Pela primeira vez, mulheres são aprovadas como estivadoras em Paranaguá


Por Maisy Pires

O OGMO/Paranaguá (Órgão de Gestão de Mão de Obra) vive um momento histórico. Após mais de 30 anos sem ingresso de novos Trabalhadores Portuários Avulsos (TPAs) no sistema, o processo seletivo privado nº. 001/2024, promovido pela instituição, resultou na aprovação de 37 mulheres, com destaque para cinco estivadoras que ingressarão de imediato — uma função que, até então, era exclusivamente masculina na cidade.

NOVAS ESTIVADORAS – FOTO DIOGO MONTEIRO JB LITORAL (1)
Presidente da Estiva e diretora do OGMO/Paranaguá recepcionaram as novas estivadoras. (Foto: Diogo Monteiro/JB Litoral).

No total, o processo contou com 7.415 inscritos, sendo 870 mulheres (11,7%). Dessas, 37 foram aprovadas após o cumprimento de todas as etapas eliminatórias: prova objetiva, Teste de Aptidão Física (TAF), avaliação psicológica, comprovação de requisitos, exames médicos e treinamento.

Além das cinco estivadoras que ingressam nas vagas de imediato, temos ainda três conferentes e duas arrumadoras, as demais compõem o cadastro reserva.

Quantidade total de mulheres aprovadas por categoria:

Gabriel Vieira, diretor de Operações Portuárias da Portos do Paraná, ressaltou que a chegada dessas novas profissionais traz uma expectativa de aumento na capacidade de movimentação. “No ano passado, enfrentamos um grande desafio com a escassez de mão de obra em alguns segmentos, o que não nos impediu de bater recordes de movimentação. Mas foi exigido muito esforço de todos”, disse o diretor.

Para a diretora do OGMO/Paranaguá, Shana Bertol, a diversidade de gênero no setor portuário, historicamente dominado por homens, é uma grande conquista para a instituição. “A gente trabalhou arduamente com a Portos do Paraná e todos os sindicatos laborais para ampliar o número de trabalhadores no sistema e incluir as mulheres nesse cenário”, disse Shana.

O critério de desempate no processo seletivo foi o sexo feminino, justamente para estimular essa participação. “Hoje temos orgulho em dizer que conseguimos. As mulheres já estão integradas, com estrutura pronta para recebê-las e um programa de acolhimento ativo com os CPAs mais experientes”.

Apesar da baixa proporção de mulheres inscritas, o desempenho das aprovadas já vêm servindo como exemplo, especialmente para o público feminino do Litoral do Paraná. “Tivemos apenas 15% de inscrições femininas, um número ainda tímido, reflexo de um ambiente muito masculinizado, que assusta muitas mulheres. Mas acredito que as de fora foram mais ousadas e isso agora serve de inspiração para que, nos próximos processos, mais mulheres aqui da região participem e permaneçam no setor”, completa Shana Bertol.

“Eu quero ser estivadora”

Entre as aprovadas como estivadoras está Eduarda Garcia, que veio do Rio Grande do Sul, junto com a irmã, que também foi aprovada para o cargo, especialmente para participar do processo seletivo e já atua no porão do navio. “Teve homem que até tropeçou quando me viu. Me senti uma celebridade. Todo mundo querendo tirar foto comigo, me chamando pelo nome, fui muito bem tratada”, contou.

As irmãs Fernanda e Eduarda deixaram o Rio Grande do Sul para morar em Paranaguá e atuar no setor portuário. (Foto: Diogo Monteiro/JB Litoral).

Apesar da boa receptividade, ela destaca que também enfrentou “certos olhares”. “Claro que a gente também enfrenta olhares diferentes, comentários… Um colega até me perguntou por que eu não tentei ser conferente, porque seria ‘mais fácil’. Na hora, fiquei sem saber o que responder, pensei e disse: porque eu quero ser estivadora. É onde eu quero estar“.

Com bom humor, Eduarda reforça que o desafio não a intimida e deixa um recado para outras mulheres. “Se abrir novo processo seletivo, tentem. Estudem para a prova, treinem para o TAF. É totalmente possível estarmos dentro desse espaço“, frisou a nova estivadora.

Estiva: 122 anos de história e agora, com mulheres

O presidente do Sindicato dos Estivadores de Paranaguá e Pontal do Paraná, João Fernando da Luz, se emocionou ao falar sobre a aprovação das primeiras mulheres para a categoria. “Quando vi que a Fernanda, a Eduarda e a Juliana estavam entre as aprovadas, fui até a sala conversar com elas. Me emocionei. A Estiva tem 122 anos, sempre foi um ambiente extremamente masculino. Mas agora vejo o futuro nelas”.

Sobre o processo seletivo

O processo seletivo para TPAs contemplou quatro categorias: Estivador, Arrumador, Vigia e Conferente. Das 7.415 inscrições, 870 foram de mulheres. Ao final do processo, 759 pessoas foram aprovadas, sendo 722 homens e 37 mulheres.

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