Símbolo de fé e história, Igreja de São Benedito inicia nova fase com restauração em Antonina


Por Gabriela Perecin

As obras de restauração da Igreja São Benedito, em Antonina, tiveram início em fevereiro deste ano com investimento de R$ 2,56 milhões do Governo Federal, por meio do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Os serviços foram viabilizados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que realizou uma vistoria no local no último dia 9.

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Previsão de término da obra é fevereiro de 2027, ou seja, um ano após o início dos serviços. Foto: Divulgação/Marsou Engenharia

A conclusão está prevista para fevereiro de 2027. De acordo com o PAC, a obra está com 3,4% de execução, conforme a última atualização, e integra o eixo de infraestrutura social e inclusiva.

O Centro Histórico de Antonina, onde está localizada a Igreja de São Benedito, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2012 devido ao seu valor histórico e paisagístico. O entorno é composto por edificações com características do período colonial brasileiro, além de exemplares da arquitetura eclética e art déco.

“A cidade testemunha os processos de ocupação territorial do litoral do Paraná. Sua importância histórica está vinculada à descoberta e exploração das primeiras minas de ouro no Brasil, que antecedeu o Ciclo de Ouro em Minas Gerais”, divulgou o Iphan.

Reforma segue técnicas de preservação

Empresa realiza o monitoramento arqueológico para o entendimento da construção, uso e apropriação do edifício e entorno nos últimos 200 anos. Foto: Divulgação/Marsou Engenharia

A empresa responsável pela execução das obras é a Marsou Engenharia Ltda. Por estar em área tombada, as intervenções deverão seguir diretrizes técnicas e de preservação.

“Antes do início das intervenções, os técnicos fizeram um estudo arqueológico no local, processo exigido por lei em obras que tenham provável impacto ao patrimônio cultural”, disse o Instituto do Patrimônio Histórico.

Uma equipe do Iphan já esteve no local para fiscalizar as obras de restauração. A inspeção ficou concentrada nas intervenções realizadas na cobertura do altar, com a instalação de manta e colocação de telhas; a demolição do coro com proteção de pintura; a montagem de andaimes; e a confecção de gabaritos para recomposição de trechos das cimalhas (elementos de acabamento).

Pintura decorativa encontrada nas prospecções estratigraficas. Foto: Divulgação/Marsou Engenharia

“O monitoramento arqueológico também foi acompanhado pela equipe, que registrou a identificação de artefatos construtivos, entre eles um possível pináculo — ponto mais alto da torre —, encontrados durante as escavações”, revelou o Iphan.

O arquiteto residente e responsável técnico pela obra de restauração da Igreja São Benedito, Arthur Vieira, da empresa Marsou Engenharia, explicou que está em execução a substituição do telhado e da estrutura de madeira comprometida por novo sistema de tesouras e telhas cerâmicas do tipo capa-canal, tipo original utilizado na construção do século XIX.

Também é realizado um processo investigativo para a identificação das técnicas construtivas utilizadas e a trajetória cromática do edifício, ou seja, quais foram as cores aplicadas ao longo do tempo.

“Estamos fazendo toda a pesquisa e monitoramento arqueológico para o entendimento da construção, uso e apropriação do edifício e entorno nos últimos 200 anos. Além de serviços de restauração das esquadrias (portas e janelas) de madeira, e elementos decorativos das fachadas como as cimalhas, colunas e cornijas”, acrescentou o arquiteto Arthur.

Foto: Divulgação/Marsou Engenharia

Mão de obra local

A Prefeitura de Antonina destacou que a iniciativa de reformar o espaço histórico reúne cuidado com o patrimônio e também a valorização de trabalhadores locais. Atualmente, todos os trabalhadores que atuam na obra são de Antonina (17 no total), exceto o arquiteto e a arqueóloga.

“Além de preservar um dos principais símbolos históricos da cidade, a obra também fortalece a economia local. A maioria dos trabalhadores contratados para a execução do projeto é formada por profissionais antoninenses, valorizando a mão de obra local e gerando emprego e renda no próprio município”, enalteceu a Administração Municipal.

Foto: Divulgação/Marsou Engenharia

Fé, resistência e memória

A construção secular servia como refúgio religioso para pessoas escravizadas, que viam em São Benedito uma figura de proteção diante da perseguição imposta pelo homem branco.

Documentos históricos apontam que a igreja foi construída com 300 mil réis e, depois de anos paralisada, voltou a ser construída por interferência popular. Na semana que antecede o dia 26 de dezembro, a comunidade promove novenas em homenagem ao santo.

O arquiteto Arthur, responsável técnico da obra, disse que o objetivo é contribuir com o reconhecimento da Igreja como elemento fundamental na construção da identidade do povo antoninense, em especial da população negra.

Foto: Divulgação/Marsou Engenharia

A edificação foi erguida entre 1824 e 1835 pela Irmandade dos Homens Negros de São Benedito, inserindo o homem negro nas dinâmicas socioculturais-religiosas da cidade enquanto atuou como elemento de resistência contra o sistema escravagista.

“A história coletada e apresentada em pesquisa histórica identificou, por meio de relatos da população e pesquisa em arquivos, que a igreja funcionou como entreposto para os escravos fugitivos, que viam ali um “porto seguro” e, também, palco para as manifestações religiosas populares, que sincretizaram as tradições católicas com aquelas trazidas pelos escravizados”, explicou o arquiteto.

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