Esta quinta-feira (2), é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), no ano de 2007, o dia foi escolhido para levar informação à população e, com isso, reduzir a discriminação e o preconceito contra as pessoas que apresentam o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autismo é uma condição de saúde caracterizada, entre outros aspectos, por desafios em habilidades sociais, comportamentos repetitivos, fala e comunicação não-verbal. Como não é uma doença, o TEA não tem medicamentos ou tratamentos específicos, mas terapias adequadas a cada caso podem auxiliar essas pessoas a melhorar sua relação com o mundo.

A empresária Adriana Levandoski, 47 anos, casada, mãe de filhos de 27 e 21 anos, cresceu se sentindo diferente e, como relatou ao JB Litoral, tendo que copiar padrões socialmente aceitos, mas que não faziam parte do que ela sentia, do que ela era. Foi apenas no fim do ano passado que, ao acompanhar os testes do filho mais novo, os quais apontaram para Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e indícios de superdotação, que ela sentiu curiosidade pelo tema e também fez o teste.
“Quando veio o resultado, em dezembro do ano passado, levei um choque: apontava para TDAH, ansiedade em um grau elevado e autismo. Levei para o psiquiatra e ele receitou óleo de canabidiol (CBD) para o TDAH e a ansiedade, mas me pediu para fazer novos testes, com outra neuropsicóloga, voltados especificamente para autismo. Foi o que eu fiz e, no dia 20 de janeiro deste ano, recebi o resultado”, contou Adriana.
Os novos testes confirmaram o TEA, provocando um misto de tristeza e incredulidade na empresária.
“Deu positivo. Eu já tinha chorado e me assustado bastante com o primeiro laudo, porque eu tenho um tio autista nível três, então era uma coisa que eu nunca imaginei ter, nunca passou pela minha cabeça ser autista. Mas as peças foram se encaixando, porque eu nunca fui uma pessoa ‘normal’, nunca tive filtro, cometia bastante ‘sincericídio’. Também nunca consegui manter amizades, tinha bastante dificuldade em me relacionar, em me expressar. Às vezes eu tinha umas explosões de raiva e não conseguia me controlar e não entendia o porquê, além de sempre gostar bastante de ficar isolada”, detalhou em conversa com o JB Litoral.
“Eu tinha uma tendência natural de imitar comportamentos, a ter as mesmas falas”, completou Adriana ao se referir ao chamado masking, ou “camuflagem social”, uma prática em que pessoas autistas, principalmente mulheres, escondem seus sinais de autismo leve para se ajustarem às expectativas sociais. Elas aprendem a imitar comportamentos considerados “normais”, como fazer contato visual e responder com sorrisos em situações sociais.
“Os surtos do autista nível 1 é dentro de casa, quando chegamos em casa e conseguimos liberar toda a tensão, toda a sobrecarga que sofremos ao longo do dia. O que vemos, hoje, nas redes sociais é uma romantização do autismo, principalmente no nível 1 de suporte, no qual temos a nossa capacidade de fala e inteligência preservadas. Mas o autismo não é romântico, é dolorido e anda de mãos dadas com prejuízos de todos os tipos”, defendeu.
A vida em home office x falta emprego para autistas
Mais popular no Brasil com a pandemia de Covid-19 (2020-2022), o modo de trabalho em home office já era a única alternativa possível para Adriana, antes mesmo de o coronavírus chegar ao Brasil.
“Sou formada em Direito, uma área de que gosto muito, mas não me sinto apta a advogar devido às minhas restrições de interação social. Então, assumi o departamento financeiro da empresa que tenho com o meu marido, mas faz mais de um ano que eu não vou ao escritório. Só converso com os funcionários remotamente, apenas a interação indispensável. E não é porque eu não quero, é porque realmente eu não consigo, já era assim bem antes da pandemia e, até para concluir a minha faculdade, teve que ser no meu tempo, com trancamentos de semestre e retomadas”, relatou.
Antes de assumir a função na empresa da família, Adriana fez outras tentativas profissionais, mas todas tiveram o mesmo desfecho.
“Eu nunca consegui trabalhar para outras pessoas porque eu não sei me comportar como uma pessoa normal, as pessoas acabam invalidando e se afastando. Então, eu nunca consegui ficar por muito tempo em local nenhum. Também tenho disfunção executiva. Por isso, eu tenho a tendência a não procrastinar as minhas coisas porque eu sei que pode acontecer a disfunção executiva de uma hora para outra, que me incapacita por um tempo”, revelou a empresária.
A disfunção executiva é uma característica do TEA, que apresenta comprometimento – déficits – em funções executivas, conhecida como as habilidades cognitivas de controle, planejamento e ações.
Essa característica está presente em algumas pessoas com TEA, porém também faz parte do diagnóstico do TDAH, e atinge crianças, adolescentes e adultos. A disfunção executiva pode prejudicar na fase escolar, principalmente quando a família não se atenta ao diagnóstico, resultando em estereótipos que não contribuem para o desenvolvimento da criança ou do adolescente, taxado como preguiçoso, desatento e bagunceiro.
“Se não existisse a empresa do meu marido, na qual eu pudesse exercer uma função, eu teria muita dificuldade de encontrar um emprego porque não há acolhimento nessas questões, as pessoas, as empresas geralmente não compreendem”, afirmou.
De acordo com o censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 2,4 milhões de pessoas no país que declararam ter diagnóstico de TEA, das quais 133 mil no Paraná. Cerca de 85% dos profissionais com autismo permanecem fora do mercado de trabalho.
Adaptação à vida pós-diagnóstico
O laudo final, do médico psiquiatra, chegou há menos de 40 dias, em 26 de fevereiro. Desde então, Adriana revela que ainda está tentando entender a nova realidade.
“O desafio agora é conseguir me adaptar, sabendo quem eu sou, o que eu sou e tentar adaptar o meu meio. No caso com luzes, usar óculos escuros; com sons, dispor de abafadores, protetores auriculares. O próprio cordão, com as pecinhas coloridas que identifica os autistas, para mim é um meio de comunicar para as pessoas que eu não sou igual a elas, é um modo de me proteger. Estou tentando me adaptar”, detalhou a empresária.
“Graças a Deus, tenho uma condição que me permite trabalhar de casa, ter um local onde eu possa me isolar, de passar pelos meus momentos, de fazer terapia. Infelizmente, a maioria dos autistas não dispõe de acolhimento, de empatia, algo tão fundamental para a nossa qualidade de vida. Eu desejo, que a informação seja disseminada e que a sociedade evolua para, cada vez mais, dar oportunidades a todos”, finalizou Adriana Levandoski.
Segundo o Mapa Autismo Brasil, levantamento realizado por pesquisadores do Instituto Steinkopf e Universidade de Brasília, mulheres com TEA possuem mais dificuldades do que os homens para chegar ao diagnóstico. O estudo revelou que um terço das mulheres recebeu o diagnóstico após os 20 anos de idade, o que caracteriza a identificação tardia do transtorno.
Em contrapartida, apenas 9% dos homens receberam o diagnóstico na mesma faixa de idade. Já a forma precoce (entre 0 e 4 anos) ocorre em 61,6% entre os meninos, e apenas em 37,2% das meninas.
Para a professora e pesquisadora Christine da Silva Schröeder, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre as causas que explicam essa desigualdade de gênero no diagnóstico estão os estereótipos preconcebidos por profissionais da saúde e das próprias famílias, no sentido de interpretar as meninas como mais obedientes e quietinhas.
Os efeitos do diagnóstico tardio nas mulheres são graves e irão aparecer principalmente nas relações interpessoais, afetando as oportunidades de trabalho e carreira e nas relações pessoais, afirmou a pesquisadora em entrevista à revista Exame, revelando o efeito da desigualdade de gênero no diagnóstico.