Associação nacional impulsiona presença feminina e debate igualdade nos portos
No mês dedicado às mulheres, a Associação Mulheres e Portos se prepara para completar quatro anos de atuação em defesa da maior participação feminina no setor portuário brasileiro. A entidade foi criada em 31 de março de 2022, a partir de uma conversa entre gestoras durante um evento nacional do setor realizado em Brasília, e hoje reúne mais de 130 integrantes de diferentes portos do país.
Entre as fundadoras — e hoje diretora de Marketing e Comunicação da Associação Mulheres e Portos — está Shana Bertol, diretora executiva do OGMO Paranaguá. Ela lembra que a ideia surgiu diante da baixa presença feminina nos espaços de discussão do setor.

“Nos eventos que participávamos havia uma ou duas mulheres no meio de muitos homens. Em um café da manhã, durante um encontro em Brasília, surgiu a ideia de criar um grupo para discutir temas portuários e apoiar a presença feminina nesse ambiente, que muitas vezes intimida as mulheres”, contou a diretora.
Inicialmente informal, o grupo cresceu rapidamente e passou a reunir trabalhadoras portuárias, lideranças de órgãos de gestão de mão de obra, representantes de operadoras e profissionais de diferentes áreas ligadas aos portos. Atualmente, mulheres de estados como Paraná, Rio de Janeiro, Bahia e Maranhão participam ativamente da iniciativa.
De grupo informal a associação nacional
Com o crescimento da rede e o aumento das pautas discutidas, surgiu a necessidade de institucionalizar o movimento. Segundo Shana Bertol, a formalização permitiu ampliar o alcance e desenvolver novas ações.
“Entendemos que, como grupo, não conseguiríamos representar as mulheres em espaços importantes, como audiências públicas ou discussões com o Governo. Por isso criamos a Associação, elaboramos estatuto e obtivemos CNPJ, garantindo legitimidade para falar em nome dessas trabalhadoras”, explicou Shana.
A entidade conta com apoio da Federação das Operações Portuárias e atua a nível nacional na defesa da equidade de gênero no setor. Para alcançar os diferentes portos do país, a Associação estruturou comitês regionais, com representantes locais responsáveis por levantar demandas e articular ações junto às empresas e trabalhadores, como explicou a diretora.
“Cada porto tem suas particularidades. As representantes regionais entendem as necessidades locais e desenvolvem ações que incentivem a participação feminina e promovam melhores condições de trabalho”, afirmou Shana.

Participação feminina ainda é pequena
Apesar dos avanços e da presença das mulheres na faixa portuária, os números mostram que a presença feminina na área ainda é bastante reduzida. De acordo com levantamento citado pela Associação, apenas 0,7% dos mais de 16 mil trabalhadores portuários avulsos do país são mulheres.
Em Paranaguá, um processo seletivo realizado em 2024 trouxe mudanças nesse cenário. A seleção teve 7.415 inscritos, sendo 815 mulheres (10,9%). Ao todo, 37 foram aprovadas, sendo 10 chamadas imediatamente e outras 27 incluídas em cadastro reserva.
Entre elas estão as primeiras estivadoras da história do Porto de Paranaguá. Mesmo assim, o número de inscrições femininas ainda foi considerado baixo.
“Percebemos que muitas mulheres aprovadas vieram de outros portos, como Rio Grande, e não necessariamente de Paranaguá. Isso mostra que ainda existe um certo receio de ingressar na atividade, que historicamente foi vista como masculina”, disse a diretora.

Desafios estruturais e culturais
Entre os principais desafios apontados pelas trabalhadoras estão questões de infraestrutura, como a adaptação de banheiros e vestiários nos portos, além do combate ao assédio.
Segundo a Associação Mulheres e Portos, muitos trabalhadores ainda não conseguem identificar comportamentos que caracterizam assédio, devido à cultura tradicional do ambiente portuário. Para enfrentar o problema, a entidade tem promovido ações de conscientização e cursos sobre o tema.
“O setor está aprendendo. Antes não havia mulheres trabalhando nessas funções. Por isso é importante levar informação e promover mudanças culturais”, afirmou Shana.
Outro ponto discutido é a licença-maternidade para trabalhadoras portuárias avulsas, já que muitas vezes, ao se afastarem da atividade durante a gestação, acabam enquadradas de forma equivocada como auxílio-doença. A Associação explicou que trabalha junto a órgãos públicos para corrigir esse tipo de situação.

Formação e incentivo à entrada de mulheres
Uma das estratégias adotadas para ampliar a presença feminina no setor portuário é a qualificação profissional. Em Paranaguá, a Associação desenvolveu parcerias para formar mulheres em cursos de operadoras de equipamentos portuários, como empilhadeiras, capacitação que conta pontos em processos seletivos.
A iniciativa ajudou a equilibrar as condições de disputa com candidatos homens, que tradicionalmente já possuem esse tipo de formação. Empresas do setor também têm demonstrado interesse em contratar mulheres, segundo a diretora.
“Temos relatos de empresas que destacam o cuidado e a atenção das operadoras com os equipamentos, o que muitas vezes reduz avarias durante as operações”, destacou a diretora.
Transformação gradual
Embora o processo ainda seja gradual, as primeiras trabalhadoras portuárias já começam a abrir caminho para outras mulheres. Segundo relatos das próprias profissionais, o apoio de colegas homens nas operações tem sido fundamental para a adaptação ao trabalho.
“Elas têm sido desafiadas em algumas atividades que exigem esforço físico, mas contam com apoio da equipe. A tendência é que a presença feminina aumente nos próximos processos seletivos”, acredita Shana.

“O cais também é nosso”
Para Shana Bertol, o avanço da participação feminina no setor portuário representa uma transformação inevitável. “Durante muito tempo os portos foram pensados para homens. Mas o mundo está mudando e o cais também é nosso”, afirmou.
A diretora deixa um recado para mulheres interessadas em ingressar na área. “Que elas não se intimidem. O porto precisa de diversidade, de novos olhares e de mais mulheres ocupando esses espaços. Estamos abrindo caminhos para que cada vez mais profissionais façam parte desse setor”, conclui a diretora.
