Há receitas que alimentam e também contam histórias. A cambira é uma delas. Preparada com peixe salgado e defumado, ela nasceu da necessidade de conservar o pescado e, séculos depois, transformou-se em um dos maiores símbolos de Pontal do Paraná. Até o dia 31 de julho, a iguaria é a principal atração do Festival de Gastronomia Caiçara, realizado no município.

O preparo preserva técnicas transmitidas entre gerações. Após ser salgado e defumado, o peixe é cozido em panelas de barro com água e ingredientes como tomate, pimentão e banana, que ajudam a engrossar o caldo.
A origem do nome remete a essa tradição. Originalmente, o termo tupi-guarani “cambira” designava o cipó utilizado pelos pescadores para confeccionar os varais nos quais os peixes eram pendurados.
Mais do que movimentar a economia durante a baixa temporada, o Festival revela a história e a cultura de seu povo por meio da culinária e de hábitos tradicionais que ajudam a preservar a identidade do município, o mais jovem do Litoral paranaense, com apenas 30 anos de emancipação política.
Um patrimônio caiçara
Apesar de sua história recente, o município já tem um prato que representa sua identidade. A origem não tem uma data nem um registro histórico precisos, mas é considerada um costume centenário das comunidades caiçaras da região. O fato é que o preparo surgiu como uma solução para quem vivia do mar.
A técnica artesanal garantia alimento em um tempo em que não havia refrigeração. A salga, seguida da secagem e da defumação do pescado, geralmente a tainha, permitia armazená-lo por mais tempo, sem perder suas características.
A chefe de cozinha Jemima Borba, especialista em defumação de pescados no balneário de Pontal do Sul, afirmou que falar da receita é resgatar a memória de quem já se foi e de todos que construíram esse legado. “Falar da cambira é falar dos que já se foram. É falar do seu Janguito, da dona Antônia, do seu Emiliano, de toda a comunidade que nos rodeia”, afirmou.
O processo de defumação fazia parte do cotidiano das casas desde a retirada da tainha do mar. “O prato estava na mesa, reunindo o povo e as crianças. Era fonte de alimento e também uma ótima oportunidade para uma roda de conversa. Quando a tainha era retirada do mar, a gente já a colocava para defumar. Aquilo acabava reunindo realmente a família”, lembrou.
Na casa dela, o saber tradicional era mantido pela avó, que sempre reunia filhos, netos e bisnetos. “Antigamente, quem preparava a cambira era sempre a matriarca. No meu caso, sempre foi a minha avó. Como a gente não tinha muitos recursos na comunidade pesqueira, ela era a principal fonte de alimento e sustento. Falar da cambira de hoje e da de antigamente é entrar em um divisor de águas”, frisou Jemima.
Um legado para as futuras gerações
Para a comerciante do balneário Guaraguaçu e guardiã da receita centenária, Conceição Vieira Ramos Constante, o principal legado está na preservação das raízes caiçaras e na transmissão desse conhecimento às futuras gerações. Ela afirma que é importante que os mais jovens não se esqueçam da identidade da cultura caiçara.
“Nós somos um povo unido, diferenciado. Para que essa cultura nunca morra, precisamos permanecer assim, preservando nossas tradições, para que haja cada vez mais união e a coletividade permaneça”, disse.
Segundo ela, o preparo pode ser feito por qualquer pessoa, mas, para quem nasceu e vive essa tradição, “é muito valoroso”. Por isso, deixa um recado às futuras gerações: “Antes de você pensar no lucro, que você pense no amor, no que você vai deixar”, concluiu Conceição.
Festival valoriza sabores e a criatividade
Se antes o preparo garantia a sobrevivência das famílias pesqueiras, hoje também impulsiona o turismo e a economia local. A 6ª edição do Festival de Gastronomia Caiçara de Pontal do Paraná reúne 40 restaurantes participantes, nos quais chefs de cozinha criam pratos exclusivos inspirados na culinária caiçara.
O público encontra desde receitas tradicionais até releituras criativas elaboradas com ingredientes típicos da região, como frutos do mar, mandioca, banana-da-terra e taioba.
Pontal foi reconhecida como a Capital Estadual da Cambira em 2022, por meio da Lei Estadual nº 21.221. O município também tem avançado com projetos para obter o registro do prato típico como Indicação de Origem junto ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e ao Ministério da Agricultura. O reconhecimento busca proteger a tradição, valorizar os produtores locais e fortalecer a região.
Os participantes disputarão o Concurso de Gastronomia Caiçara, com premiação nas categorias Melhor Cambira Tradicional – Especialista; Melhor Cambira Tradicional – Iniciante; Melhor PF Caiçara com Cambira; Melhor Petisco Caiçara com Cambira; e Melhor Sobremesa Caiçara.
O roteiro é realizado pela Prefeitura de Pontal do Paraná e Pontal a Sua Praia, com apoio do Governo do Estado do Paraná, Viaje Paraná e Sebrae; e produção da Adetur Litoral.
O público pode conferir os restaurantes participantes e o cardápio especial de cada estabelecimento no site oficial do Festival de Gastronomia Caiçara: gastronomiacaicara.com.br.