Com o aumento na venda e consumo de álcool nas festas de final de ano, responsabilidade é ainda maior

por Redação JB Litoral
17/12/2019 19:55 (Última atualização: 24/02/2020)

Com a aproximação das festas de final de ano, o comércio de bebidas alcoólicas cresce em relação aos outros meses. Em alguns estabelecimentos de Paranaguáste mês, as vendas aumentam cerca de 50%. De acordo com o gerente da Distribuidora Morrinho, Gilberto Gonçalves, a bebida mais vendida é, sem dúvida, a cerveja. “É a preferida nacionalmente”, diz.

Gerente do comércio há 38 anos, ele explica que, apesar de o acréscimo nas vendas, o período ainda está longe de ser tão bom quanto era em anos anteriores. “Há uns quatro anos, a comercialização nesta época era 100% a mais do que em outros meses do ano. A venda deu uma caída porque subiu muito o valor das bebidas e estamos em crise, mas esperamos que a situação melhore”, afirma.

Ele conta ainda que, em seu estabelecimento, o melhor período para a comercialização de bebidas alcoólicas é a festa de Natal e confraternizações. “No Ano Novo a comercialização é mais fraca, porque o pessoal vai para a praia. O maior movimento é no Natal, especialmente porque ainda tem o 13º salário”, diz.

Apesar de as vendas diminuírem no Ano Novo, Gilberto explica que, para o Réveillon, a bebida mais procurada é o champanhe.

A procura maior na última semana de dezembro é pelo champanhe, mas ainda é bem menor que a cerveja em lata durante as semanas anteriores. Sempre buscamos o melhor preço, porque a concorrência está aí, e sem um preço bom, não conseguimos vender”, diz.

Evitar exagero

Esta época de final de ano, com confraternizações, réveillon, férias, verão, é um período em que muita gente aproveita para relaxar da correria do dia a dia e, então, o aumento no consumo de álcool chega a ser normal. Por esse motivo, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), umas das principais fontes no país em relação ao assunto, alerta para que as pessoas não consumam bebidas alcoólicas em excesso para que essa temporada de festas não acabe mal.

Beber socialmente é válido, mas quando se ultrapassa limites, provavelmente haverá um lembrete no dia seguinte: a famosa ressaca. Os sintomas mais comuns são dores de cabeça, boca seca, náuseas, tontura, desconforto gastrintestinal, cansaço, sonolência, irritabilidade, tremores e falta de apetite.

O presidente da CISA, Arthur Guerra de Andrade, explica que “a ressaca é o resultado da intoxicação aguda do álcool e tem início aproximadamente de 6 a 8 horas após o consumo. Pode prejudicar também a qualidade do sono, por interferir na atividade do cérebro e nos níveis de hormônios que regulam o sono e o ‘relógio biológico’”. Segundo ele, dessa maneira, os efeitos do álcool no sono poderiam explicar o cansaço e disfunção cognitiva observados no dia seguinte à ingestão.

Consumo em excesso

Dezembro é um mês de emoções e também de excessos, por isso, as festas de fim de ano acendem um alerta vermelho que deve ser levado em conta pelos cidadãos, recomenda o presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Outras Drogas (ABRAD), Psiquiatra Jorge Jaber Filho.

Ele afirma que, do ponto de vista fisiológico, o ser humano tem necessidade de algumas substâncias químicas no cérebro, que são os neurotransmissores, os quais se assemelham às moléculas das drogas, como o álcool, o tabaco, a cocaína e a maconha. Há uma tendência, na vida das pessoas, que se radicaliza nesse momento de datas festivas, de haver falta dessa substância no cérebro. Aí, a pessoa toma alguma substância, como o álcool, que é um estimulante em pequenas doses, mas que, se tomado em excesso, acaba produzindo o efeito inverso. Em vez de um estímulo ao sistema nervoso central, ela passa a ter uma inibição desse sistema, fazendo com que aumente ainda mais a depressão”, informa.

Para ele, a tendência é que o uso de álcool tenha uma elevação no Brasil. “O que nós temos visto é um aumento do custo na saúde pública da liberação do álcool para menores de 18 anos. E isso leva a um abuso cada vez mais cedo nos jovens, gerando alterações físicas e mentais muito importantes”.

Venda de bebidas para menores

Apesar de a venda ou oferta de álcool para menores de 18 anos ser um crime, de acordo com a Lei nº 13.106/2015, mais adolescentes estão tomando cerveja, uísque e afins, segundo o CISA. A primeira experiência com o álcool acontece cedo, em média, aos 12 anos de idade, de acordo com a última edição da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE).

No final do ano, as forças públicas de segurança costumam realizar operações para verificar estabelecimentos comerciais, onde possivelmente menores de idade estejam frequentando e fazendo uso de bebida alcóolica, bem como outras substâncias que causam dependência. Entretanto, a fiscalização ainda é deficiente, uma vez que os próprios comerciantes acabam por vender para os menores, que consomem a bebida no estabelecimento ou em outros locais.

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De acordo com a legislação federal, vender ou oferecer bebida alcóolica para menores de idade pode resultar em detenção de dois a quatro anos do vendedor, aplicação de multa de até R$ 10 mil ou interdição do local de venda. A lei não limita as punições aos comerciantes e, além disto, qualquer adulto, inclusive familiares ou amigos, está sujeito às sanções. As recomendações incluem, ainda, a responsabilidade dos gestores públicos, nas esferas municipal, estadual e federal, principalmente na restrição da oferta de bebidas aos adolescentes e no aumento da fiscalização da idade mínima, de 18 anos, permitida para beber.

Conselho Tutelar não atende a demanda

O conselheiro Tutelar de Paranaguá, Getúlio Rauen, afirma que a entidade não consegue atender a demanda de fiscalização de vendas de bebidas para menores. “Por conta de só trabalharem cinco conselheiros, é impossível estarmos em todos os lugares para fazer uma fiscalização que realmente funcione. Mas o CT, em parceria com os demais órgãos, entre eles a Guarda Civil Municipal e Polícia Militar, realiza um acompanhamento e orientação aos comerciantes”, diz.

Segundo ele, o Conselho Tutelar recebe muitos adolescentes em situação de drogadição, com uma das drogas sendo o álcool.

A gente encaminha essas pessoas para uma Unidade Básica de Saúde que, se assim entender, encaminha para o CAPS, onde o adolescente é acompanhado por uma equipe técnica”, explica.

Getúlio esclarece a necessidade de a população trabalhar em conjunto com o CT, denunciando os casos de oferta e venda de álcool para menores de idade. “Quando recebemos denúncias, a gente vai até o local averiguar. Por isso, é importante que a população participe e denuncie, para que o CT tome ciência e vá fazer a fiscalização, que deve ser feita, também, pela própria comunidade”, conclui.  

Álcool e trânsito

Frase clichê nas festas de final de ano, “comemorar, mas sem abusar do álcool”, principalmente para quem for dirigir, ainda é a melhor recomendação para as pessoas. Depois da Lei Seca, de 2008, o Brasil se tornou um dos 15 países que adotaram tolerância zero para beber e dirigir. No entanto, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2016, o álcool esteve relacionado a 36,7% dos acidentes de trânsito com homens e a 23% com mulheres no país. Ou seja, beber e conduzir ainda é um problema grave que se tornou corriqueiro para muitos motoristas.

Dirigir alcoolizado é a segunda maior causa de acidentes no trânsito. Durante o período de Natal no ano passado, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) abordaram mais de 150 mil pessoas nas rodovias federais, focando sua fiscalização no combate a condutas como: ultrapassagens irregulares, excesso de velocidade e direção após o consumo de álcool.

Durante a operação, a PRF registrou 1.907 autos de infração de motoristas, nas estradas do país, que estavam dirigindo após ingerir bebida alcóolica, o que corresponde a um flagrante a cada 21 testes. Para inibir essa prática, o Código de Trânsito Brasileiro ampliou a pena de detenção para quem provocar mortes conduzindo alcoolizado – de 2 a 4 anos para 5 a 8 anos de reclusão.

O JB Litoral questionou a Superintendência Municipal de Trânsito (SUMTRAN) de Paranaguá a respeito de dados de acidentes de trânsito, ocorridos no final de ano, na cidade, que estão relacionados ao consumo de bebida alcóolica. De acordo com a SUMTRAN, o órgão não coleta esses dados. “Para coibir a direção de veículos por motoristas que tenham consumido bebidas alcóolicas, são realizadas ações educativas e de conscientização, em conjunto com a Guarda Civil Municipal. Ainda no mês de dezembro, haverá uma campanha de conscientização no trânsito, voltada aos ciclistas, realizada pela GCM. Outras campanhas estão em análise e ocorrerão em parceria com a PRF e a Polícia Militar, conscientizando os motoristas sobre a utilização do cinto de segurança, a redução da velocidade e o não uso de bebidas”, informa a Superintendência Municipal de Trânsito.

Com informações de Agência Brasil, Bonde e Saúde Abril

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