“Padre do balão”: há 17 anos, o Brasil se despedia de um sonho que voou alto demais
Você se lembra do “padre do balão”? Neste 20 de abril de 2025, completa-se 17 anos desde aquele voo fatídico. No dia 20 de abril de 2008, o padre Adelir Antônio de Carli protagonizou uma das histórias mais surpreendentes do país ao voar preso a uma cadeira sustentada por mil balões de gás hélio. A ideia surgiu com o objetivo de chamar atenção e arrecadar recursos para construir uma Casa de Acolhida para caminhoneiros.
Mas o que começou como um ato de fé e coragem terminou em tragédia. Meses depois, os restos mortais de Adelir foram encontrados no litoral do Rio de Janeiro, e entrou para a história como o “padre do balão”.
Quem era o “padre do balão”?
Nascido em 8 de fevereiro de 1967, em Pelotas (RS), Adelir teve uma trajetória de vida incomum. Na juventude, trabalhou como frentista no posto de gasolina do tio, onde conviveu diariamente com caminhoneiros, contato que mais tarde influenciaria sua missão pastoral.
Já adulto, tomou uma decisão inesperada: ingressar no seminário. Estudou em Paranaguá e foi ordenado padre em 2003. Atuou em Ampére (PR) e, no ano seguinte, foi transferido para Paranaguá, onde assumiu a recém-criada Paróquia São Cristóvão. O nome, inclusive, foi escolhido por ele, em referência ao santo padroeiro dos viajantes e motoristas.
Preocupado com as condições de vida dos caminhoneiros, muitos dos quais viviam solitários e longe de suas famílias, o padre criou a Pastoral Rodoviária, com o sonho de construir um centro de acolhimento digno para esses profissionais. A ideia era oferecer apoio espiritual, alimentação, banho e descanso aos motoristas que passassem pela cidade portuária.
O voo e a tragédia
Para dar visibilidade ao projeto e arrecadar recursos, Adelir decidiu realizar um voo inusitado: voar suspenso por mil balões de gás hélio, numa jornada que pretendia durar 20 horas e bater recordes.
Ele já havia feito um teste bem-sucedido em fevereiro de 2003, quando voou de Ampére até San Antonio, na Argentina. O sucesso da primeira experiência o animou a repetir, mas em uma escala maior.
Mesmo com previsão de chuva e tempo instável naquele 20 de abril, o padre decidiu seguir com a decolagem. Equipou-se com paraquedas, capacete, traje térmico, colete salva-vidas, alimentos, água, GPS, celular e telefone via satélite. A decolagem aconteceu por volta das 13h, em um posto de combustíveis em Paranaguá.
Vinte minutos após partir, já estava a 5.800 metros de altitude, quase o dobro do planejado. Em contato com as autoridades, relatou dificuldades com o GPS e condições climáticas desfavoráveis. Seu último contato foi registrado às 21h, quando sobrevoava a região de São Francisco do Sul (SC).
Depois disso, o padre desapareceu.
O desfecho
Foram meses de buscas, mobilização nacional e incertezas. Apenas em 4 de julho de 2008, um rebocador encontrou restos mortais no mar, próximo à cidade de Maricá (RJ). Exames de DNA, realizados com material genético do irmão, Moacir de Carli, confirmaram a identidade.
A morte de Adelir comoveu o país e repercutiu internacionalmente. O episódio foi tema de reportagens, documentários e debates sobre segurança, fé e limites do ativismo religioso.
Um sonho interrompido
O sonho do padre — a Casa de Acolhida para Caminhoneiros — nunca foi construída. Após sua morte, a Pastoral Rodoviária foi descontinuada. A Paróquia São Cristóvão seguiu com suas atividades, mas não levou adiante o projeto idealizado por Adelir.
