A vida nas ruas em alguns casos é escolha, em outros, é consequência de vulnerabilidades acumuladas. O fato é que essa realidade tem se intensificado no Brasil. Um estudo recente indica que a população em situação de rua saltou de cerca de 327 mil pessoas (em dezembro de 2024) para 365 mil (no final de 2025).
Diante desse avanço, cresce também o desafio dos municípios, que precisam estruturar políticas capazes de garantir direitos e promover a inclusão social.

Os dados são de um levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG), divulgado no início deste ano. Para chegar a esses números, a Universidade utilizou dados do Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), que reúne os beneficiários de políticas sociais, como o Bolsa Família, e serve como indicativo das populações em vulnerabilidade.
Abordagem social recebe reforço na temporada
Em Pontal do Paraná, entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, o serviço de abordagem social direcionado às pessoas em situação de rua no município realizou 113 atendimentos diretos, além de dois acompanhamentos.
As ações ocorrem às quartas, sextas e sábados, sob coordenação da Secretaria Municipal da Família e Desenvolvimento Social, especialmente no período noturno. Durante os meses analisados, as equipes promoveram buscas ativas em diferentes regiões do município, com orientação, escuta qualificada e encaminhamentos à rede socioassistencial.
Neste período, as equipes da abordagem social verificaram que as principais demandas estavam a ausência de moradia, desemprego, questões de saúde, uso de substâncias psicoativas e falta de documentação civil.
Reconstruindo vidas
A secretária municipal da Família e Desenvolvimento Social de Pontal do Paraná, Kathia Salomão de Souza, contou que a abordagem é feita por uma equipe, composta por um profissional de nível superior, assistente social e mais duas pessoas contratadas para auxiliar no trabalho.
“O objetivo é conhecer, levantar a demanda dessas pessoas, entender de onde vieram, tentar reconstruir algum projeto de vida com elas, a partir da oferta de alguns serviços, encaminhamentos para a política de trabalho. Para política de saúde e outras intervenções e também a inserção no Programa Praia”, explicou Káthia.
Segundo ela, é necessário conscientizar a população sobre a realidade da população de rua para evitar o preconceito com esse público. “Ninguém está nessa situação porque quer, mas porque ocorreram situações na vida dessas pessoas. Muitas vezes não há outra opção. Muitos estão na rua porque alguém da família faleceu, perdeu tudo, perdeu a empresa que tinha, se envolveu com o uso de drogas e outras substâncias, por conflitos, rompimentos familiares”, exemplificou Káthia.
Garantia de dignidade e acesso a serviços
O objetivo do trabalho de abordagem social é garantir um mínimo de dignidade e de segurança, além de levar acesso aos serviços que são direitos da população. “Um dos principais benefícios que a gente acaba fornecendo é a passagem, mas fornecida dentro de critérios, conversado para tentar entender a situação”, explicou a secretária.
As passagens são disponibilizadas quando há possibilidade de retorno à cidade de origem ou ao município onde a pessoa possua familiares ou rede de apoio, sempre respeitando a manifestação de vontade, como informou a Prefeiutra de Pontal do Paraná. Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, foram emitidas 120 passagens com essa finalidade.
A iniciativa também atua na inserção dos moradores no Programa de Abordagem e Inclusão Assistencial (PRAIA), que contabilizou seis novos participantes no período. O programa prevê a elaboração de plano individual de acompanhamento, assegura acesso a bolsa de capacitação ou reinserção profissional, além de apoio para alimentação e transporte, quando necessário.