Paradoxo brasileiro: crescimento econômico em alta, mas desaprovação de Lula continua subindo
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
O Brasil acordou nesta quinta-feira (30) com dois retratos aparentemente contraditórios — mas que, se olhados com lupa, dizem muito sobre o atual momento político e social do país. O primeiro é otimista: o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,4% no primeiro trimestre de 2025, em comparação com o último trimestre de 2024. Em relação ao mesmo período do ano passado, a alta foi de 2,9%, com destaque para a força da agropecuária, que teve uma explosão de 12,2% graças à safra recorde de soja. Um desempenho acima das expectativas.

O segundo retrato, no entanto, acende o sinal amarelo em Brasília: a desaprovação ao governo Lula subiu mais uma vez e chegou a 53,7%, segundo pesquisa Atlas divulgada hoje. É a maior taxa desde o início do terceiro mandato do petista. O presidente, que apostava suas fichas na recuperação econômica para reverter a tendência de desgaste político, vê o eleitor continuar emburrado mesmo diante de uma economia que finalmente dá sinais de fôlego. O que está acontecendo?
O povo já não se contenta só com o básico
A resposta talvez esteja em uma mudança silenciosa, mas poderosa, no comportamento do brasileiro médio. É verdade que os programas sociais seguem fazendo diferença na vida de milhões e ninguém duvida do impacto do aumento do salário mínimo, do reajuste do Bolsa Família e da ampliação de políticas públicas que recuperam direitos básicos.
Mas também é verdade que o brasileiro está mais exigente. Ter o que é básico virou o novo normal. Agora, ele quer mais. Quer comprar, viajar, sonhar, trocar de carro, de casa. E isso tem esbarrado na realidade de um país onde o custo de vida ainda pesa no bolso e a inflação, especialmente dos alimentos, segue como fantasma presente na cozinha da maioria dos lares. O poder de compra melhorou, sim, mas não o suficiente para matar a frustração de quem sente que a vida está andando de lado.
Lula (PT), com sua habilidade política, sabe disso. E, no fundo, o eleitor também reconhece que, apesar das turbulências, ele tem entregado resultados. Mas o desejo de ascensão social ficou maior do que o medo da fome. E é aí que mora o novo desafio político do governo no poder.
O caso do Paraná: vitrine do que dá certo
Se olharmos para o Paraná, o cenário é ainda mais interessante. O estado liderou o crescimento da atividade econômica no país no primeiro trimestre: 8,5% de aumento, puxado por setores produtivos que vêm batendo recordes. A economia do Paraná está em modo turbo. A indústria avança, a agricultura quebra recordes safra atrás de safra e o consumo interno reage.
Mesmo assim, a popularidade do Governo Federal por aqui não acompanha esse embalo. O paranaense reconhece os avanços, mas cobra mais. Cobra segurança, menos burocracia, investimentos em infraestrutura. E cobra, principalmente, uma narrativa de futuro. Uma sensação de que o Brasil está andando pra frente, não só nos indicadores, mas na vida real.
Diferentemente de Lula, quem nada de braçada na aprovação popular é o governador Ratinho Junior (PSD). Com uma gestão que colhe os frutos de uma máquina estadual eficiente, aliada ao bom momento da economia paranaense, Ratinho mantém índices de aprovação que fazem inveja a qualquer político nacional. É visto como um gestor que entrega, principalmente no que diz respeito a infraestrutura, atração de investimentos e estabilidade fiscal. Enquanto Lula enfrenta o desafio de transformar crescimento em sentimento de progresso, Ratinho já consolidou essa percepção: o paranaense sente que o estado está andando pra frente, e isso se traduz em apoio.
Lula caminha para a reeleição, mas precisa ajustar o compasso
É aqui que entra o componente mais político dessa equação. Sim, Lula tem motivos concretos para sonhar com a reeleição em 2026. A economia voltou a crescer, os programas sociais estão rodando, o desemprego está em baixa histórica e há, no Congresso, uma base razoavelmente estável, embora cheia de nuances e traições eventuais.
Mas o presidente precisa reencantar. Precisa mostrar ao eleitor que, além de garantir direitos, também pode ser o líder que conduz o país ao crescimento individual de cada um. Aquele que destrava a vida das pessoas, que ajuda o pequeno empreendedor, que faz o crédito chegar na ponta, que combate a inflação com firmeza, e que constrói um Brasil onde subir de vida seja mais do que um sonho de quem nasceu longe do privilégio.
Porque no fim do dia, é isso que está em jogo. Não basta o Brasil crescer no papel. O brasileiro quer crescer junto. E quer sentir isso na feira, no fim do mês, na hora de fazer um plano para daqui a dois anos.
O presidente tem estofo político, currículo e capital social pra ajustar esse compasso. Se fizer, ninguém vai poder dizer que não merece continuar. Já Ratinho, tem uma grande caminhada pela frente, mas por enquanto o currículo parece assegurar um futuro promissor, quem sabe amanhã ocupando exatamente a cadeira que hoje é de Lula.
