“Parecia tudo muito real”: sonho fez família desistir de barco que naufragou na Baía de Paranaguá


Por Maisy Pires

Um sonho vivido dias antes do naufrágio na Baía de Paranaguá mudou os planos de uma família da Ilha do Superagui, em Guaraqueçaba. Em entrevista exclusiva ao JB Litoral, o empresário Marcel Muniz Esquenine, de 39 anos, contou que convenceu a esposa a cancelar uma viagem para Paranaguá após sonhar que a embarcação em que ela viajaria afundava.

NAUFRAGIO PARANAGUA
Após sonho, família desistiu de embarcação que naufragou e matou uma mulher. Foto: reprodução/Giramar

Para a surpresa de Marcel, a embarcação naufragou na tarde de segunda-feira (6), entre a Ilha da Cotinga e a Ilha das Cobras, durante a travessia para a Ilha do Superagui. Das 19 pessoas a bordo, a tia do empresário, Maria Inês Miranda da Graça, de 64 anos, morreu após ser resgatada em parada cardiorrespiratória. Outras 18 pessoas, entre elas um bebê de cinco meses, foram salvas pelas equipes de resgate.

Marcel contou que a esposa havia marcado uma consulta médica em Paranaguá para o filho do casal, um bebê de três meses que está em tratamento devido ao refluxo. O plano era retornar para a ilha justamente na embarcação que acabou afundando.

“Parecia tudo muito real”

Marcel diz ao JB Litoral que sonho evitou tragédia com sua família. Foto: arquivo pessoal

Segundo o empresário, o sonho aconteceu cerca de cinco dias antes do acidente e foi tão intenso que ele decidiu mudar os planos da família.

“Eu sonhei que um barco da ilha afundava na Baía de Paranaguá. No sonho, minha esposa, meu filho de três meses e minha filha de 13 anos estavam nessa embarcação. Eu estava desesperado na praia, tentando encontrar um jeito de salvá-los, mas não conseguia. Parecia tudo muito real”, relatou ao JB Litoral.

Assustado, Marcel pediu que a esposa desistisse da viagem. Inicialmente, ele não contou o motivo, apenas insistiu para que ela remarcasse a consulta ou a realizasse de forma on-line.

“Eu falei para ela remarcar ou fazer a consulta on-line. Não queria que ela fosse para Paranaguá naquele dia.”

A consulta acabou sendo realizada virtualmente e a família permaneceu na ilha. Somente depois ele revelou à esposa o motivo da insistência e mostrou até a conversa em que ela avisava familiares que não faria mais a travessia.

Alívio e luto

Horas depois do naufrágio, o sentimento de alívio por ter evitado a viagem deu lugar ao choque ao descobrir que a única vítima fatal era justamente sua tia. Maria Inês Miranda da Graça era irmã da mãe de Marcelo.

“Quando aconteceu o acidente, eu não consegui acreditar. Depois caiu a ficha. Minha tia estava naquele barco e minha esposa, meus filhos, poderiam estar também.”

Ele também conhecia praticamente todos os ocupantes da embarcação. “Quase todo mundo que estava no barco é morador da ilha. É uma tragédia que abalou toda a comunidade.”

Morador fala sobre a falta de fiscalização

Morador da Ilha do Superagui e proprietário de chalés voltados ao turismo há cerca de 13 anos, Marcelo afirma que há tempos orienta hóspedes sobre os cuidados durante a travessia entre Paranaguá e a ilha.

Segundo ele, a principal preocupação dos moradores é a falta de fiscalização nas embarcações. “Os coletes salva-vidas muitas vezes ficam guardados e só aparecem quando o barco se aproxima da fiscalização. A realidade durante a viagem é outra”, contou.

Ele também relata reclamações sobre superlotação, falta de organização e até consumo de bebida alcoólica por parte de alguns profissionais antes das viagens. “Sempre peço para os hóspedes me avisarem qual barco vão pegar. Se estiver muito cheio ou houver qualquer situação de risco, oriento a esperar outra embarcação.”

Apesar das críticas, Marcelo faz questão de destacar que o trajeto entre Paranaguá e a Ilha do Superagui não é, por si só, perigoso. “O problema não é o trajeto. O problema é a falta de fiscalização e de cuidado com a segurança. Na segunda-feira o mar estava calmo. Foi uma tragédia que, na minha opinião, poderia ter sido evitada”, completou o empresário.

Investigação

A Marinha do Brasil informou por meio de nota que instaurou um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN) para apurar as circunstâncias do naufrágio. A investigação irá esclarecer as condições da embarcação, as causas do acidente e se houve eventual descumprimento das normas de segurança. O prazo para conclusão é de até 90 dias.

Sair da versão mobile