Cambira mantém viva a identidade caiçara de Pontal do Paraná


Por Gabriela Perecin

Há receitas que alimentam e também contam histórias. A cambira é uma delas. Preparada com peixe salgado e defumado, ela nasceu da necessidade de conservar o pescado e, séculos depois, transformou-se em um dos maiores símbolos de Pontal do Paraná. Até o dia 31 de julho, a iguaria é a principal atração do Festival de Gastronomia Caiçara, realizado no município.

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Preparo centenário é utilizado para compor novas receitas durante o Festival. Foto: PMPPR/Festival de Gastronomia Caiçara

O preparo preserva técnicas transmitidas entre gerações. Após ser salgado e defumado, o peixe é cozido em panelas de barro com água e ingredientes como tomate, pimentão e banana, que ajudam a engrossar o caldo.

A origem do nome remete a essa tradição. Originalmente, o termo tupi-guarani “cambira” designava o cipó utilizado pelos pescadores para confeccionar os varais nos quais os peixes eram pendurados.

Mais do que movimentar a economia durante a baixa temporada, o Festival revela a história e a cultura de seu povo por meio da culinária e de hábitos tradicionais que ajudam a preservar a identidade do município, o mais jovem do Litoral paranaense, com apenas 30 anos de emancipação política.

Um patrimônio caiçara

Apesar de sua história recente, o município já tem um prato que representa sua identidade. A origem não tem uma data nem um registro histórico precisos, mas é considerada um costume centenário das comunidades caiçaras da região. O fato é que o preparo surgiu como uma solução para quem vivia do mar.

A chefe de cozinha, Jemima Borba, ajuda a manter viva a tradição de defumação e salga do pescado. Foto: PMPPR

A técnica artesanal garantia alimento em um tempo em que não havia refrigeração. A salga, seguida da secagem e da defumação do pescado, geralmente a tainha, permitia armazená-lo por mais tempo, sem perder suas características.

A chefe de cozinha Jemima Borba, especialista em defumação de pescados no balneário de Pontal do Sul, afirmou que falar da receita é resgatar a memória de quem já se foi e de todos que construíram esse legado. “Falar da cambira é falar dos que já se foram. É falar do seu Janguito, da dona Antônia, do seu Emiliano, de toda a comunidade que nos rodeia”, afirmou.

O processo de defumação fazia parte do cotidiano das casas desde a retirada da tainha do mar. “O prato estava na mesa, reunindo o povo e as crianças. Era fonte de alimento e também uma ótima oportunidade para uma roda de conversa. Quando a tainha era retirada do mar, a gente já a colocava para defumar. Aquilo acabava reunindo realmente a família”, lembrou.

Na casa dela, o saber tradicional era mantido pela avó, que sempre reunia filhos, netos e bisnetos. “Antigamente, quem preparava a cambira era sempre a matriarca. No meu caso, sempre foi a minha avó. Como a gente não tinha muitos recursos na comunidade pesqueira, ela era a principal fonte de alimento e sustento. Falar da cambira de hoje e da de antigamente é entrar em um divisor de águas”, frisou Jemima.

Um legado para as futuras gerações

Para a comerciante do balneário Guaraguaçu e guardiã da receita centenária, Conceição Vieira Ramos Constante, o principal legado está na preservação das raízes caiçaras e na transmissão desse conhecimento às futuras gerações. Ela afirma que é importante que os mais jovens não se esqueçam da identidade da cultura caiçara.

Conceição Vieira Ramos Constante é a guardiã da receita centenária e serve o prato em seu estabelecimento no balneário Guaraguaçu. Foto: PMPPR/Festival de Gastronomia Caiçara

“Nós somos um povo unido, diferenciado. Para que essa cultura nunca morra, precisamos permanecer assim, preservando nossas tradições, para que haja cada vez mais união e a coletividade permaneça”, disse.

Segundo ela, o preparo pode ser feito por qualquer pessoa, mas, para quem nasceu e vive essa tradição, “é muito valoroso”. Por isso, deixa um recado às futuras gerações: “Antes de você pensar no lucro, que você pense no amor, no que você vai deixar”, concluiu Conceição.

Festival valoriza sabores e a criatividade

O evento revela a história e a cultura de seu povo por meio da culinária. Foto: PMPPR/Festival de Gastronomia Caiçara

Se antes o preparo garantia a sobrevivência das famílias pesqueiras, hoje também impulsiona o turismo e a economia local. A 6ª edição do Festival de Gastronomia Caiçara de Pontal do Paraná reúne 40 restaurantes participantes, nos quais chefs de cozinha criam pratos exclusivos inspirados na culinária caiçara.

O público encontra desde receitas tradicionais até releituras criativas elaboradas com ingredientes típicos da região, como frutos do mar, mandioca, banana-da-terra e taioba.

Pontal foi reconhecida como a Capital Estadual da Cambira em 2022, por meio da Lei Estadual nº 21.221. O município também tem avançado com projetos para obter o registro do prato típico como Indicação de Origem junto ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e ao Ministério da Agricultura. O reconhecimento busca proteger a tradição, valorizar os produtores locais e fortalecer a região.

Os participantes disputarão o Concurso de Gastronomia Caiçara, com premiação nas categorias Melhor Cambira Tradicional – Especialista; Melhor Cambira Tradicional – Iniciante; Melhor PF Caiçara com Cambira; Melhor Petisco Caiçara com Cambira; e Melhor Sobremesa Caiçara.

O roteiro é realizado pela Prefeitura de Pontal do Paraná e Pontal a Sua Praia, com apoio do Governo do Estado do Paraná, Viaje Paraná e Sebrae; e produção da Adetur Litoral.

O público pode conferir os restaurantes participantes e o cardápio especial de cada estabelecimento no site oficial do Festival de Gastronomia Caiçara: gastronomiacaicara.com.br.

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