Prefeito de Matinhos defende que ambulantes trabalhem o tanto que quiserem, sem limitação de horas


Por Brayan Valêncio Publicado 25/11/2025 às 10h54

A disputa sobre o horário de permanência dos ambulantes na orla de Matinhos ganhou um contorno político que a Prefeitura tenta encerrar com um argumento simples: o projeto do vereador Roque Sozo (PRTB) não amplia direitos, ele cria um limite que nunca existiu. A avaliação é do prefeito Eduardo Dalmora (PL), que vetou integralmente o Projeto de Lei Complementar 29/2025, derrubado depois pela Câmara sob pressão de grupos de ambulantes.

O texto havia sido aprovado em primeiro turno no dia 25 de agosto e, em segunda discussão, no dia 1º de setembro. Vetado em 31 de outubro, o projeto acrescentava um parágrafo ao Código de Posturas autorizando a permanência dos trabalhadores por “duas horas após o encerramento dos eventos públicos”. Para o prefeito, porém, essa redação não amplia direitos; ao contrário, restringe algo que hoje já ocorre de forma livre.

Prefeito Eduardo Dalmora defende que ambulantes trabalhem em tempo integral e sem limite na legislação. Foto: Daniel Caron/DPE-PR
Prefeito Eduardo Dalmora defende que ambulantes trabalhem em tempo integral e sem limite na legislação. Foto: Daniel Caron/DPE-PR

Nas palavras do prefeito: “O ambulante, enquanto conseguir trabalhar, ele tem que produzir. Então, se ele conseguir trabalhar 24 horas por dia, ele tem que trabalhar 24 horas por dia”. Ele também afirma que vetou a proposta justamente porque a Prefeitura não limita horário e não quer que a lei passe a limitar. “Vou trabalhar o que eu quiser e puder. Não duas horas após o show. Isso não tem lógica. Eu vetei por causa disso”, disse.

Ainda segundo Dalmora, o texto de Roque Sozo resultaria no oposto do que prega. “O vendedor é livre para trabalhar quanto tempo quiser. Duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito horas. Trabalha à vontade e ganha seu dinheiro”, concluiu.

Câmara derruba o veto

A Câmara derrubou o veto, no dia 10 de novembro, após forte mobilização de ambulantes ligados ao vereador Roque. O prefeito, porém, mantém a avaliação técnica feita pela Secretaria de Turismo e pelo próprio Executivo: não há como garantir segurança pública na orla após o encerramento oficial das atividades.

Hoje, o fluxo funciona da seguinte forma: os shows do Verão Maior costumam terminar por volta da meia-noite; depois disso, muitos ambulantes seguem trabalhando até cerca de 2h. Em seguida, chega a equipe de limpeza, enquanto a Polícia Militar do Paraná (PM-PR), que atua especificamente na temporada, se retira por volta do mesmo horário em razão do fim do turno. Segundo a Prefeitura, esse intervalo deixa a orla sem policiamento e potencializa os riscos.

A Secretaria de Turismo defende que a regra atual funciona e dispensa interferência da lei. Segundo a pasta, delimitar um horário cria uma falsa sensação de amparo e ainda pode gerar cobrança de policiamento ampliado, algo que o Município não tem como garantir.

Vereador usa discurso político e fala em “rasgar a democracia”

Na sessão de 10 de novembro, Roque Sozo defendeu a derrubada do veto. O parlamentar mencionou a existência de “dois pareceres jurídicos na Casa” e afirmou que manter o veto representaria “rasgar a democracia”.

Sozo pediu que os colegas votassem contra o prefeito. “Peço que vocês votem ‘não’ nesse veto para manter esse povo trabalhando”, disse ao som de aplausos de pessoas que acompanhavam a sessão.

Vereador Roque Sozo rasgou papel interpretando que veto do prefeito Dalmora “rasgou a democracia”. Foto: Reprodução/ Câmara de Vereadores de Matinhos
Vereador Roque Sozo rasgou papel interpretando que veto do prefeito Dalmora “rasgou a democracia”. Foto: Reprodução/ Câmara de Vereadores de Matinhos

Para convencer os vereadores, ele citou histórias pessoais de ambulantes. “Tem mãe acamada, tem filho autista”, argumentou, pedindo que o veto fosse derrubado.

Ambulantes afirmam atuar sem restrições

A ambulante Larissa Isabel Rosa, presidente da Associação dos Ambulantes Unidos da Faixa de Areia (AAUFA), deu uma versão que reforça o argumento central do prefeito, de que não existe qualquer norma que obrigue a saída imediata após os shows. “Não tem lei que impeça nenhum ambulante a trabalhar fora do horário”, disse em entrevista exclusiva ao JB Litoral.

Representantes da Associação dos Ambulantes Unidos da Faixa de Areia confirmaram em entrevista ao JB que já atuam sem limitações de horários
Representantes da Associação dos Ambulantes Unidos da Faixa de Areia confirmaram em entrevista ao JB que já atuam sem limitações de horários

Segundo ela, o que existe é o horário da Polícia Militar do Estado, que encerra o turno por volta de 2h ou 3h. “Eles vão se retirar. O batalhão sai todo em fileira. Enquanto eles estão saindo, está vindo a limpeza da cidade”. Larissa trabalha desde 2016 e afirma nunca ter sofrido truculência. “Comigo não aconteceu”.

Ela costuma fechar por volta das 3h, porque trabalha também durante o dia. Para ela, a discussão tem sido pautada por um tom político que não beneficia a classe.

Já a vice-presidente da AAUFA, Cláudia Simone Silveira Rosa, detalha que o foco deveria ser na segurança do ambulante e afirma ter observado movimentações importantes da administração municipal nesse sentido. “Os agentes de segurança vão embora quando der o horário deles. Se der uma briga, uma troca de tiros entre turistas, o ambulante vai estar lá. É disso que precisamos falar, porque oportunidade para trabalhar nós sempre tivemos”.

Horas após o fim das apresentações, a Polícia Militar se desmobiliza e, na sequência, a equipe de limpeza organiza a região dos shows. Foto: Paulo Antonio do Vale Junior/Sanepar
Horas após o fim das apresentações, a Polícia Militar se desmobiliza e, na sequência, a equipe de limpeza organiza a região dos shows. Foto: Paulo Antonio do Vale Junior/Sanepar

No fim, a divergência é sobre o que a lei faz

A derrubada do veto não encerra o impasse político. A Prefeitura, porém, reforça que a proposta de Roque Sozo não amplia direitos, mas estabelece um horário que pode ser entendido como limite, algo que até então não existia.

Ao defender o veto, o prefeito Dalmora destaca que sua leitura busca preservar o que já ocorre na prática: liberdade total de horário para os ambulantes e a possibilidade de aproveitar o verão, período de maior renda.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.

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