Passados os shows do Verão Maior, como fica a situação da Orla de Matinhos?


Por Redação

Foram três meses de batalhas travadas contra a força do mar. Entre 8 de outubro de 2025 e 19 de janeiro de 2026, as praias de Matinhos foram atingidas por três ressacas — fenômeno causado pela combinação de ventos fortes, que podem ser gerados por frentes frias ou pela passagem de ciclones extratropicais, com o aumento natural do nível do mar durante as fases de lua nova e cheia.

FOTO 1 ORLA DE MATINHOS – Foto Ari Dias AEN
Obra de engorda da faixa de areia foi concluída em outubro de 2022; três anos depois, ela voltou a ter a mesma extensão anterior à engorda. Foto: Ari Dias/AEN

O JB Litoral vem acompanhado a situação desde o início. Antes mesmo de as praias serem impactadas pelas ressacas — sobretudo no trecho de Caiobá, onde ocorreram os cinco fins de semana de shows do Verão Maior Paraná — o veículo já havia publicado reportagens mostrando, em primeira mão, que a faixa de areia apresentava alterações significativas.

As mudanças foram observadas após as obras de engorda, concluídas em outubro de 2022, quando a largura da faixa passou a ter dimensão semelhante à registrada antes da intervenção.

Medidas emergenciais

Com isso, as últimas ressacas voltaram a assustar a população e provocaram degraus cada vez mais altos na faixa de areia, que chegaram a ultrapassar quatro metros.

Na primeira semana de janeiro, com o palco já montado e prestes a receber os primeiros shows, o Instituto Água e Terra (IAT) realizou mais uma intervenção para tentar proteger o local da ação do mar.

Segunda ressaca entre outubro de 2025 e o começo de 2026 ocorreu em 4 de janeiro e degrau chegou perto do palco do Verão Maior. Foto: Paraná Praia

Entre novembro e dezembro, o órgão já havia providenciado o transporte de areia de pontos como a área dos pescadores até Caiobá, ao custo de R$ 1,6 milhão. Desta vez, foram colocados 1.900 sacos de areia, formando uma espécie de dique ao longo de 350 metros.

No entanto, no dia 19 de janeiro veio mais uma ressaca, levando embora parte dos sacos e espalhando o material, que não é biodegradável, por um raio de aproximadamente 25 km. Partes dos sacos, que são feitos de ráfia, segundo o IAT, foram encontradas em praias de Pontal do Paraná e até na ilha de Superagui, em Guaraqueçaba.

O episódio provocou a manifestação do Ministério Público Federal (MPF), que solicitou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que realizasse diligências e, caso a prática seja caracterizada como poluição, há a possibilidade de responsabilização civil e criminal. Na ocasião, o presidente do IAT, Everton Luiz da Costa Souza, declarou que foi determinada uma varredura para o recolhimento dos sacos por toda a área.

Agora, com o fim dos shows e restando mais de um mês para o verão acabar, os questionamentos giram em torno do que será feito para resolver o problema e deixar a faixa de areia segura. Por isso, o JB Litoral voltou a procurar o Estado e perguntou quais são as medidas a serem implementadas na área.

Após a ressaca de 4 de janeiro, uma barreira com 1.900 sacos de areia foi instalada em uma extensão de 350m, parte dos sacos foi levada na ressaca seguinte, em 19 de janeiro. Foto: JB Litoral

Estudos para as soluções “definitivas”

A resposta veio por meio de nota, em que o IAT afirmou que “planeja implementar algumas melhorias na orla de Matinhos, conforme estabelecido no projeto inicial da engorda do local”, sem detalhar, no entanto, quais seriam essas melhorias nem informar se o Estado vai recorrer ao Consórcio Sambaqui, responsável pelas obras de requalificação da orla.

As ações estão em fase de estudos, ainda sem projeto definitivo, em busca da solução mais viável. Uma alternativa é a implementação de recifes artificiais, que ajudarão na diminuição da energia das ondas, colaborando com a manutenção da areia no trecho de 500 metros entre o Sesc e o Pico de Matinhos”, completou a nota.

Um projeto semelhante foi instalado no litoral da Gold Coast, na Austrália, usando um método pouco conhecido no Brasil: grandes bolsas de geotêxtil preenchidas com areia, posicionadas no fundo do mar para formar um recife artificial submerso.

A instalação, conhecida como Narrowneck Reef, foi projetada para reduzir a força das ondas que chegam à praia, em um trecho com histórico de erosão. Na prática, o conjunto atua como uma barreira submersa que enfraquece parte da energia que chegaria com força total à faixa de areia, ajudando a reduzir o impacto de ressacas e ondas maiores sobre um trecho descrito pela administração local como “estreito e suscetível à perda de areia”.

Na Gold Coast, na Austrália, bolsas de geotêxtil com areia formam um recife artificial submerso que ajuda a diminuir a força das ondas e combater a erosão costeira. Foto: CPG/ Click Petróleo e Gás

Já aqui, no litoral paranaense, outros projetos estão em andamento há mais de uma década, com a implantação de recifes artificiais em blocos de concreto — não com o objetivo de conter a força do mar, mas de servir de abrigo à fauna marinha e conter a pesca de arrasto industrial. Nesse contexto, surgiu o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), realizado pela Associação MarBrasil desde 2013.

O programa já instalou 3.500 blocos, todos eles na costa paranaense, onde formam um corredor ecológico próximo ao Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais (PR).

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