Considerada por um estudo nacional como o pior município brasileiro com mais de 100 mil habitantes para ser mulher, Paranaguá se prepara para receber o primeiro Centro de Referência à Mulher Vítima de Violência (CRAM) do litoral paranaense. O Estado já conta com outras 15 unidades, vinculadas à Secretaria Estadual da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa (SEMIPI).

O CRAM será um espaço de acolhimento e atendimento humanizado para mulheres em situação de violência, seja ela doméstica, sexual ou psicológica. O centro oferecerá apoio social, psicológico, orientação jurídica e encaminhamento para abrigos, quando necessário. O diferencial é que a mulher poderá procurar o CRAM antes mesmo de registrar ocorrência na delegacia, o que desburocratiza o processo e evita sua exposição a situações de risco. O atendimento será direto, sem necessidade de agendamento.
Caminho para romper o ciclo de violência
A secretária municipal da Mulher, Daiane Ávila Christakis, ressalta a importância do acolhimento no momento em que a vítima decide romper o ciclo da violência.
“As mulheres estão mais conscientes sobre seus direitos, e por isso procuram mais ajuda. Temos um número expressivo de medidas protetivas, o que mostra que as mulheres estão mais bem informadas e decididas a buscar proteção. Cabe a nós, enquanto poder público, garantir a estrutura mínima para que elas possam sair dessa situação com segurança”, afirmou.
Atualmente, Paranaguá conta com cerca de 900 medidas protetivas em vigor — ou seja, já analisadas e concedidas judicialmente. Somente em 2025, mais de 200 novas solicitações foram protocoladas no Fórum e aguardam decisão, de acordo com a secretária.
Serviços oferecidos e estrutura
A implementação do CRAM foi aprovada pelo Conselho Municipal da Mulher (Cmdm) no dia 30 de abril deste ano e ainda em fase final de regulamentação. A expectativa é que entre em funcionamento até junho.
“A regulamentação será conduzida pela Procuradoria da Mulher da Câmara Municipal. Assim que aprovada, faremos a implantação imediata”, explicou Daiane.
O centro funcionará no mesmo endereço da Casa da Mulher Parnanguara, na Avenida Ford, nº 177, ao lado da Escola Municipal Professora Berta Rodrigues Elias, no bairro Emboguaçu. A gestão será da Secretaria Municipal da Mulher (SEMMU), com apoio da SEMIPI.
“A estrutura foi implantada pela gestão anterior e, pelo que avaliamos, atende integralmente os requisitos exigidos para a implantação de um CRAM. Provavelmente, a casa já foi criada com essa finalidade em mente”, observou a secretária.
Entretanto, neste primeiro momento, o centro não contará com atendimento psicológico completo.
“Ainda não temos equipe psicossocial. Conseguimos aprovar pelo Conselho que, ao menos emergencialmente, os atendimentos sejam realizados mesmo sem psicólogos, porque ainda não temos esses profissionais devido à falta de pessoal. Não há concurso em aberto para esse chamamento, e essa carência atinge não só a Secretaria, mas diversas outras áreas. Estamos em tratativas com o prefeito para buscar uma alternativa que nos permita contar com esse profissional”, explicou Daiane.
O PAM segue em atividade
O Ponto de Atendimento à Mulher (PAM), localizado no Terminal Rodoviário Urbano, seguirá funcionando como base de apoio para vítimas de violência. O espaço oferece suporte para que as mulheres conquistem autonomia financeira, por meio de ações voltadas ao empreendedorismo, qualificação e empregabilidade.
O PAM também disponibiliza atendimento jurídico por meio da Defensoria Pública do Paraná.
Violência contra a mulher em Paranaguá
De acordo com dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SESP), Paranaguá registrou 409 ocorrências de crimes contra a dignidade sexual em 2024.
Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 posicionou o município na 40ª colocação entre as cidades com mais de 100 mil habitantes com maiores taxas de estupro ou estupro de vulnerável — dados referentes a 2023.
O Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), registrou quatro ocorrências de feminicídio, entre tentativas e casos consumados, em Paranaguá entre 2023 e 2024.
Já em 2025, o feminicídio de Ana Beatriz Velozo, de 24 anos, inaugurou as estatísticas locais. Ela foi assassinada com dois tiros dentro de casa, na Vila dos Comerciários, no dia 3 de abril. O marido da vítima, de 35 anos, foi preso em 10 de maio como principal suspeito.
Outro caso de grande repercussão envolveu uma jovem estuprada em um posto de combustíveis desativado, no dia 23 de fevereiro. As câmeras de segurança registraram o crime, inclusive o momento em que a vítima nega a relação sexual por 11 vezes. O autor foi preso quase um mês depois do crime, após se entregar à polícia.
Paranaguá: pior cidade do Brasil para ser mulher
O estudo que colocou Paranaguá como a pior cidade brasileira para mulheres analisou 319 municípios com mais de 100 mil habitantes, abrangendo cerca de 60% da população urbana do país. O levantamento foi divulgado em março de 2025 pela Tewá 225, consultoria especializada em impacto social positivo.
A análise foi baseada em dados do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC-BR) de 2024, com foco no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5) da ONU, que visa à igualdade de gênero e ao empoderamento feminino.
Entre os critérios considerados estavam a taxa de feminicídio, a desigualdade salarial entre homens e mulheres, a representatividade feminina nas câmaras municipais e a proporção de jovens mulheres (entre 15 e 24 anos) que não estudam nem trabalham. Cada indicador foi pontuado de 0 a 100, levando em conta aspectos como raça, localização geográfica, biomas e características econômicas que impactam diretamente as oportunidades oferecidas às mulheres.