Apesar de o Governo do Estado ter confirmado os shows do Verão Maior Paraná, Matinhos vive um período de incertezas quanto às apresentações do evento. O JB Litoral teve acesso a um relatório emitido pela Defesa Civil do município, no qual considera a erosão próxima ao palco para receber as atrações e o risco das torres da estrutura já montada. No entanto, conforme as últimas informações divulgadas, na próxima sexta-feira (9) está confirmado, pelo Governo do Estado, o primeiro show da temporada, com o DJ Alok.

Na madrugada de sábado (3) para domingo (4), próximo ao palco, na Praia Brava, foi observada uma erosão que formou “paredões” de dois a seis metros de altura na areia. O cenário chamou a atenção de quem passou e passa, desde então, pelo local e coloca em discussão o risco que a estrutura de grande porte pode causar a moradores e turistas.
A ressaca marítima, caracterizada pelo avanço do mar sobre a faixa de areia, surtiu efeitos em cerca de 500 metros de extensão da orla, entre as ruas Itacolomi e Dr. José P. Rebello. Logo após verificar a situação, a Prefeitura de Matinhos, por meio da Defesa Civil Municipal, esteve no local e o Governo do Estado, através do Instituto Água e Terra (IAT), foi informado.
Uma força-tarefa foi iniciada para a recuperação emergencial da orla, com o emprego de maquinário pesado para realinhamento da faixa de areia e estabilização dos pontos críticos, menos de um mês após o fim dos reparos realizados na faixa de areia, também devido a uma ressaca que engoliu cerca de 40 metros da faixa, no mesmo trecho. Desta vez, a erosão natural causou perda de grande volume de areia na faixa de praia, o que expôs parte das estruturas de drenagem e de proteção implantadas durante a obra de engordamento, conforme o relatório.
“A Paraná Esportes também foi informada e acompanhou a vistoria, sendo a mesma orientada a providenciar com a empresa responsável pela montagem das estruturas metálicas o isolamento nas proximidades das torres”, afirmou a Defesa Civil, no relatório.
Recomendações da Defesa Civil
Ainda no documento, a Defesa Civil de Matinhos fez recomendações, tais como: manter monitoramento constante das condições meteorológicas, em parceria com o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) e a Defesa Civil Estadual, para emissão prévia de alertas à população; realizar levantamento topográfico e batimétrico periódico da orla para acompanhar as perdas de material arenoso e prevenir novos pontos de erosão.
Também foi recomendado reforçar o sistema de contenção natural e artificial; atualizar o Plano Municipal de Contingência, com protocolos específicos para ressacas, erosões e alagamentos costeiros; e ampliar campanhas educativas sobre segurança marítima e riscos costeiros, envolvendo moradores, pescadores e turistas.
A Defesa Civil ainda fez algumas solicitações ao Governo do Estado diante da magnitude do evento e limitação operacional do Município, quanto a maquinários pesados para o transporte e reposição de areia; apoio técnico especializado em engenharia costeira para avaliação dos trechos críticos; e disponibilização de areia compatível com a granulometria da utilizada no engordamento original (concluído em outubro de 2022), para recomposição emergencial da faixa de praia.
O que diz o Governo do Estado
O Governo do Estado informou que a força-tarefa está focada em minimizar os danos causados pela maré alta que atingiu Matinhos e que a programação de shows, até o momento, está mantida.
Após a ressaca de outubro de 2025, o Executivo Estadual contratou a empresa Zuli Construtora de Obras LTDA para transportar areia para a praia de Caiobá a fim de conter a erosão, trabalhos que foram realizados até o último mês de dezembro. De acordo com o Governo, o prazo contratual encerra em março de 2026, no valor de R$ 1,6 milhão.
Procurado pelo JB Litoral, o Instituto Água e Terra (IAT) ainda não confirmou se a empresa citada é a responsável por conter a erosão mais recente ou se os serviços emergenciais são feitos pelo próprio IAT.
Pesquisadores elaboram análise técnica da situação
Com o corrido nas areias em Matinhos, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) elaboram uma carta aberta, em que constará uma análise técnica da situação. O documento, quando finalizado, será encaminhado a todos os órgãos competentes e divulgados também para a imprensa para conhecimento público, segundo informou o geólogo e professor do Centro de Estudos do Mar (Cem/UFPR), Marcelo Lamour.
“A reitoria solicitou, eu tenho alunos trabalhando, duas mulheres e um homem fazendo levantamentos distintos, mas que se aplicam sobre toda aquela dinâmica que está acontecendo agora, porque também temos informações anteriores”, explicou Marcelo ao JB Litoral.
Ele também contou que acompanhou os estudos para a revitalização da orla de Matinhos desde o início e que, por diversas vezes, alertou as autoridades sobre questões que precisavam ser levadas em conta para a realização da obra.
“Lá atrás, em 2023, estávamos em 12 professores, todos com experiência ampla no litoral, de muitas áreas distintas de vários campi da universidade e a gente formulou cinco cartas. Esses documentos foram encaminhados para o Ministério Público, para os órgãos, entre eles o IAT, explicando o que estava acontecendo e os problemas que poderiam acontecer. As cartas foram simplesmente banalizadas”, relatou o professor.
Risco ao público
Para o pesquisador, é preciso verificar, diariamente, as condições de ventos, ondas, tempo e marés, 48 horas antes dos eventos, para analisar com mais precisão os riscos de fazer um show dessa magnitude no local.
Um dos shows com maior público foi do cantor Luan Santana, no ano passado, com o registro de 164 mil pessoas. Devido à grande concentração de moradores e turistas, segundo Marcelo, não se pode descartar riscos à segurança.
“A gente está falando de sedimento inconsolidado, de areia solta, não tem concreto, não tem muro. Essas pessoas vão estar a que distância desse palco? Vão colocar uma contenção e policiais para segurar todas essas pessoas? Como aquela parede está praticamente vertical, e areia a gente sabe que não se sustenta verticalmente, existe a possibilidade de haver um deslocamento, até pela vibração causada pelo excesso de pessoas”, disse Marcelo.
Obras de requalificação da orla estariam dentro da vida útil
De acordo com levantamento realizado pelo JB Litoral, em novembro de 2025, documentos fornecidos pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), a pedido da reportagem, mostram que “a vida útil de uma obra de engordamento de praia pode ser estimada pelo volume de areia colocado na obra dividido pela perda anual de sedimentos do arco praia”.
Com base nessa informação fornecida pelo IAT e o Consorcio Sambaqui, a 1ª Inspetoria de Controle Externo do TCE fez os cálculos e chegou ao que deveria ser a vida útil da engorda.
“O volume de areia de empréstimo colocado nas praias de Caiobá e Matinhos foi em torno de 3,2 milhões de m³. Ou seja, considerando o transporte residual de 216.000m3/ano, a vida útil deste engordamento seria 14,82 anos (3.200.000/216.000)”, concluiu a análise feita pelo Tribunal.
Ainda de acordo com o contrato, logo, em respeito à vida útil da engorda, o responsável por arcar com as despesas para a manutenção da faixa de areia, bem como para os reparos em decorrência dos movimentos marítimos seria o Consórcio Sambaqui, executor da obra, e não o poder público.