Conselho Regional de Medicina reprova fiscalização de vereador em UPA de Paranaguá

“Em caso de situação administrativa cabe ao gestor responder, e não divulgar de maneira leviana nas mídias sociais”, diz conselheiro do CRM-PR


Por Flávia Barros

Na última segunda-feira (20), o vereador Marcelo Correa da Costa (Republicanos), mais conhecido como Péke Bocudo, foi mais uma vez de surpresa à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Paranaguá. A exemplo do que já fazia antes de ser eleito, o parlamentar entrou na Unidade com a finalidade de mostrar como estava sendo feito o atendimento à população. Segundo publicado em suas redes sociais, o republicano chegou à UPA às 23h30 e postou o vídeo 1h12 da madrugada de terça-feira (21).

O vídeo, de 4 minutos, mostra Péke entrando na UPA, obtendo um relatório em que constam os atendimentos realizados por cada um dos oito médicos que estavam no plantão, e entrando em um dos consultórios para falar com um deles.

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Vereador Péke Bocudo afirma que não vai parar de fiscalizar e denunciar. Foto: Reprodução

“NÃO SOU MÁQUINA”

Na breve conversa entre o vereador e um dos médicos plantonistas, o parlamentar questiona por qual motivo o profissional da Saúde só teria atendido um paciente das 19h às 21h. A resposta do médico foi: “Você quer que eu chame quantos? Não sou máquina”. Péke Bocudo termina o vídeo denunciando que, embora tenha médico que passe entre 1h20 e 1h30 para chamar um paciente, a consulta dura apenas de dois a três minutos.

Lembrando que os médicos têm o horário de intervalo deles, mas desse jeito ficam muito mais tempo de descanso do que o intervalo. Então, nós precisamos ajustar isso. A Secretaria de Saúde, a Fasp, porque quem sofre é a população que está até 4 horas esperando por atendimento”, afirma.

No vídeo, os médicos não têm os nomes divulgados, nem aparecem nas imagens.

NOTA DE REPÚDIO

Horas após a postagem do vídeo, já na tarde dessa terça (21), o Conselho Federal de Medicina do Paraná (CRM-PR) emitiu uma nota de repúdio na qual cita parlamentares de três cidades, entre elas, Paranaguá.

O CRM-PR vê com muita preocupação vereadores das cidades de Guaíra, Guarapuava e Paranaguá fomentando a violência e colocando em descrédito o atendimento efetuado por profissionais médicos. Cabe ressaltar que ações vinculadas à melhoria das condições de atendimento à população, incluindo infraestrutura, equipamentos e insumos, são urgentes e merecem o apoio de todos”, diz trecho do documento.

Já a exposição pessoal ou genérica de profissionais em abordagem inadequada em nada agrega, constituindo desestímulo à atuação em órgãos públicos e difamação individual e à Medicina como um todo. O CRM-PR considera que tais ações, como já visto em desastrosas experiências passadas, fomentam a violência contra os profissionais médicos. E reitera, portanto, que tomará todas as medidas para que haja respeito aos médicos e adequado exercício da Medicina”, finaliza a nota.

Nota foi divulgada nas redes sociais do CRM-PR nessa terça-feira (21). Foto: Reprodução

A QUEM CABE APURAR A CONDUTA DOS MÉDICOS

O JB Litoral procurou o CRM e conversou com Fernando Fabiano Castellano Junior, que é 1º secretário do CRM-PR e conselheiro da entidade. De acordo com ele, a fiscalização de algo ilícito na parte ética é feita pelo departamento de fiscalização do CRM, que acata as denúncias que devem ser feitas diretamente à entidade.

Em caso de situação administrativa cabe ao gestor, ao Município responder, e não divulgar de maneira leviana nas mídias sociais. Nós estamos firmes no combate à violência contra o profissional médico”, reforça o médico.

Castellano Junior também revela que o CRM recebeu algumas queixas dos médicos que atuam em Paranaguá e que a entidade vai pedir à Câmara Municipal que também atue na situação.

Nós tivemos queixa dessas três localidades, não foi uma, nem duas, foram várias que chegaram a este CRM e nós não estamos inertes. Estamos oficiando as câmaras municipais dessas localidades para a providências, cabendo também o desagravo. Por parte dos médicos, será capitaneado pelo Conselho Regional de Medicina e, eventualmente, a denúncia por falta de decoro parlamentar”, ressalta o conselheiro do CRM-PR, ao JB Litoral.

VISÃO DETURPADA

O representante do CRM ainda defende que vídeos como os publicados por Péke Bocudo têm gerado uma visão deturpada do trabalho dos médicos perante a população.

Entendemos que, eventualmente, os vereadores que estejam preocupados com a saúde, têm que avaliar aspectos estruturais, de insumos, que envolvam também disponibilidade para que o médico possa exercer de maneira plena as suas funções. A atitude desse vereador de Paranaguá, como de outras localidades, tem preocupado e gerado muita angústia aos médicos. Acaba colocando o médico em risco, gerando uma visão deturpada perante a população, e até situações de conflitos desnecessários, que não devem ocorrer na relação médico x paciente”, conclui o 1º secretário do CRM-PR.

“TEMOS A PRERROGATIVA DE FISCALIZAR”

A reportagem também conversou com o vereador Péke Bocudo. O parlamentar vê com naturalidade a nota de repúdio do CRM-PR.

Até acho normal eles fazerem isso daí, que é uma forma de terem uma defesa, de colocarem a posição deles sobre o ocorrido. Conforme tudo sabem, nós estamos amparados pela Constituição Federal, que o vereador pode fiscalizar onde tem dinheiro público envolvido, onde o Executivo coloca dinheiro público”, afirma Péke.

Quero deixar bem claro aqui que tem muitos doutores exemplares. Mas eu tenho a prerrogativa de fazer nossas fiscalizações. Eles não gostarem é normal, até porque, principalmente em Paranaguá, não tinha essa fiscalização, ainda mais um vereador sendo da base, fiscalizando os médicos”, completa o vereador.

Péke Bocudo finaliza defendendo que o Conselho que representa os médicos de todo o estado também reforce sua fiscalização.

Inclusive, o CRM tinha que fazer essa fiscalização interna, até porque eles têm que ter a fiscalização deles, porque alguns profissionais deixam a desejar”, acredita o parlamentar.

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