Conselho Regional de Medicina denuncia parlamentar de Matinhos e pede investigação por quebra de decoro


Por Flávia Barros
Mesa diretora da Câmara de Matinhos informou que denúncia será apreciada pelo departamento jurídico da Casa de Leis
Mesa diretora da Câmara de Matinhos informou que denúncia será apreciada pelo departamento jurídico da Casa de Leis

O Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) denunciou a vereadora Hirman Ramos Eiglmeier Ferreira (PODE), a Hirman da Saúde, devido à parlamentar estar, supostamente, incitando à violência contra médicos que atuam nas unidades da rede municipal de Saúde de Matinhos. A denúncia assinada pelos conselheiros Romualdo José Ribeiro Gama (presidente do CRM-PR) e Fernando Fabiano Castellano, presidente da Comissão de Prevenção à Violência contra o Médico da entidade, foi formalizada na Casa de Leis da cidade por meio de um ofício.

O documento foi lido pelo vereador Sandro Moacir Braga (PSD), o Sandro do Gás, durante a sessão ordinária do último dia 28 e seguiu para análise e parecer jurídico da Câmara.

A DENÚNCIA

De acordo com o ofício, a vereadora Hirman da Saúde estaria cometendo abuso de autoridade e agindo em desacordo com o decoro parlamentar. A autarquia federal de fiscalização do exercício da Medicina, regional Paraná, afirma que recebeu denúncias de médicos que prestam serviços públicos em Matinhos contra a vereadora.

Fato isolado que chamou a atenção da Comissão de Prevenção à Violência Contra Médico, especialmente criada para evitar tais situações. Para a surpresa desse Conselho de Medicina, este órgão se deparou com a conduta da vereadora, a qual vem perpetuando falas em público com a conduta que expõe o médico a uma situação humilhante e constrangedora no ambiente de trabalho, na UPA de Matinhos.”

O CRM-PR ainda detalha os motivos que levam a entidade a formalizar a denúncia contra a parlamentar.

Ao utilizar o seu cargo de vereador nesse município, a Sra. Hirman Ferreira infringe algumas leis, como a de improbidade administrativa, quando a conduta da vereadora utiliza o seu cargo para obter vantagem de indivíduos e coagir um profissional de saúde; abuso de autoridade, quando ela entra na sala do internamento sem autorização, pressiona o médico a realizar uma regulação de pacientes sem critérios médicos”, afirmam os representantes do Conselho.

O CRM também relata que vai solicitar reforço da segurança na UPA de Matinhos.

Ao menos nesse período, em razão de ameaças e atos de violência moral e verbal por parte dos pacientes. Fato que não ocorria antes na campanha deflagrada pela vereadora. O CRM Paraná entende que o cargo de vereador exige responsabilidade, não podendo ser utilizado para incitar esse tipo de violência. Ainda mais numa UPA como a de Matinhos, com a intensidade de atendimento e que certamente piora a prestação do serviço lá oferecido. A conduta da vereadora está expondo risco aos médicos que laboram na UPA e, ao invés de melhorias, coloca em xeque o atendimento, prejudicando profissionais e pacientes”, defende a autarquia.

DEFESA DA VEREADORA

Após a leitura da denúncia, Hirman fez uso da palavra, em que contestou as alegações do CRM e disse que representa a população, cumprindo seu papel de fiscalizar.

Vereadora Hirman da Saúde respondeu durante a mesma sessão que não vai deixar de fiscalizar os serviços prestados à população

Inúmeras vezes já tentei conversar, já recorri e não sei mais o que falar para os meus eleitores. Como eu sou a Hirman da Saúde, os eleitores vêm reclamar sobre saúde. Então, estive visitando algumas unidades de saúde e verifiquei a falta de insumos, materiais como seringa, gases, algodão e até papel higiênico, desde o começo do mandato. E, mesmo que tenha sido um início complicado de gestão, eu entendo que a prioridade do Município deva ser a Saúde”, defendeu a vereadora.

A parlamentar ainda afirmou que ir às unidades de Saúde não é um ato político.

“Tenho procurado o secretário de Saúde, ultimamente, ele não tem me atendido, mas eu tenho procurado ele. Também tenho procurado a direção da UPA, que prontamente sempre me atende, conversa comigo e entende que não é questão política, que eu não sou oposição.”

Hirman da Saúde finalizou sua fala afirmando que não vai parar de fiscalizar.

Estou aqui para defender os meus eleitores, assim como toda a população de Matinhos. Me coloco à disposição de vocês sempre que for preciso. Estarei fazendo o meu papel em todos os lugares, inclusive na UPA e UBS, que é de fiscalizar”, concluiu a vereadora.

O QUE DIZ O CRM-PR

Ao contrário do que ocorreu recentemente em Paranaguá — quando o CRM-PR expôs publicamente sua insatisfação com a conduta do vereador Marcelo Correa da Costa (Republicanos), o Marcelo Peke, que fez postagens em suas redes sociais entrando na UPA da cidade e cobrando providências sobre a demora no atendimento aos pacientes —, desta vez a entidade não publicou nenhum posicionamento em seus canais oficiais e foi procurada pelo JB Litoral.

Em resposta ao pedido de informações a respeito da denúncia feita à Câmara de Matinhos, o Conselho se manifestou por meio de nota. O órgão representativo dos médicos no Estado questiona a ação de fiscalização defendida pela vereadora.

 “O CRM-PR, visando a boa prática médica, com segurança e autonomia profissional preservadas, vê com muita preocupação as frequentes notícias de ações que, sob o pretexto de fiscalização, voluntária ou involuntariamente, põem em risco não somente a integridade dos médicos, como também a tranquilidade para exercer o ato médico, em prol dos pacientes.”

Já em relação a possíveis condutas impróprias dos médicos, a entidade defende que há outros meios de denunciar.

“O Conselho reforça que, havendo eventual suspeita de ilícito ético, esta deverá ser reportada ao CRM-PR, para que as devidas providências sejam tomadas pela autarquia. De outro lado, caracterizada situação vinculada à gestão da Saúde pública, deverá o parlamentar reportar-se a ela para as soluções necessárias.”

A nota enviada à reportagem ainda rotula a atitude de fiscalizar os serviços de Saúde. “Iniciativas sensacionalistas em nada agregam e contribuem para a desconfiança nos médicos e na Medicina, bem como constituem instrumentos a fomentar a violência, prejudicando a sociedade como um todo”, conclui o CRM-PR.

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