
Quando a pesca artesanal da tainha é liberada no Sul e Sudeste brasileiro, entre o dia 1º de maio e 31 de julho, é um momento de festa para todos os pescadores do Litoral, que garantem o sustento de suas famílias e a perpetuação da tradição caiçara.
Na pesca, é preciso um clima ideal, que une o vento sul à temperatura fria da água, que faz com que as tainhas se juntem à beira do mar. Para localizar os cardumes, os vigias da pesca vão monitorar a área ainda cedo, por volta das 5h. Quando percebem uma mancha preta na água, avisam aos demais pescadores que partem com suas redes ao mar.
Neste ano, a pesca já alcançou números significativos, com registro de até oito toneladas em um único dia, em Pontal do Paraná, e quatro toneladas em Matinhos e Ilha do Mel. A tradição, passada de pai para filho, é realizada por meio do “lanço” e o “arrasto” da espécie, que consiste na técnica de jogar a rede, que fica rodeada por barcos, e puxar o cardume para a beira da praia.
“Essa temporada está forte, já houve dias em que acertaram vários lanços, principalmente em Pontal, onde pegaram oito mil peixes em um único dia. Então, a expectativa é boa e esperamos que o frio e os ventos continuem favoráveis“, diz o presidente da Federação dos Pescadores do Estado do Paraná, Edmir Manoel Ferreira.
Edmir também conta que, nesta época, a tainha é a principal fonte de renda para as famílias caiçaras que vivem da pesca artesanal, além de ser um meio de sustento barato graças à fartura do período.
“É um momento muito comemorado por nossa comunidade porque comercializamos o pescado que garante o sustento de cerca de 700 pescadores sazonais e suas famílias por até quatro meses“, diz o presidente.
Tradição familiar
Pescador há 43 anos, Wilson Serafim do Nascimento, de 56, morador de Pontal do Paraná e associado à Colônia Z5 de Shangri-lá, faz parte da 4ª geração que perpetua a pesca artesanal da tainha em sua família. Experiente, ele conta que chega a capturar cinco toneladas no período e vende o pescado para os atravessadores (intermediários que compram de pescadores e vendem para o comércio).
A fartura é tamanha que, diariamente, a família inventa novas formas de preparar o pescado. “Usamos para venda e consumo. Aqui comemos assada, frita, cozida, além de fazer também a cambira, que é um prato comum na nossa região“, afirma o pescador.
Já Florismar Santana da Silva, de 64 anos, também começou a pescar com o pai ainda criança, aos 12 anos. Morador do balneário de Barranco, em Pontal do Paraná, ele fala que toda temporada é motivo de celebração e união com o filho que acompanha o pai toda manhã na pesca da tainha.
“Aqui estamos em 15 famílias e todo mundo se ajuda. Quando vou pescar, também levo meu filho, que me acompanha desde moleque. Tudo que a gente pega é distribuído de uma forma justa, daí cada um escolhe quanto vai vender ou consumir. Geralmente, vendemos para terceiros que levam a tainha para Santa Catarina”, conta o pescador.
A abundância é celebrada, mas não tira o ceticismo do pescador, que sabe que o sucesso da atividade varia conforme o tempo e a sorte. “É muito relativo. Num dia você pode pescar 12 toneladas e depois não pegar mais nada em meses. Também pode acontecer como na quinta-feira (22), quando pegamos três toneladas e meia e nos últimos dois dias não pegamos nada”, explica Florismar.
Pescado virou festa
É tanta tainha, que há 29 anos a população caiçara da Ilha do Mel também resolveu criar uma festa e preparar os mais diversos pratos com o peixe. O evento, que está em sua 29ª edição e acontece do dia 1º a 29 de julho, reúne o que tem de melhor da cultura caiçara, com bailes, danças típicas e o famoso forró.
Em Paranaguá, a festa ultrapassa as três décadas, mas há 12 anos virou um evento nacional e, neste ano, vai para a 12ª edição da Festa Nacional da Tainha. A festividade desse ano acontecerá em frente à Arena Albertina Salmon, entre os dias 29 de junho e 9 de julho, com shows ao vivo e degustação dos pratos típicos feitos com a tainha.
No município de Guaratuba, a comemoração também virou tradição, com o Festival da Tainha, que ocorreu entre os dias 7 e 11 de junho. Já em Pontal do Paraná, acontece o Festival de Gastronomia Caiçara do dia 2 a 30 de julho, em que os chefs disputam pelo título de melhor cozinheiro da cambira, um prato preparado com peixe seco e defumado (geralmente a própria tainha), acompanhado da banana, pirão, salada e arroz.