Praticagem: a história de luta do passado justifica a valorização do presente


Por Brayan Valêncio

A praticagem é uma atividade crucial para a navegação segura em portos ao redor do mundo. Trata-se do serviço prestado por práticos, profissionais especializados que orientam a entrada e saída de embarcações em áreas portuárias. Esses especialistas têm um conhecimento aprofundado da hidrografia e das condições meteorológicas locais, permitindo que manobras complexas sejam realizadas com eficácia e segurança. No Brasil, a praticagem é regulamentada pela Lei Federal nº 12.815/2013, que define a atuação desses profissionais e garante a segurança da navegação.

Vera conta histórias do pai e o avô para demonstrar que o sucesso da praticagem tem origem familiar.
Vera conta histórias do pai e o avô para demonstrar que o sucesso da praticagem tem origem familiar.

O Porto de Paranaguá tem uma longa história de praticagem que remonta ao século 19. A presença de práticos na região é fundamental, uma vez que a entrada e saída de navios, muitas vezes de grande porte e com cargas valiosas, requer uma expertise que apenas esses profissionais podem fornecer.

Historicamente, a praticagem no Porto de Paranaguá começou a se desenvolver a partir da década de 1850, quando a região começou a ganhar importância no comércio internacional. A crescente demanda por produtos agrícolas, especialmente a soja e o milho, atraiu vários navios mercantes, aumentando a necessidade de uma navegação segura nas águas complexas do litoral paranaense. Desde então, os práticos têm se esforçado para minimizar os riscos de acidentes, como encalhes ou colisões, que poderiam causar perdas significativas tanto para os armadores quanto para a economia local.

Joaquim Tigre, o patrono da praticagem

Nos primeiros anos, os práticos eram frequentemente marinheiros experientes ou capitães de navios que conheciam as particularidades da costa da região. Mas, durante esse início dos trabalhos, um nome se destacou como alguém que colocou em evidência toda a categoria dos práticos: Joaquim Mariano Fernandes, conhecido como Joaquim Tigre, nascido em 1871, e considerado o patrono da praticagem por ser um dos maiores desbravadores, aventureiros e heróis dos mares paranaenses.

“Em 1932 um navio afundou com 155 pessoas a bordo. Os donos não mediram esforços para salvar as pessoas e nada se conseguia. Joaquim Tigre, com seus 2 metros e 13 centímetros de altura, emprestou uma lancha chamada Adelaide e tentou chegar até o local do acidente. Conta a história que o mar estava muito bravo e a dificuldade para se chegar ao naufrágio era imensa. Ele foi, com muito sacrifício, a nado até a Ilha das Peças e lá fez uma grande jangada. À noite ele conseguiu resgatar as 155 pessoas com vida. Foi um verdadeiro heroísmo”, conta Vera Telles, neta de Joaquim Tigre.

Grupos de parnanguaras fez história ao ir para o Rio de Janeiro em canoas a remo para comemorar centenário da Independência do Brasil.

O prático, que hoje também é nome de rua em Paranaguá, faleceu como consequência de uma pneumonia adquirida justamente durante o resgate das 155 pessoas do navio naufragado. “Foi muito tempo na água resgatando pessoas. Esses náufragos estavam há cinco dias sem comida. Meu avô se orientava pelas vozes porque naquela época a escuridão tomava conta e todo o resgate foi feito à noite”, detalha Vera

Joaquim Tigre também é reconhecido por ter viajado do litoral paranaense para o Rio de Janeiro em uma canoa a remo, em comemoração ao centenário da Independência do Brasil, em 1922.

O prático liderou a Canoa Paraná ao lado de outros 10 amigos. A aventura também contou com a Canoa Paranaguá, coordenada por Antônio Serafim Lopes. Ambas as embarcações mediam 9,90 metros de comprimento por 1,10 metros de boca,

Ele era um homem à frente do seu tempo. Era destemido, como todos os Fernandes. Ter viajado para o Rio de Janeiro foi um marco que até hoje é reverenciado em Paranaguá”, relembra a neta.

De geração em geração

A história da praticagem na família Fernandes não se resume apenas a Joaquim Tigre. Pai de 24 filhos, a maioria dos herdeiros do prático seguiram o mesmo caminho na navegação.

Quadro original de Joaquim Tigre; o prático, que salvou 155 pessoas de um naufrágio, posou para o único registro que está disponível hoje.

“Em 1940, com 16 anos, meu pai, Accacio Fernandes, ganhou a licença de prático auxiliar. Meu avô, destemido que era, soltou os filhos para enfrentar o mar. Meus tios também foram práticos. Ou seja, a história da minha família tem tudo a ver com o porto, com a cidade de Paranaguá”, diz Vera.

Accacio foi presidente da Praticagem no Paraná e também o responsável por melhorias que impactam até hoje a categoria, como a mudança para o Palácio do Café e a alteração na forma de recebimento dos salários. “O prático trabalhava e tudo era recebido pelo governo, para depois ser repassado. Meu pai resolveu romper esta dependência e, em um ato de coragem, comunicou ao capitão dos portos que daquele dia em diante o recebimento e pagamento seria feito pelos próprios práticos”, relembra orgulhosa a filha.

Vera ressalta que, devido à postura de seu pai, criou-se um impasse entre o capitão dos portos e a categoria, mas que durou pouco tempo. Com a definição da independência da praticagem, Accacio realizou outros grandes feitos, como aumento de tarifas; aquisição de dois comerciais em Curitiba; compra de um imóvel na rua da praia e a instituição da Medalha de Guerra para o prático.

Praticagem de hoje é um reflexo de heróis do passado

Foi graças a associações de práticos que os trabalhadores passaram a receber treinamento especializado, o que tornou os profissionais mais capacitados para atender às demandas do setor. A formalização da profissão também foi um passo importante para garantir padrões elevados de segurança e eficiência nas operações marítimas.

Ao longo dos anos, a praticagem no Porto de Paranaguá continuou a evoluir. Durante a década de 1970, a modernização e a expansão das instalações portuárias impulsionaram ainda mais o número de operações, e a atividade dos práticos se tornou indissociável do sucesso crescente dos portos de Paranaguá e Antonina. Com a adoção de tecnologias avançadas, como sistemas de radar e navegação por GPS, os práticos conseguiram otimizar suas manobras, reduzindo o tempo de atracação e melhorando a eficiência operacional.

Hoje, a praticagem no Porto de Paranaguá é realizada por profissionais que passam por rigorosos processos de formação e certificação. Esses práticos trabalham em estreita colaboração com as autoridades portuárias e as empresas de navegação para garantir que cada operação ocorra sem incidentes. A importância da praticagem é reconhecida não apenas pela redução de acidentes, mas também pela contribuição para a eficiência logística e a competitividade do porto no cenário global.

1/4 Família Fernandes fez história no Porto de Paranaguá com atuação na praticagem que passou de pai para filho.
2/4 Accácio Fernando acompanhado do Capitão dos Portos, Benedito Jordão de Andrade, no prédio do Palácio do Café, onde funcionava a praticagem na época, em 1961. Foto: Arquivo pessoal – Vera Fernandes
3/4 Funcionário da praticagem, Carlos Litzendorf (terno claro), Capitão dos Portos Benedito Jordão de Andrade, Celmiro, Accácio Fernandes e Lauro Teixeira (terno preto) durante reunião no prédio do Palácio do Café, sede da praticagem na época, em 1961.
4/4 A sede da praticagem em Paranaguá mudou ao longo dos anos, com impulso de Accacio Fernandes, que fez com que a associação ficasse no Palácio do Café. Foto: Matheus Poli/ JB Litoral

Conhecer para valorizar

E só se pode pensar em futuro quando histórias como as de Joaquim Tigre e Accacio Fernandes são conhecidas e reconhecidas por todos. “Cada onda que quebra traz à tona as vozes de meus antepassados, simbolizando a coragem, a bravura que caracterizam nossa linhagem. Essa história não é apenas sobre a marinha e os navegadores, é uma narrativa de amor, luta e superação que continua a ressoar em minha vida e na vida de todos aqueles que compreendem a importância do mar em nossa cultura”, conclui Vera Fernandes.

Joaquim, Accacio e tantos outros heróis desconhecidos da atual geração são homens que, com muito esforço, percorreram longas distâncias para que hoje toda a categoria pudesse avançar e celebrar suas conquistas.

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