Com jogada estratégica, Sergio Moro e Cristina Graeml racham a direita no Paraná e acendem alerta no Palácio Iguaçu
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
A filiação da jornalista Cristina Graeml ao União Brasil, oficializada nesta sexta-feira (26), é mais do que um ato partidário: é um movimento estratégico de peso que redesenha o mapa político da direita no Paraná. Por trás da assinatura está a mão do senador Sergio Moro, agora presidente estadual do União Brasil e, mais do que nunca, uma das figuras centrais na disputa pelo futuro do Estado.

Assumindo recentemente o comando da legenda no Paraná após rusgas com o ex-presidente Felipe Francischini, o ex-juiz já mostra que não está para compor ou apenas manter a sigla no jogo: quer liderar. E faz isso com uma cartada de mestre ao trazer para perto Cristina Graeml, jornalista que virou fenômeno eleitoral nas eleições municipais de 2024 em Curitiba, quando chegou ao segundo turno e obteve mais de 390 mil votos, tornando-se a mulher mais votada da história da capital.
Graeml surge como uma representante legítima do campo conservador, especialmente entre os eleitores de perfil mais bolsonarista. Sua imagem é associada a pautas de direita clássica: segurança, família, liberdade individual, crítica ao ativismo judicial e combate ao que chama de “máquina estatal inchada”. Sua entrada no União Brasil, sob apadrinhamento direto de Moro, consolida uma nova frente que, na prática, impõe uma divisão real à direita no Paraná e coloca eventuais adversários em atenção.
Moro à frente nas pesquisas
Mais do que uma simples filiação partidária, o movimento de aproximação entre a jornalista e o senador tem conexão direta com a rota traçada pensando no pleito do ano que vem.

Sergio Moro lidera hoje as pesquisas de intenção de voto para o governo do Paraná e isso muda completamente o tabuleiro. Enquanto o governador Ratinho Junior (PSD) ainda avalia seus próximos passos, entre consolidar um sucessor ou entrar de vez no jogo presidencial, Moro já se antecipa, reúne quadros e se posiciona como alternativa competitiva para o Palácio Iguaçu.
Com Cristina como pré-candidata ao Senado na chapa do União Brasil, Moro demonstra que pretende montar um palanque robusto, de forte apelo ideológico e com lastro eleitoral. A união entre os dois, ainda que travestida de “natural”, já provoca reações entre antigos aliados e acende a luz vermelha em gabinetes de adversários diretos.
Alerta no Palácio Iguaçu
No Palácio Iguaçu, o alerta foi imediato. Ratinho Junior, que até então contava com o União Brasil como aliado em potencial, principalmente pela federação com o Progressistas, agora vê a legenda sendo ocupada por um grupo que pode representar não apenas independência política, mas até mesmo oposição direta em 2026. Ainda que Moro afirme publicamente que “não é adversário” do governador, a movimentação fala mais alto do que o discurso e as ambições políticas derrubam qualquer boa relação.
Na prática, a aliança Moro-Graeml tira das mãos do governador o controle sobre uma fatia importante da direita paranaense e embaralha os planos de articulação em torno de um nome para a sucessão, mesmo havendo um acordo de cavalheiros entre PSD e PL para a composição em 2026. Com o centro-direita cada vez mais fragmentado, Ratinho pode se ver obrigado a disputar terreno dentro de um campo que, até então, dominava com folga.
Paulo Martins e Filipe Barros sob pressão
O movimento também pressiona outras figuras da direita que já se colocam como pré-candidatos. Paulo Martins (Novo), atual vice-prefeito de Curitiba e pré-candidato ao governo, vê no crescimento de Moro um competidor direto pelo eleitorado liberal-conservador. Se até pouco tempo Paulo era visto como herdeiro natural de parte do eleitorado de Bolsonaro, agora precisa se diferenciar de um Moro cada vez mais forte e presente no Paraná, além de mais uma vez precisar se mostrar como o verdadeiro representante dos valores que o acompanharam desde o início da carreira política.

No Senado, o impacto recai sobre o deputado federal Filipe Barros (PL), nome já colocado como pré-candidato a uma das duas vagas na Casa Alta em 2026 com apoio de setores do bolsonarismo. Com Graeml no jogo — e com o capital eleitoral de 2024 na bagagem — a disputa dentro da própria direita será acirrada, e o risco de divisão do voto conservador é real. Graeml não apenas simboliza a ala bolsonarista raiz, mas também traz o respaldo de Moro, o que amplia seu alcance entre eleitores de direita moderada e lavajatistas.
Logo, Filipe Martins precisará ter mais fôlego do que imaginava, afinal, pretendia nadar de braçado no eleitorado conservador, mas agora terá uma adversária à altura. E quem, entre os dois, terá a coragem de falar que o outro não é um legítimo representante da direita paranaense?
Um novo polo conservador
A estratégia de Sergio Moro é clara: formar um novo grupo conservador no Paraná, com lideranças legitimadas pelas urnas e discurso alinhado com o antipetismo e a rejeição à esquerda e ao presidente Lula (PT), além das já óbvias críticas ao judiciário. A fala de Moro durante o evento de filiação foi um GPS para os adversários: “Estamos construindo um partido forte e unido com pessoas valorosas, como Cristina Graeml, que não vão trocar suas convicções por oportunismo ao chegar no Congresso”.
Cristina, por sua vez, reforçou o discurso de união dos conservadores, mas sem esconder a ambição de se tornar uma congressista. “Estou alinhada aos objetivos do senador Moro para o Paraná. A busca é por unificação e pacificação”. Em outras palavras, está disposta a ir para o enfrentamento nas 399 cidades do Paraná.
Com essa parceria, União Brasil, que até então era visto como um partido de centro pragmático, ganha contornos ideológicos mais claros no Paraná e passa a ser protagonista. E Sergio Moro, que há um ano muitos davam como carta fora do baralho após sua passagem atribulada pelo governo federal, seus problemas na Justiça Eleitoral e a derrota acachapante de sua esposa na disputa pela Prefeitura de Curitiba, volta ao jogo com força total e, agora, com aliados verdadeiramente competitivos.
A direita paranaense está oficialmente rachada. E 2026 promete ser uma eleição com disputa intensa, não entre campos opostos, mas dentro do próprio campo conservador.
