
Um vídeo gravado em Matinhos, na última semana, causou indignação entre ambientalistas e moradores locais. Nas imagens, uma mulher aparece cortando a carne de uma tartaruga encontrada morta na praia, enquanto reclama de estar sendo filmada. A gravação viralizou nas redes sociais, mas acendeu um alerta sobre os riscos à saúde humana e os impactos ambientais desse tipo de atitude.
“É uma prática extremamente perigosa, tanto do ponto de vista sanitário quanto ecológico”, afirma Amanda Padilha dos Santos, biomédica e mestre em Engenharia Biomédica.
O vídeo veio à tona justamente no momento em que o Litoral do Paraná registra um número histórico de encalhes de tartarugas-verdes. Só em julho de 2025, foram encontrados 314 animais mortos ou debilitados entre Guaratuba e Guaraqueçaba, um aumento de 502% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 52 encalhes. Os dados são do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), realizado no Paraná pela equipe do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR).
“Estamos diante de um cenário que exige atenção. As tartarugas-verdes são comuns na nossa região, especialmente em sua fase juvenil, e essa concentração de encalhes é reflexo direto das pressões que esses animais enfrentam no ambiente marinho”, afirma Camila Domit, coordenadora do PMP-BS/UFPR.
Comer carne de tartaruga encalhada pode levar à morte
Segundo a biomédica Amanda Padilha, consumir a carne desses animais em decomposição representa um risco de grande escala à saúde pública.
“Após a morte, a tartaruga entra em processo rápido de putrefação, acelerado pela exposição ao sol, ao sal e à água do mar. Isso favorece o crescimento de bactérias patogênicas como Salmonella spp. e Clostridium botulinum, que provocam intoxicações alimentares graves”, explica.
Um dos maiores perigos, de acordo com ela, é o chamado quelonitoxismo – uma intoxicação rara, mas potencialmente letal, causada por toxinas naturais presentes na carne de algumas tartarugas marinhas.
“Essas toxinas são produzidas por microrganismos ou acumuladas a partir da dieta do animal, permanecendo ativas mesmo após o cozimento. Os sintomas podem incluir náuseas, vômitos, diarreia intensa, dores abdominais, confusão mental, convulsões, arritmias e insuficiência respiratória. Não existe antídoto específico para o quelonitoxismo, e o tratamento é apenas de suporte, o que torna a prevenção essencial”, detalha a especialista.
O JB Litoral procurou a Prefeitura de Matinhos na tentativa de identificar a mulher filmada cortando a carne de uma tartaruga morta, mas, segundo a administração, não foi levantada a identificação ou qualquer informação sobre as condições sociais e o estado de saúde dela.
Assista ao vídeo da mulher que corta carne de tartaruga morta em Matinhos:
Espécie vulnerável à extinção
A tartaruga-verde (Chelonia mydas) é considerada residente temporária no Litoral do Paraná, quando busca alimento e abrigo. Na fase juvenil, ela se alimenta de peixes, lulas, algas e gramas marinhas. Quando adulta, pode atingir até 1,5 metro e pesar cerca de 230 kg, com dieta predominantemente herbívora.
A espécie está classificada como vulnerável à extinção no Paraná, conforme o Decreto Estadual nº 6.040/2024, e é protegida pela Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998).
“A ingestão de carne proveniente de espécimes mortos não apenas infringe a legislação vigente, como também acarreta impactos à conservação de espécies ameaçadas”, reforça Amanda.
Encalhes aumentam com o frio e a ação humana
Segundo pesquisadores, o aumento de encalhes em 2025 é resultado da combinação de fatores naturais com impactos causados por atividades humanas. Durante o inverno, frentes frias afetam a salinidade, temperatura da água, ventos e correntes marinhas, dificultando a locomoção e alimentação das tartarugas.
“As causas de mortalidade estão associadas a múltiplos fatores. Um animal debilitado por infecções, por exemplo, torna-se mais vulnerável a colisões em embarcações ou ao emalhe em redes. Esses fatores somados comprometem a saúde dos indivíduos e ampliam os riscos de encalhes”, explica o médico veterinário Fábio Henrique de Lima, do PMP-BS/UFPR.
Além disso, muitos dos animais encalhados apresentavam sinais de interação com resíduos sólidos, como plásticos.sentavam sinais de interação com resíduos sólidos, como plásticos.
Pescadores rebatem acusações
A repercussão do vídeo da mulher cortando carne de tartaruga reacendeu também uma velha polêmica no Litoral: a responsabilidade de pescadores pelos encalhes e mortes de animais marinhos. Especialistas alertam que parte das tartarugas encontradas mortas apresenta sinais de emalhe em redes de pesca, o que levanta suspeitas sobre práticas ilegais ou irregulares no entorno das baías.
A acusação, porém, foi rebatida por representantes da pesca artesanal. Segundo o presidente da Associação de Pescadores de Matinhos, Lopes Fabiano Santos, conhecido como Sapo, os profissionais do setor têm sido injustamente responsabilizados.
“Realmente é rede, mas não é de pescador profissional. É dessas em geral armadas no lagamar. Muita gente que nem é pescador fica armando esse tipo de rede para matar tainha. Nessas que caem as tartarugas que aparecem nas praias. Mas ressalto que não é o pescador profissional, até porque nós pescamos mais adiante, no mar”, afirma Sapo.
O uso indiscriminado de redes fixas em áreas sensíveis como o lagamar – zona de encontro de águas doces e salgadas e berçário natural da fauna marinha – é alvo constante de fiscalização por órgãos ambientais. A pesca com redes do tipo “espera” sem licença é proibida em diversas áreas do Litoral, especialmente onde há ocorrência de espécies ameaçadas.
Menos de 2% sobreviveu
Das 314 tartarugas encalhadas em julho, apenas cinco estavam vivas no momento do resgate, o equivalente a 1,59% do total. Elas foram encaminhadas ao Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD/UFPR), onde recebem atendimento clínico especializado.
“O trabalho de reabilitação não apenas salva a vida daqueles indivíduos, mas também contribui para o conhecimento científico e a conservação da biodiversidade marinha”, ressalta o médico veterinário Felipe Yoshio Fukumori.
“A reabilitação das tartarugas costuma ser mais lenta e delicada. Cada uma demanda um protocolo específico, com atenção ao seu histórico, condição corporal e resposta aos primeiros cuidados. Por isso, o acompanhamento diário é fundamental para garantir a recuperação completa e segura até o momento da soltura”, complementa.
Encontrou uma tartaruga encalhada? Saiba o que fazer
A orientação do LEC-UFPR é de que, ao encontrar um animal marinho encalhado, não se deve tocar e nem tentar devolvê-lo ao mar. Além disso, é essencial manter distância. O atendimento deve ser feito exclusivamente por equipes autorizadas.
“Cada atendimento segue protocolos técnicos que garantem o bem-estar dos animais e a segurança da população. O monitoramento é uma ferramenta poderosa que conecta ciência, conservação e compromisso ambiental”, explica Liana Rosa, gerente operacional do PMP-BS/LEC-UFPR.
As informações obtidas em campo são registradas no Sistema de Informação de Monitoramento da Biota Aquática (SIMBA), que apoia pesquisas científicas e políticas públicas.