Elizabeth x Rangel: a implosão de um grupo político
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
O vídeo publicado pela prefeita Elizabeth Schmidt (União Brasil) nesta semana marca o ponto de ruptura de um grupo político que dominou Ponta Grossa por mais de uma década. O apelo dramático dirigido ao governador Ratinho Júnior (PSD), no qual ela pede “socorro” para o Município, foi muito mais do que um desabafo: foi um gesto político calculado e um sinal de que a guerra com o ex-prefeito Marcelo Rangel (PSD), seu antigo aliado, chegou a um nível sem volta.

Elizabeth e Rangel formavam, até pouco tempo atrás, uma das duplas mais sólidas da política dos Campos Gerais. Ele comandou a Prefeitura por dois mandatos, entre 2013 e 2020, e escolheu Elizabeth como vice e sucessora, garantindo continuidade ao projeto do PSD local. A transição foi tranquila até Rangel, que havia disputado uma vaga na Assembleia Legislativa em 2022, tentar retomar o controle da Prefeitura em 2024.
Foi ali que a relação desandou. Elizabeth se recusou a abrir espaço para o retorno do ex-prefeito, que acreditava ter direito a reassumir o protagonismo do grupo. A recusa foi interpretada como traição, e o rompimento veio acompanhado de uma disputa interna pelo PSD. Rangel manteve o comando partidário, isolou a prefeita e, de quebra, consolidou sua própria base junto ao governador Ratinho Júnior.
Desde então, Elizabeth passou a operar sozinha. Sem estrutura partidária e sem a benção do Palácio Iguaçu, ela começou a procurar novos aliados. Em Brasília, buscou apoio do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e chegou a se reunir com Jair Bolsonaro, numa tentativa de pavimentar sua filiação ao partido e se reposicionar politicamente antes das eleições municipais.
A estratégia, porém, foi barrada pelo entorno de Ratinho. A ala governista considerou o gesto uma provocação, já que o governador tenta manter o PL sob controle em sintonia com o PSD estadual. Elizabeth publicou uma foto com Bolsonaro, mas apagou a imagem horas depois, após a pressão do grupo do Palácio.
No desespero e sem legenda, viu no senador Sergio Moro (União Brasil) a última cartada para se manter no páreo. A aliança inesperada deu certo e, contra tudo e todos, a prefeita reconhecida pelo bordão “deixa a véia trabalhar”, derrotou a família Canto, o grupo mais à esquerda e também os palaciano na eleição mais disputada de todo o Paraná.
O vídeo e o recado
No vídeo divulgado agora, Elizabeth não apenas cobra investimentos, ela denuncia abertamente o que chama de “bloqueio político” contra Ponta Grossa. A prefeita afirma que a cidade recebeu “quinze vezes menos que Curitiba, seis vezes menos que Cascavel e cinco vezes menos que Londrina e Maringá” nos planos de investimento estadual. Cita obras paradas, como, por exemplo, o Hospital Filantrópico Bom Jesus, que estaria “quebrando”.
Mais do que números, o discurso tem um forte subtexto: o de que a cidade estaria sendo punida por razões políticas. Elizabeth acusa “políticos maldosos que se autointitulam representantes da região”, uma referência direta a Rangel e aos parlamentares próximos de Ratinho e diz estar sendo “trapaceada e enganada com mentiras” vindas de quem se apresenta como “amigo do governador”.
É o tipo de acusação que, em outro momento, seria impensável dentro de um grupo que nasceu unido em torno do mesmo projeto político.
O isolamento e a tentativa de reviravolta
O problema para a prefeita é que o rompimento ocorreu sem rede de apoio. Sem partido de início, sem bancada fiel na Assembleia e agora sem espaço no núcleo político do governador, Elizabeth tenta compensar a falta de articulação com um discurso de mobilização popular. Ao falar em “movimento da cidade e da região pela troca urgente desses representantes”, ela busca se reposicionar como a voz da indignação local, uma prefeita “presa”, mas combativa, que resiste à velha política.

É uma estratégia arriscada. No campo institucional, o isolamento dela é evidente. Desde que perdeu o PSD, Elizabeth não conseguiu o mesmo destaque estadual. Tentou se aproximar do PL e do grupo bolsonarista, mas foi travada por interesses maiores: o de Ratinho em manter o controle das alianças regionais para 2026. E o Palácio Iguaçu, que até então tratava Ponta Grossa como prioridade, passou a segurar liberações orçamentárias e repasses para obras locais. No final, o União Brasil surgiu como uma guarida não desejada, mas a única que restou.
A guerra aberta e seus reflexos
O caso de Ponta Grossa virou exemplo do tipo de fratura que o governo Ratinho tenta evitar às vésperas do ciclo eleitoral de 2026. A imagem de harmonia entre o governador e suas principais bases regionais começa a mostrar rachaduras. E a prefeita, mesmo isolada, conseguiu algo que poucos prefeitos no interior conseguem: colocar o tema em debate estadual.
O vídeo circulou amplamente em grupos políticos e empresariais, com leituras divergentes. Para uns, Elizabeth está sem apoio e tenta jogar para a plateia. Para outros, teve coragem de dizer em público o que muitos prefeitos apenas murmuram: que a distribuição de recursos do Estado tem critérios políticos e favorece aliados mais alinhados ao Palácio.

De qualquer forma, o episódio confirma que a aliança entre Elizabeth e Rangel virou passado. O ex-prefeito, hoje deputado estadual, segue bem posicionado junto ao governo e deve usar o desgaste da sucessora como argumento para reassumir protagonismo nos Campos Gerais no próximo ciclo eleitoral. Já Elizabeth tenta se colocar como vítima de um sistema que ela mesma ajudou a construir.
O xadrez se movimenta para 2026
Por trás da disputa, há uma batalha simbólica. Ponta Grossa é o quarto maior município do Paraná, polo industrial e logístico, e tem peso político que extrapola os Campos Gerais. Controlar o município significa garantir base eleitoral sólida e acesso a uma rede regional de prefeitos e vereadores. Perder essa base representa abrir espaço para novos arranjos, inclusive com o PSDB de Mabel Canto e a esquerda de Aliel Machado.
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A fala de Elizabeth, em tom de apelo e revolta, é o primeiro passo de uma estratégia que pode tanto recolocá-la no jogo governista quanto selar seu afastamento político. Se conseguir transformar o discurso de “socorro” em narrativa de resistência, pode sobreviver ao isolamento.
No fim, a implosão do grupo político que dominou Ponta Grossa mostra como o poder regional paranaense está fragmentado. Elizabeth e Rangel são hoje personagens de uma novela que começou como aliança, virou disputa e terminou em traição pública. E Ratinho Júnior, que tenta equilibrar sua base rumo a 2026, assiste a tudo, ciente de que, para atingir seus objetivos não tão distantes, precisa evitar que esse tipo de desgaste ocorra em outras regiões.
