Caminhoneiros “presos” no Pátio de Triagem de Paranaguá enfrentam impasse sobre cargas reprovadas


Por Redação

Há mais de uma semana, cerca de 50 caminhoneiros estão retidos no Pátio de Triagem do Porto de Paranaguá após análises indicarem suposta fraude nas cargas transportadas. A empresa responsável pela carga, no entanto, afirma que o produto atende aos padrões estabelecidos pela Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec).

Desde 2024, a Portos do Paraná implementou um sistema de controle e fiscalização de cargas. Foto: Cláudio Neves/Portos do Paraná:
Desde 2024, a Portos do Paraná implementou um sistema de controle e fiscalização de cargas. Foto: Cláudio Neves/Portos do Paraná:

As cargas têm origem em Alto Araguaia, no Mato Grosso, a 1.453 quilômetros de Paranaguá, e foram destinadas ao terminal portuário para exportação. Entretanto, durante o procedimento padrão de inspeção no pátio, elas foram reprovadas por suspeita de contaminação com areia, sendo, assim, consideradas adulteradas.

Com a reprovação, os caminhões carregados permanecem estacionados no pátio, e os motoristas aguardam que a empresa responsável pelo farelo indique um local para descarte, permitindo que sigam viagem. No entanto, a empresa nega que o produto esteja fora dos padrões e não oferece uma solução, prolongando o impasse.

“Temos certeza de que as cargas atendem aos padrões de exportação, pois saíram da nossa fábrica em conformidade com o regulamento Anec 71”, declarou a empresa Queiroz Agro em nota.

A Anec 71 é um regulamento técnico da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) que estabelece padrões de qualidade para os produtos agrícolas destinados à exportação. Esse regulamento é amplamente utilizado como referência para a comercialização de grãos e derivados, como farelo de soja.

Especificamente para o farelo de soja, a tolerância de areia e sílica é geralmente de 0,5% a 1,5%, dependendo do contrato e da negociação entre as partes.

A Queiroz Agro ainda ressaltou que todos os caminhões contratados possuem rastreadores, reforçando o controle sobre o transporte, impossibilitando uma possível adulteração durante o trajeto.

1/2 Documento entregue ao motorista de caminhão indicando que o produto foi considerado adulterado, por contaminação com areia.
2/2 Um caminhão foi autorizado a fazer o descarte da carga no aterro sanitário de Paranaguá

Descarte em aterro sanitário

No último final de semana, apenas um caminhão foi autorizado a deixar o pátio para realizar o descarte do farelo de soja no aterro sanitário de Paranaguá. Os demais motoristas continuam sem previsão para sair, já que só podem deixar o local com um destino definido para as cargas consideradas adulteradas.

Polêmica

A situação reacendeu críticas à Bureau Veritas, empresa credenciada pela Associação dos Terminais do Corredor de Exportação (ATEXP) para a inspeção.

Transportadoras e exportadores questionam a falta de transparência no processo de análise.

“Com os novos procedimentos adotados, o auditor de origem da carga não pode acompanhar as reclassificações, nem ter acesso a amostras para análise independente. Isso torna os serviços da Bureau Veritas pouco confiáveis e leva exportadores a buscarem outros portos”, afirmou um representante do setor, que prefere não se identificar.

Outro ponto de discórdia é a suposta falta de respeito à Portaria 795/1993, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que estabelece uma tolerância de 0,5% de areia em cargas de farelo devido ao processo de fabricação. “A inspeção é feita visualmente. Como podem garantir que o percentual está fora da margem de tolerância?“, questionou um transportador que pediu o anonimato.

Resposta

Em resposta ao JB Litoral, a Portos do Paraná informou que possui um sistema de controle e fiscalização de cargas implementado em 2024, com o objetivo de assegurar a qualidade dos produtos movimentados. Segundo a autoridade portuária, casos suspeitos são encaminhados para as autoridades policiais e outros órgãos fiscalizadores.

Sobre o caso dos caminhoneiros, a Portos afirmou que, na quarta-feira (22), a auditoria do IDR (Instituto de Desenvolvimento Rural) identificou suspeitas de adulteração nas cargas, que foram retidas seguindo as diretrizes do MAPA e do próprio Porto. A empresa ressaltou que a responsabilidade pelas mercadorias é do exportador e do terminal, não da Autoridade Portuária.

Transparência

Quanto às reclamações sobre a transparência nas inspeções, a Portos do Paraná destacou que essa é uma atribuição da ATEXP Até o fechamento desta reportagem, a ATEXP não havia se manifestado. O JB Litoral segue à disposição para publicar a posição da empresa.

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