Vereador de Pontal do Paraná afirma ser vítima de extorsão após ex-assessor vazar áudios de suposto esquema de rachadinha


Por Thais Skodowski
Nei da Pesca (Novo) afirma que é vítima de extorsão por ex-assessor. Foto: Diogo Monteiro/JB Litoral
Nei da Pesca (Novo) afirma que é vítima de extorsão por ex-assessor. Foto: Diogo Monteiro/JB Litoral

Na última semana, o principal tema da 11ª Sessão Ordinária da Câmara de Pontal do Paraná foram os áudios vazados pelo ex-assessor de Valdinei Vicente da Silva (Novo), o Nei da Pesca, Bruno Gonçalves Hortêncio. O material aponta para um suposto esquema de rachadinha no gabinete do parlamentar.

No plenário, Nei afirmou que há pelo menos 15 dias vem sofrendo ataques nas redes sociais, além de ser vítima de um crime.

“Na verdade, eu venho sendo extorquido há três meses”, declarou o vereador.

O que diz Nei da Pesca

Em entrevista ao JB Litoral, Nei explicou que os áudios foram retirados de contexto. Segundo ele, a gravação clandestina ocorreu em uma reunião realizada dez dias após a eleição, no escritório do parlamentar, junto a outro membro do partido. Bruno, de acordo com Nei, estava apenas presente no local, mas não era parte da reunião.

O vereador admitiu que fez um comentário “infeliz” sobre a existência de um esquema de rachadinha na Câmara.

“Eu falei sim, eu tenho 17 anos de carreira política, tenho visto coisas do arco da velha. Eu nunca fiz, nunca vi alguém fazer, mas já ouvi bastante (sobre rachadinha)”, afirmou, dizendo que estava de “cabeça quente” ao descobrir que o próprio partido havia acionado a Justiça contra ele por infidelidade partidária — quando um político desrespeita as diretrizes da legenda.

Nei afirmou, ainda, que pediu desculpas aos colegas de Casa pelo comentário, feito antes mesmo de ser diplomado.

“Agora entendo a responsabilidade que tenho. Eu não represento só a mim, represento todos os meus colegas”, disse.

Extorsão

O vereador também apresentou um novo áudio: uma mensagem de Bruno enviada a Patrícia, esposa de Avlamir Dirceo Stival, o Cuquinha, um dos investidores da campanha do parlamentar.

“Eu estou sendo bem aberto, bem franco. Eu preciso de um dinheiro. Preciso de pelo menos R$ 6.000 para poder conseguir tocar o que eu quero fazer aqui, o meu trabalho, porque fiquei sem rumo. E aí, com isso, eu não participo de processo, eu apago minhas provas”, diz uma parte do áudio gravado por Bruno.

O ex-assessor ainda citou no áudio que teria provas do suposto esquema de rachadinha e da infidelidade partidária.

“Eu tenho gravação de reunião com o Nei falando que recebeu dinheiro de outros candidatos (a prefeito), eu tenho outras provas. Você sabe que o Nei fala. Eu tenho áudio do Nei no WhatsApp falando de dividir salário, perguntando quando o dinheiro iria cair…”, diz a mensagem.

No final do áudio, Bruno deixa clara a proposta.

“O que o Nei fez não é certo, mas eu também não posso aceitar tudo, não posso ficar aí de braço cruzado. Se tiver interesse, enfim, é isso que eu tinha para falar”, finalizou.

Na Justiça

Nei afirmou que a denúncia feita por Bruno foi protocolada no Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), mas não avançou porque, segundo ele, o ex-assessor não apresentou provas suficientes.

O vereador também declarou que vai ingressar com uma ação judicial pedindo indenização por danos morais, alegando que foi vítima de uma “farsa”.

“Meu filho estava com vergonha de ir para a escola. A minha mulher com vergonha de sair de casa. Isso não se faz”,
lamentou.

O que diz o ex-assessor

Ao JB Litoral, Bruno Hortêncio confirmou que estava presente na reunião mencionada e alegou que a frase de um dos áudios vazados “Então é tudo um sistema, entendeu? Você tem que pegar as pessoas certas” foi dita pelo vereador olhando diretamente para ele.

Bruno também relatou que a gravação do encontro foi feita a pedido do próprio parlamentar, para ser usada na defesa do processo de infidelidade partidária.

Rachadinha

O ex-assessor disse, ainda, que pediu exoneração quando a cobrança pela divisão de salário se tornou insustentável.

De acordo com Bruno, após ele receber o primeiro salário proporcional ao tempo de trabalho em 17 de janeiro, Nei passou a exigir insistentemente a metade do valor e metade do cartão alimentação. Bruno, no entanto, alegou que o dinheiro recebido foi usado para cobrir dívidas pessoais. Mesmo assim, a cobrança continuou existindo.  

O ex-assessor também afirma que, após 17 de janeiro, começou a reunir provas para denunciar o vereador, seguindo – segundo afirma – orientação de advogados. Essa seria inclusive a razão do áudio enviado à esposa de Cuquinha.

“Foi algo arriscado, eu sei. Mas eu precisava de mais esta prova”, disse.

Bruno destacou que não há registros de transferências bancárias ou recibos que indiquem divisão de salários, já que, segundo ele, nunca entregou parte do pagamento ao vereador, sempre arranjando desculpas.

“Se eu fizesse, eu também estaria compactuando com o crime”, afirmou.

Ele também reforçou que a denúncia não tem motivação política, conforme afirma o parlamentar.

“Não tenho interesse político, não tenho contato com coligação. Houve um contato com um primeiro jornalista porque eu precisava tornar público, para me proteger quando a denúncia saísse, para que já houvesse uma opinião formada”, explicou.

Denúncia no Gaeco

Bruno relatou que procurou o Ministério Público do Paraná (MP-PR) em Curitiba, sendo orientado a buscar o Gaeco em Paranaguá, onde prestou depoimento e entregou provas. Além disso, apresentou e-mails mostrando que a denúncia teria sido encaminhada à 2ª Promotoria de Justiça de Pontal do Paraná.

O JB Litoral entrou em contato com o MP-PR, que informou que “fizemos uma busca e não encontramos nada, mas as buscas não abrangem procedimentos sigilosos”.

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