Clube Cruzeiro: negócio familiar e gastos não prestados durante anos

por Redação JB Litoral
11/10/2019 20:02 (Última atualização: 24/02/2020)

Apesar de o JB Litoral abrir espaço para manifestação do Presidente do Clube Cruzeiro, Celso José de Ramos, sobre a reportagem que abordou a cobrança feita por um dos 280 sócios da associação, feita por meio de Notificação Extrajudicial,  a respeito da venda de parte do terreno da instituição à sua esposa, o que não aconteceu, nesta edição, o jornal aprofundou o assunto e traz um levantamento de como a entidade social vinha sendo gerida pela atual diretoria.

Além da venda para a esposa de parte da área, patrimônio dos associados, por R$ 70 mil, existe a possibilidade de o filho do presidente, Rafael Ramos, estar se beneficiando do Clube, por meio de sua empresa, a RR Áudio. A suspeita é de que a empresa vinha administrando os shows e eventos ao longo destes anos, razão pela qual, a Notificação cobrou o contrato de locação do espaço no clube para a RR Áudio, justamente para averiguar as suspeitas, mas não houve manifestação de Celso.

Além disto, a reportagem levantou que o Cruzeiro, desde 2005, se tornou Utilidade Pública no município, benefício concedido pelo então Prefeito Helder Teófilo dos Santos (PSDB), condição respaldada por se tratar de entidade sem fins lucrativos, conforme determina o artigo 1º do seu Estatuto Social. Entretanto, a utilização do espaço para shows e eventos por uma empresa da iniciativa privada, que visa lucro, vai ao desencontro das vantagens da condição de Utilidade Pública, como a isenção de impostos, ou seja, o Imposto Predial, Territorial e Urbano (IPTU).

O que se observa é que o clube é gerido como um “negócio de família”, característica percebida por meio das relações e transações comerciais feitas pelo presidente, com sua esposa e filho.
 

Eventos com shows que não lucram
 

Com uma extensa programação de eventos, muitos deles nos quais são contratados cantores, duplas e bandas de renome no litoral, Paraná e no país, a equivocada prestação de contas, apresentada pela diretoria, tendo como base 1º de janeiro de 2016 a 21 de dezembro de 2018, mostra uma entidade deficitária.

Na resposta ao sócio da situação financeira, feita sem nenhuma comprovação por cópias de notas fiscais de compras e vendas de produtos, extratos bancários, contratos com terceiros para locação do espaço no clube para eventos, inclusive de cunho político e de cantores e bandas, os números foram informados em papel comum, sem timbre do clube ou de escritório de contabilidade. Além do mais, não foi apresentado balanço anual, balancetes mensais e extratos completos com as movimentações financeiras, e o que foi esclarecido, não tinha respaldo contábil. Os documentos mostram que o Clube Cruzeiro não recebia nada pelas apresentações, o que sugere um possível favorecimento ao filho do presidente.

Vale destacar que foi pedido balanço patrimonial de 2014 a 2018, assinado por contador, mas que não foi apresentado pela diretoria, da mesma forma que o de 2016 a 2018, que também foi cobrado.

A reportagem constatou, ainda, que o 1º e o 2º tesoureiro, assim como os membros do Conselho Fiscal da Diretoria, não acompanharam as contas e não aparecem, inclusive, nos papéis repassados ao sócio, assinado apenas por Celso Ramos. Esta situação poderá responsabilizá-los, caso o acontecimento seja judicializado.
 

Sem valores de receita de 2016 a 2018
 

A tentativa de uma análise dos papéis repassados pelo presidente a título de prestação de contas, resultou infrutífera diante da ausência de informações básicas, principalmente das receitas que entraram para o Clube e de muitas despesas que foram realizadas, inclusive as indispensáveis, como pagamento de energia elétrica e água.

CONTINUA DEPOIS DO ANÚNCIO

No que Celso Ramos intitulou como “Resumo das movimentações realizadas por receitas/despesas – realização de 01/01/2016 a 31/12/2018”, na resposta enviada à Notificação Extrajudicial, um asterisco alerta que “os totais sempre incluem subitens, mesmo que não estejam sendo exibidos”, ou seja, assume deliberadamente que valores não serão mostrados.

Entretanto, o que mais chama a atenção, são as colunas identificadas como “entradas”, “saídas” e “totais”, onde o espaço para “entradas” mostra qualquer valor e, no de “saídas”, os poucos valores informados são repetidos em “totais”, sem ter como fazer a subtração.  Nos poucos valores inseridos, uma vez que a maioria é preenchida com zeros, a informação não especifica o gasto, somente em que foi usado. Um exemplo é a quantia de R$ 58.866,65  assinalada como gasto de mão de obra na reforma do Clube, mas não traz a empresa ou profissionais contratados. Porém, logo abaixo, diz que só com o material para a suposta reforma foram gastos R$ 226.979,38. Da mesma forma, não detalha quais materiais foram comprados e não há número das notas fiscais das lojas onde foram negociadas.  

 

R$ 70 mil não foram contabilizados

Outro cenário que chama atenção é que no “Resumo das movimentações realizadas por receitas/despesas”, que não traz uma sequência cronológica das despesas, uma vez que não mostra nenhum tipo de receita, aparece a venda do terreno da Torre de Transmissão da Operadora Vivo, em dezembro de 2018, para Eunice de Fátima Hack Ramos, esposa do presidente.

De acordo com a escritura de compra e venda assinada no cartório, o Clube recebeu pela comercialização do Lote E, uma área de 360 metros quadrados, o valor de R$ 70 mil, pago no dia 20 de dezembro do ano passado. No entanto, até este valor não consta no documento repassado como prestação de contas dos últimos quatro anos.

 

Presidente não quis se manifestar
 

Mais uma vez, o JB Litoral tentou conseguir contato com o Presidente Celso Ramos, por meio do vice-presidente, para enviar questionamentos sobre o assunto, dando a oportunidade de manifestação. Entretanto, o vice-presidente garantiu que repassaria o pedido e disse que, se Celso quisesse, entraria em contato. Informou, ainda, que o presidente não possui celular e não tinha autorização para passar telefone residencial, mas garantiu que o avisaria sobre o contato, mas até o fechamento desta edição não houve retorno.
 

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