Toda pessoa que já exagerou na dose, ou fez aquela mistura que não devia, sabe que, no dia seguinte, ela vem. Certeira e implacável, a ressaca é a grande responsável pelas promessas não cumpridas de “nunca mais vou beber”. Mas a ressaca não é apenas o mal-estar pós-bebedeira. Ela também designa o fenômeno natural em que a maré se eleva além do normal e as ondas atingem nossa costa com força.
Esse tipo de ressaca é provocado por uma combinação de fatores, como ventos intensos — muitas vezes associados a frentes frias ou ciclones extratropicais — e a influência da lua cheia ou da lua nova, que intensificam as marés.
O que já aprendemos na escola, ou simplesmente na vida de caiçara, porém, parece ter sido ignorado no projeto que custou muitos milhões de reais aos cofres públicos.
A tão desejada e festejada requalificação da Orla de Matinhos sofreu seu maior prejuízo justamente por causa de um fenômeno que existe desde sempre, e em um prazo bem menor do que o “previsto”. A obra, que custou mais de R$ 350 milhões e levou quatro anos para ser finalizada, teve na engorda da faixa de areia uma de suas primeiras etapas: R$ 120 milhões aplicados até o final de outubro de 2022. Ficou uma maravilha! Uma faixa com 100 metros, espaço amplo para lagartear ao sol, receber mais turistas e sediar os shows de verão que tanto impulsionam a economia regional.
Mas o que era bom durou pouco — muito pouco. O TCE pediu que o IAT e o Consórcio Sambaqui alterassem o contrato para incluir o tempo de vida útil da engorda e as responsabilidades do consórcio justamente nesse período pós-obras.
De forma nebulosa, quase dois anos após essa determinação e sem que ela tivesse sido plenamente acatada, o TCE-PR deu o processo por encerrado e “engoliu” os dados apresentados por ambos. O próprio Tribunal calculou a vida útil da engorda com base nas informações fornecidas pelo Governo e pelo consórcio vencedor da licitação, chegando ao tempo que a faixa de areia deveria durar: quase 15 anos.
E eis que, no mês em que a engorda completou três anos, portanto, cinco vezes menos do que o previsto, a faixa de areia na Praia Brava voltou a ter praticamente o mesmo tamanho de antes da intervenção.
Órgãos se esquivando das respostas, empurrando tudo para dezembro, mês em que ninguém vai ficar correndo atrás de problemas. Afinal, é o início do verão, há shows, turistas e veranistas chegando aos milhares. Logo começa 2026. E os problemas? Esses ficam para a próxima gestão, tomando o caminho do esquecimento público.
Fato é que, em apenas três anos, vivemos na pele o clássico do cinema E o Vento Levou…. Só que, na nossa versão, a ressaca natural levou a areia de R$ 120 milhões. E assistimos, incrédulos, o IAT gastar mais R$ 1,6 milhão para tentar recolocar areia com escavadeiras, no mesmo ponto onde uma draga passou meses injetando material extraído de uma jazida em alto-mar.
Com isso, nos resta a outra ressaca, a moral.