O menor município do Litoral do Paraná está no centro de denúncias sobre a gestão dos recursos públicos. Um relatório elaborado pelo vereador de Guaraqueçaba, Alcendino Ferreira Barbosa (PSDB), conhecido como Thuca da Saúde, aponta supostos gastos excessivos por parte da Prefeitura e levanta questionamentos sobre a execução do orçamento municipal.

Durante a 17ª sessão ordinária da Câmara Municipal, realizada no último dia 16, Thuca afirmou que cerca de 60% do orçamento previsto para todo o ano já havia sido consumido nos primeiros cinco meses de 2026. Na avaliação do parlamentar, o cenário compromete a capacidade financeira da administração para os meses restantes.
O vereador aponta um relatório técnico de execução orçamentária referente ao período de janeiro a maio, o qual revela que a gestão já empenhou R$ 29 milhões dos R$ 48 milhões previstos para todo o ano.
“Isso significa que, em apenas 41,7% do ano, 60,4% de toda a verba disponível já foi gasta ou reservada”, ressaltou.
Se esse ritmo for mantido, de acordo com ele, o município encerrará o ano com R$ 69,6 milhões em despesas, o que representa um rombo de R$ 21,6 milhões acima do orçamento autorizado inicialmente.
Vereador questiona prioridades da administração
O relatório indica gastos desordenados com combustíveis, que já supera em mais de 50% o do ano passado. “Já consome valores significativamente superiores à média histórica, com uma projeção de aumento de 56,6% em relação a 2025”, disse.
“A pergunta que fica para o contribuinte de Guaraqueçaba é: se o dinheiro já foi quase todo comprometido em cinco meses com combustíveis e contratos suspeitos, como a Prefeitura garantirá a continuidade dos serviços básicos nos sete meses restantes do ano?”, reforçou.
A denúncia ainda sugere uma grave seletividade nos pagamentos, com privilégio a empresas externas. “Há relatos de que a Prefeitura tem priorizado o pagamento de grandes fornecedores externos, enquanto empresas locais, que dependem da administração para sobreviver, enfrentam dificuldades”, declarou Thuca.
Os problemas, de acordo com o documento, também atingem a base do serviço público, com atraso no pagamento de estagiários, equipes de roçada, limpeza pública e transporte escolar.
Na área da saúde, ele afirmou que o transporte de pacientes está com falta de recursos, somando-se à falta de manutenção da frota e pagamentos de aluguéis.
Levantamento será encaminhado à Justiça Eleitoral
O parlamentar afirmou que encaminhará o relatório ao Cartório Eleitoral de Antonina para evitar que os recursos destinados à compra de combustíveis sejam utilizados em campanhas eleitorais e para que seja apurado em quais veículos os abastecimentos ocorreram. “Inclusive, pedir as imagens de câmeras dos postos de combustíveis de Guaraqueçaba para saber quem abasteceu”, sugeriu Thuca.
Após críticas, gestão anuncia restrições orçamentárias
No dia seguinte às cobranças feitas na sessão da Câmara, na quarta-feira (17), o prefeito de Guaraqueçaba, Alessandro Carneiro Soares Truchinski (União), conhecido como Sandro da Saúde, publicou o Decreto nº 775/2026, que institui formas de conter os recursos.
A medida estabelece um pacote de contenção de despesas com validade inicial de 90 dias, com o objetivo de equilibrar as contas públicas.
Entre as ações adotadas estão a suspensão de licitações e contratações consideradas não essenciais, a proibição do pagamento de diárias, participação de servidores em cursos e eventos custeados pela Prefeitura e a restrição à realização de horas extras, exceto em situações emergenciais.
O decreto também determina a revisão de contratos vigentes, exigindo análise prévia da Secretaria de Finanças.
As novas regras não afetam despesas consideradas essenciais, especialmente nas áreas de saúde e atendimento à população, nem obras e programas financiados por convênios e recursos vinculados. O texto ainda prevê a responsabilização de gestores que estiverem em desacordo.
De acordo com o vereador Thuca, o decreto não resolve o problema da gestão orçamentária municipal. “O documento centraliza todos os gastos no gabinete do prefeito, o que, na prática, pode burocratizar ainda mais a solução dos problemas básicos enquanto mantém a liberdade para outros considerados ‘essenciais’ pela gestão”, afirmou.
Prefeito negou acusações
O prefeito de Guaraqueçaba disse ao JB Litoral que as acusações se trata de “inverdades” e que o “procurador do município entrará contra o vereador no Ministério Público (MP)”.
O JB Litoral também entrou em contato com o procurador, Renan de Oliveira Santos, para comentar o caso, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.