Em 2024, o Paraná registrou o maior número de feminicídios dos últimos nove anos: 109 mulheres foram assassinadas por seus parceiros, de acordo com o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). O feminicídio foi reconhecido pelo Código Penal Brasileiro em 2015 como uma qualificadora do crime de homicídio, quando a vítima é mulher e a violência ocorre em razão do gênero.
No entanto, mesmo após dez anos da promulgação da lei, a punição dos culpados ainda está longe de ser uma garantia. A sensação de impunidade recai sobre as famílias das vítimas, que, além da dor do luto, precisam reunir forças para lutar pelo mínimo: justiça.

Esse é o caso de Jociane Soares, mãe de Fernanda Melani Soares Medeiros, uma jovem de 21 anos brutalmente assassinada pelo próprio namorado. Em meio ao sofrimento, a mãe da vítima não esconde sua indignação:
“Eu me revolto, porque estou pagando por ter feito o certo. Se eu não tivesse ligado pela segunda vez para a polícia, a população, que já se reunia ao redor da casa deles, teria feito algo pela minha filha”.
CINCO MESES NA PRISÃO
O crime ocorreu em Matinhos, no litoral paranaense. Alexandre Luiz Pereira Leite, então com 25 anos, foi preso em 25 de julho de 2024, no mesmo dia em que o corpo de Fernanda foi encontrado. No entanto, permaneceu atrás das grades por apenas cinco meses e 22 dias. Em janeiro de 2025, recebeu a liberdade.
“Saiu sem tornozeleira, sem nada. Você acha que ele vai voltar para ser preso?”, questiona Jociane, inconformada.
A decisão foi do juiz Ricardo José Lopes, alegando quebra de proporcionalidade e razoabilidade na duração da prisão. O Ministério Público do Paraná (MP-PR) recorreu, a prisão foi negada novamente, mas, no dia 10 de março, o mesmo juiz decidiu que Alexandre deve ser submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri da Comarca de Matinhos. A data do júri ainda não foi marcada.
CORAÇÃO DE MÃE SENTE
No dia 25 de julho do ano passado, Jociane estranhou que a filha não mandou mensagem no seu celular. “Ela sempre mandava mensagem quando saía para trabalhar. Então comecei a estranhar”, explica.
Com o coração angustiado, decidiu passar no lugar onde a filha trabalhava. “Quando cheguei na padaria e a colega da minha filha perguntou por qual motivo ela tinha faltado, eu já gelei”, complementa.
Jociane, até então, não tinha motivos para desconfiar do namorado da filha. O casal estava junto há mais de um ano e, apesar de ela e do avô da garota serem contra o relacionamento e de Alexandre ser bastante ciumento, a convivência entre eles era tranquila.
No entanto, foi quando chegou na casa de Fernanda que o genro virou suspeito. “Ele estava lá. Eu perguntei da minha filha e ele disse que ela tinha ido trabalhar. Eu disse que ela não tinha ido, porque a bicicleta dela estava ali. Depois ele disse que ela tinha saído. Mas eu vi uns sacos pretos perto do armário da Fernanda e achei estranho. Minha filha era muito organizada”, explica Jociane.
Cada vez mais desconfiada da conduta de Alexandre, a mãe de Fernanda foi para os fundos do terreno. Lá, viu uma espécie de espuma com sangue. “Nesta hora eu liguei para a polícia, porém eles falaram que ela era de maior e que eu deveria esperar 24 horas para registrar o desaparecimento”, conta.
Mas o coração de mãe pressentiu e Jociane não ficou em paz. Ela chamou a mãe e mais um vizinho para não ficar sozinha com o genro e, num descuido dele, o empurrou e entrou dentro da casa. Lá, encontrou um cobertor completamente ensanguentado. “Quando eu vi aquela quantidade de sangue, eu sabia que viva ela não estaria mais”, lamenta a mãe.
Em seguida, começou a procurar a arma do crime. Encontrou uma faca jogada embaixo do fogão. Não havia mais dúvidas, então ligou mais uma vez para a polícia.
“Eu digo para você que me arrependo de ter chamado a polícia pela segunda vez. Ele destruiu a vida da minha filha, que era o amor da minha vida, ele destruiu a minha vida, a vida do meu pai, de tanta gente que a amava, e agora ele está solto”, reclama a mãe de Fernanda.
NÃO QUERIA O FIM DO RELACIONAMENTO
Jociane não entende o que levou Alexandre a cometer o crime. “O que eu sei é o que uma amiga dela contou no depoimento. Ela disse que a Fernanda descobriu uma traição e, por isso, queria o fim do relacionamento”, conta.
DIA DO CRIME
Antes de Alexandre matar Fernanda, na noite do dia 24 de julho, o casal esteve na casa de amigos. “Eu era tão próxima da minha filha que tinha acesso aos e-mails dela. Pelo Google Maps, soube que ela chegou em casa 21h26”, conta a mãe.
Para Jociane, a filha foi morta entre o horário que chegou em casa e 22h45, quando Alexandre mandou uma mensagem para a mãe dele e para a namorada, que já estava sem vida. “O que me tortura é não saber o que ocorreu entre eles ao chegarem em casa e ele decidir matar a minha filha. Por qual motivo ele fez isto? Por que ele simplesmente não foi embora?”, explica.
Fernanda foi espancada e, logo depois, levou 18 facadas. “A minha filha tinha um hematoma enorme na testa. O rosto dela até parecia ser quadrado. Ela não teve chance de se defender”, explica. Jociane também fala da frieza de Alexandre. “No depoimento ao delegado ele diz que foi até a cozinha e pegou uma faca. Ele pensou em fazer isso. Não foi de cabeça quente”, comenta.
Outro detalhe também mostra a perversidade do jovem. “Ele matou a minha filha, abriu a tela, arrastou o corpo até a valeta, voltou para casa, jantou e foi dormir. Um policial disse que tinha prato de comida lá, ou seja, ele matou a minha filha e ainda foi jantar”, lamenta.
O corpo de Fernanda Melani foi encontrado dentro de uma valeta, nos fundos do quintal da casa onde ela e o namorado moravam, no balneário Saint Etienne, em Matinhos.
O MEDO QUE FICA
Após a morte da filha, Jociane viu o mundo parar. “Eu precisei pedir demissão, porque não tinha condições psicológicas para continuar trabalhando”, comenta. Além disso, ela abandonou a faculdade de enfermagem. “E se chegasse alguém igual a minha filha? Espancada? Eu não conseguia nem mais ver sangue”, conta.
Jociane toma remédios e faz tratamento psiquiátrico e psicológico. “Eu tenho que pagar tudo do meu bolso. Já não tenho mais trabalho e ainda tenho estes custos. Além de pagar a advogada”, explica.
Até para fazer um protesto pedindo por justiça Jociane tem dificuldade. “Eu não tenho dinheiro agora para fazer o protesto. Você não tem ideia de como é difícil ser ouvida. Se fosse com a família de alguém importante, talvez ele não estivesse solto. Mas é com uma família humilde, então é isso que acontece”, chora.
FAMÍLIA ABALADA
Os irmãos de Fernanda, apesar de crianças, também ficaram abalados. “Outro dia, falaram para meu filho de 11 anos que logo ele poderia começar a namorar. Ele disse que não quer saber de namorar, porque olha o que tinham feito com a irmã dele”, conta.
Há também o medo de sair pela cidade sabendo que o assassino da filha está solto. “Eu não tenho coragem de mandar meu filho sozinho para a escola. Eu não sei se o Alexandre não tem vontade de se vingar da gente, de fazer algo porque estamos pedindo justiça”, comenta.