Farra com o dinheiro público no Litoral: dois escândalos, uma mesma vergonha
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
O que está acontecendo nas Câmaras de Vereadores do Litoral do Paraná não é coincidência, é padrão. Em Matinhos, vereadores que mal começaram o mandato querem enfiar no orçamento um auxílio-alimentação de R$ 1,4 mil por mês pra si mesmos. Em Pontal do Paraná, a Polícia Civil investiga a farra das diárias, com direito a certificado falso, empresa suspeita e R$ 42 mil torrados em “cursos” em 2025 – isso se levarmos em conta os gastos apenas dos vereadores. São dois escândalos diferentes, mas movidos pelo mesmo motor: o costume de tratar a máquina pública como se fosse extensão do próprio bolso.

Nos dois casos, o que se vê é a total desconexão entre o que os políticos acham que merecem e o que a população realmente vive. Gente que ganha salário alto, trabalha pouco e ainda acha que está arrasando.
Auxílio-gourmet em Matinhos
A Câmara de Matinhos mal completou seis meses de mandato e já prepara um reajuste generoso para si mesma. O Projeto de Lei, apresentado pelo líder do governo, Sandro do Gás (PSD), cria um auxílio-alimentação de R$ 1.420,20 mensais para vereadores, assessores e servidores efetivos, sem nenhum critério socioeconômico, sem distinção de cargo, sem vergonha na cara. E pior, os trabalhos lá ocorrem das 12h às 18h, ou seja, eles precisam dessa verba extra trabalhando meio expediente por dia.
O valor será pago inclusive no 13º salário e representará mais de R$ 2 milhões até 2027, só de dinheiro público saindo do cofre da Câmara para bancar comida de quem já recebe bem. A cereja do bolo: hoje apenas servidores efetivos têm direito ao auxílio. Mas, se a proposta passar, os próprios vereadores passam a se beneficiar. Eles basicamente vão aprovar o próprio vale-refeição, com dinheiro seu, claro.
O impacto é tão absurdo quanto o momento em que ocorre. O prefeito Eduardo Dalmora (PL) vive reclamando de dificuldades financeiras, mas os aliados na Câmara não perdem tempo: já garantem o cafezinho gourmet no contracheque. Tudo isso numa cidade com problemas crônicos de infraestrutura, saúde e emprego.
A população, por sorte, não está calada. Uma manifestação foi convocada para a sessão desta segunda-feira (7), dia em que o projeto será lido no plenário. E precisa ser só o começo. O povo precisa ocupar, vigiar, cobrar e anotar o nome de cada vereador que votar a favor dessa indecência.
Diária fácil em Pontal
Se em Matinhos o escândalo é o que está por vir, em Pontal o problema já chegou à polícia. A vereadora Rosiane Rosa Borges (MDB), a Nega, é investigada por fraude no uso de diárias. Ela teria recebido dinheiro público para participar de cursos que não frequentou, usando certificado emitido por uma empresa ligada a um ex-vereador de outra cidade, suspeita de vender documentos falsos.
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Nega embolsou R$ 5,4 mil em duas viagens para cursos sobre improbidade administrativa e fiscalização. Ironia pouca é bobagem. Mas ela não foi a única: nove dos 11 vereadores de Pontal usaram diárias para “aprimoramento legislativo”, totalizando mais de R$ 42 mil em gastos só este ano. Em meio a uma crise generalizada na prestação de serviços à população, os parlamentares encontraram tempo e recursos para se capacitar em hotéis da capital e de Florianópolis.
O problema é que não há controle sobre esses cursos. Muitos são promovidos por empresas privadas, sem divulgação de conteúdo, sem lista pública de presença, sem nenhum resultado prático para a população. E ainda assim o dinheiro escorre fácil. A “indústria do certificado” virou escudo para quem quer viajar, passear e voltar com um papel na mão e alguns milhares a mais na conta. E detalhe, no Portal da Transparência nem precisa protocolar os certificados porque na aba “anexos” adivinha o que ocorre? Está vazio.
O mesmo filme, em dois municípios
Matinhos e Pontal do Paraná estão separados por uma pequena demarcação e unidos por um velho roteiro: políticos que esquecem do povo no minuto em que sentam na cadeira. A lógica é a mesma: primeiro, garante-se o privilégio. Depois, se sobrar tempo e dinheiro, talvez se faça alguma coisa pela cidade.
Não é coincidência. É cultura política. É um modelo de gestão pública baseado no benefício próprio, na vantagem pessoal, na impunidade institucionalizada. Vereador que cria o próprio auxílio ou que viaja com diária fácil sabe que dificilmente será punido. E conta com o silêncio da população, a desinformação e a baixa fiscalização para seguir fazendo.
Mas esse modelo está com os dias contados. A internet encurtou a distância entre o plenário e a rua. A indignação viraliza. O protesto se organiza. E se o povo ocupar o espaço que é seu por direito, a farra acaba.
Não dá mais pra aceitar vereador que se comporta como consumidor de luxo no orçamento público. Nem auxílio gourmet, nem diária disfarçada de curso. O povo do Litoral está cansado de promessas e precisa de ação e isso começa com uma cobrança clara: quem está na política, que trabalhe pelo povo. E não por si mesmo.
