Jovem que matou namorado PM fala ao JB Litoral: “Se eu não tivesse me defendido, estaria morta”


Por Maisy Pires

Após passar três meses presa, Giovanna Volcov, de 29 anos, acusada da morte do policial militar Marcos Aurélio dos Santos, dentro da casa dela, em Paranaguá, recebeu a liberdade provisória na última quarta-feira (19). Com isso, nesta sexta-feira (21), ela rompeu o silêncio e expôs o drama que viveu em um relacionamento abusivo.

Giovana mata PM
Giovanna atirou contra Marcos dentro do quarto dela. (Foto: JB Litoral/reprodução)

Giovanna e seus advogados receberam a equipe do JB Litoral em sua casa, onde aconteceu o crime, no dia 23 de dezembro de 2024. Durante a entrevista, ela confessou ter atirado contra o policial, alegando que sofria um relacionamento abusivo e que foi estuprada na noite do ocorrido. Além disso, seu advogado, Felipe Strapasson, disse que a jovem agiu em legítima defesa e foi vítima de anos de violência psicológica e física.

Os meses na prisão

“Aquilo lá é um inferno, nem para o meu pior inimigo eu desejaria. Quando fui presa, fui muito maltratada pelos policiais da penitenciária e por todos no local. Ninguém quis me ouvir, ninguém perguntou o que realmente aconteceu. Assim que cheguei à unidade prisional, me disseram: ‘Se te matarem, o problema é seu’”, relata.

Ela descreveu as condições desumanas na cadeia. “A comida, muitas vezes, estava estragada, não havia remédios, e o ambiente era opressor. Por eu não ter antecedentes criminais, sofri ainda mais com a hostilidade das outras detentas. Passei por momentos muito difíceis ali dentro.”

O dia do crime

No dia 23 de dezembro de 2024, Giovanna afirma que pediu para Marcos não ir até sua casa, pois era aniversário de sua mãe e ela queria evitar conflitos. “Sempre que ele vinha alcoolizado, acontecia alguma briga, uma discussão, um incômodo para minha mãe e para o meu filho”, conta.

No entanto, o policial não respeitou sua vontade. “Ele apareceu, abriu o portão, entrou à força e me empurrou. Logo depois, tirou toda a roupa e começou a me agredir verbalmente, me xingando, dizendo que eu não valia nada e que as amantes dele eram melhores do que eu.”

Ela relata ainda que foi violentada. “Como estava alcoolizado e não conseguia ereção, ele me estuprou com os dedos. A violência foi extrema. Eu perdi a cabeça. Consegui me desvencilhar, peguei a arma e disparei. Ele estava acordado, olhou para mim, e eu disse: ‘Eu não aguento mais’. Durante seis anos, vivi esse relacionamento abusivo, e naquele momento, não aguentei mais.”

Anos de abuso e humilhações

Segundo Giovanna, o relacionamento com Marcos se tornou um ciclo de violência. “No início, ele era uma pessoa boa. Ele incentivava meus estudos, parecia um homem correto. Mas, com o tempo, ele foi mudando, ou melhor, revelando quem realmente era. Começou a me xingar, a ser agressivo, e todos ao nosso redor sabiam disso. Minhas amigas presenciaram, os amigos dele também. Muitas vezes, ele me humilhava publicamente.”

Ela conta que fez de tudo para tentar ajudá-lo. “Fui atrás de psicólogos, de igrejas, achando que ele poderia mudar. Mas ele só piorou. A própria mãe dele chegou a mandar uma mensagem para a minha mãe, alertando sobre quem ele era. Quando ele entrou para a polícia, ficou ainda pior. O poder subiu à cabeça, e ele se tornou um monstro.”

A defesa de Giovanna

O advogado da jovem, que acompanha o caso desde o início em conjunto com a doutora Aline Vasconcelos, reforça que ela agiu em legítima defesa. “A Giovana foi vítima de violência física e psicológica por anos. O que aconteceu naquela noite foi um reflexo de todo o sofrimento que ela passou.”

Giovanna e seus advogadas Felipe Strapasson e Aline Vasconcelos. (Foto: JB Litoral).

Segundo a defesa, há provas e testemunhos que corroboram a versão de Giovanna. “Ela chamou socorro imediatamente, procurou ajuda, demonstrou desespero. Se fosse premeditado, seu comportamento seria diferente. Ela tem um histórico de vítima, e é isso que estamos provando no processo.”

Planos para o futuro

Mãe de um menino autista não verbal, ela falou sobre o seu passado e os planos para o futuro. “Eu havia largado o curso de Direito para estudar Psicologia e entender melhor o transtorno do meu filho. Trabalhava em uma escola com crianças e estava tentando construir uma vida tranquila. Agora, quero retomar meus estudos e ajudar outras mulheres que passaram pelo que eu passei.”

Apesar do trauma, afirma que não tinha outra escolha. “Muitas mulheres passam por isso, mas nem todas têm a chance de se defender. Se eu não tivesse usado a arma dele, provavelmente hoje eu não estaria aqui para contar minha história”, completou.

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