra do Mar


Por Diogo Monteiro e Thais Skodowski

Na última semana, mais um deslizamento interditou a BR-277, na Serra do Mar. A EPR Litoral Pioneiro, concessionária responsável pela rodovia, retirou cerca de 3 mil toneladas de terra e vegetação do km 43, em Morretes, após o incidente ocorrido na madrugada de terça-feira (10).

Deslizamento mais recente ocorreu no km 43, da BR-277, em Morretes, na última terça (10). Foto: EPR Litoral Pioneiro/Divulgação
Deslizamento mais recente ocorreu no km 43, da BR-277, em Morretes, na última terça (10). Foto: EPR Litoral Pioneiro/Divulgação

Para o geólogo Abdel Hach, especialista em riscos geotécnicos, é mais um caso que poderia ser evitado.

“Em grande parte, os deslizamentos recentes poderiam ter sido ao menos minimizados ou até evitados com a aplicação rigorosa de medidas preventivas baseadas em ciência geotécnica atualizada. A Serra do Mar (BR-277, BR-116 e BR-376) é uma área historicamente conhecida por sua instabilidade natural, o que exige vigilância contínua, planejamento preventivo e intervenções tecnicamente bem fundamentadas”, afirmou.

Hach destaca que a culpa não pode recair apenas sobre as chuvas fortes.

“As chuvas intensas não são, por si só, a causa dos desastres, mas sim o gatilho final de processos acumulados de fragilização de taludes (encostas), drenagens insuficientes, intervenções mal planejadas e falhas de reconformação geomorfológica. A engenharia de contenção de encostas em regiões tropicais exige constante atualização e o uso de tecnologia preditiva, algo que ainda não é plenamente aplicado em todas as frentes de obra”, comentou.

Para o geólogo Abdel Hach, os deslizamentos recentes poderiam ser evitados. Foto: CREA-RS/Divulgação

Estruturas antigas e pouca prevenção

Segundo o especialista, muitos pontos da Serra do Mar ainda contam com obras antigas, com soluções consideradas ultrapassadas diante das mudanças climáticas e da frequência cada vez maior de eventos extremos.

Mesmo onde há boas práticas, ele aponta que os cronogramas muitas vezes não acompanham a urgência das intervenções, resultando em contenções frágeis e encostas instáveis.

Hach também alerta para a dificuldade de unir critérios ambientais e soluções técnicas em locais onde o terreno exige cortes profundos ou intervenções mais drásticas.

“Há casos documentados em que o tempo entre a supressão (remoção) vegetal e a implantação das contenções ultrapassa o limite seguro, expondo o talude a eventos erosivos”, explicou.

Além disso, ele critica a falta de conexão entre os órgãos públicos

“Um ponto crítico que deve ser trazido à tona é a falta de integração entre os dados de risco geológico e o planejamento rodoviário em tempo real. Hoje, muitos trechos da Serra do Mar são operados sem um sistema de alerta antecipado baseado em modelos hidrológicos e geotécnicos acoplados a estações meteorológicas de alta resolução”, disse.

Outro fator preocupante, segundo ele, é a pouca comunicação com os moradores e motoristas.

“Além disso, é necessário destacar que as comunidades do entorno, os usuários e os trabalhadores das frentes de obra estão frequentemente vulneráveis, com pouca informação sobre rotas de fuga, protocolos de emergência e percepção do risco. A gestão integrada de riscos deve envolver não só engenharia, mas também comunicação comunitária e governança interinstitucional”,
disse.

De acordo com a concessionária, deslizamento começou dentro da Serra do Mar. Foto: EPR Litoral Pioneiro/Divulgação

Falta de ação preventiva

Apesar da fiscalização ambiental realizada por órgãos como o IAT (no Paraná) e o Ibama, o geólogo afirma que a resposta do poder público ainda é, em muitos casos, tardia. Abdel Hach também defende mais presença técnica nas obras.

“Os eventos não foram inevitáveis; o que falta é antecipação institucional e compromisso com a engenharia baseada em dados, falta colocar profissionais na área de geologia e engenharia geológica à frente de estudos para mapear as zonas de vulnerabilidade geotécnica e planos de mitigação”, afirmou.

Monitoramento na Estrada da Graciosa

Na semana passada, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) e o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR) assinaram um convênio para instalar sensores na Estrada da Graciosa (PR-410) e prevenir novos deslizamentos. Serão implantados acelerômetros, sensores de umidade do solo e pluviômetros nos trechos mais críticos. A expectativa é que o sistema esteja ativo antes do verão.

Nos próximos meses, a equipe do Simepar vai cruzar os dados históricos de deslizamentos com o volume de chuva acumulado, para determinar o ponto exato em que o solo começa a ceder.

“Nem sempre um temporal isolado causa deslizamentos. Às vezes o deslizamento ocorre após um acúmulo de chuva ao longo de vários dias”,
explica José Eduardo Gonçalves, gerente de Hidrologia do Simepar.

O sistema contará com sensores de solo, pluviômetros e estações com GPS, microprocessador e acelerômetro, capazes de monitorar qualquer movimentação nas encostas em tempo real.

Estado vai instalar sensores de umidade e pluviômetros na Graciosa. Foto: Yuri Marcinik/Serra do Mar

Avaliação e obras no trecho

Por sua vez, o DER/PR finalizou, recentemente, o mapeamento das encostas da Graciosa, utilizando inclusive tecnologia aérea a laser. Dez pontos críticos foram identificados e terão obras de contenção. Três projetos já estão prontos para licitação e devem ser iniciados em breve, segundo o Governo.

Histórico que se repete

Nos últimos anos, os deslizamentos se intensificaram nas principais rodovias do litoral paranaense. Além do ocorrido no último dia 10 de junho, a BR-277 já havia registrado outro deslizamento em maio, também no km 43. Em janeiro, um deslizamento no km 39 bloqueou parcialmente a rodovia por mais de 15 dias.

Na BR-376, o caso mais grave ocorreu em novembro de 2022, no km 669, em Guaratuba. O deslizamento causou duas mortes, destruição de veículos e interditou totalmente a via por cerca de dez dias. As obras no local, por parte da Arteris Litoral Sul, concessionária que administra o trecho, só começaram um ano depois da tragédia.

Já na Estrada da Graciosa, o episódio mais recente aconteceu em 4 de junho de 2025, bloqueando completamente o tráfego. Antes disso, houve deslizamentos em abril de 2024 (entre os km 12 e 13) e em janeiro de 2023 (entre os km 9 e 11). Felizmente, não houve vítimas.

Rodovias alternativas à vista

Em novembro de 2024, o Governo do Paraná lançou um edital para o Estudo de Viabilidade Técnica, Socioeconômica, Ambiental e Jurídica (EVTEA-J) do Complexo Rodoviário do Litoral. O plano prevê 151 km de novas rodovias interligando a malha existente, formada por BRs como a 277, 376 e 116, além de estaduais como a PR-410, PR-407 e PR-412.

O projeto busca evitar o isolamento do Litoral em períodos de chuva intensa, quando já houve bloqueios simultâneos nas três principais vias de acesso. O investimento no estudo é de R$ 4,1 milhões, com prazo de conclusão de 15 meses após o início dos trabalhos.

O que diz a concessionária EPR

A EPR Litoral Pioneiro informou que, desde o deslizamento no km 43 da BR-277, está monitorando a área e liberou o tráfego em pouco mais de 48 horas. A concessionária ressalta que esse episódio foi diferente dos anteriores, com queda de vegetação e terra, e não de pedras, e que o ponto onde o deslizamento começou fica fora da faixa de domínio da rodovia, dentro da Serra do Mar.

Além disso, desde que iniciou a operação do trecho, a concessionária se dedica ao acompanhamento da área, empregando estratégias que já se mostraram eficazes”, diz a nota.

A empresa afirma também que mantém canais atualizados com informações sobre o tráfego e contato direto com a PRF, DER, Defesa Civil, prefeituras e imprensa. O monitoramento do trecho, segundo a empresa, é contínuo.



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