Febre do Mounjaro reduz procura por bariátrica e transforma tratamento da obesidade


Por Aline Cardoso Publicado 16/05/2026 às 17h58 Atualizado 18/05/2026 às 11h26

Enquanto pacientes comemoram resultados rápidos na balança, médicos fazem um alerta: a febre das chamadas canetas de emagrecimento, como o Mounjaro, trouxe uma nova revolução no tratamento da obesidade, mas também levanta preocupações sobre uso indiscriminado, perda muscular e efeito rebote.

Foto: Reprodução /Agência Senado

Nos últimos meses, o medicamento deixou de ser assunto restrito aos consultórios e passou a dominar academias, redes sociais e grupos de WhatsApp. Há quem recorra à medicação para perder muitos quilos, mas também quem busca eliminar apenas “os últimos cinco”.

Para entender o impacto da nova tendência, o JB Litoral conversou com o médico nutrólogo Dr. Cleber Amarante e com o cirurgião do aparelho digestivo Dr. Lucas Nitsche Rocha, especialista em cirurgia bariátrica e tratamento cirúrgico da obesidade.

Perda rápida de peso preocupa especialistas

Segundo Cleber, um dos principais riscos do uso sem acompanhamento está na perda acelerada de massa muscular. “Muitas pessoas praticamente deixam de comer durante o tratamento. Emagrecem rápido, mas perdem músculo junto com gordura”, explica ao JB.

NUTRÓLOGO CLEBER FOTO ALINE CARDOSO
Especialista em nutrologia, Dr. Cleber Amarante. Foto: Aline Cardoso

De acordo com o médico, isso desacelera o metabolismo e favorece o chamado efeito rebote. “A pessoa emagrece, perde massa muscular, depois volta a engordar, retoma a medicação e perde ainda mais músculo. Isso vira um ciclo.”

Esse processo também ajuda a explicar o chamado “rosto de Mounjaro”, expressão popularizada nas redes sociais para definir mudanças faciais marcadas após emagrecimento intenso. “O emagrecimento é muito abrupto e muitas vezes sem cuidado com a preservação muscular”, afirma.

Uso sem orientação pode trazer riscos

Além da perda muscular, médicos alertam para efeitos colaterais comuns como náuseas, vômitos, diarreia e alterações gastrointestinais. Em casos mais graves, podem ocorrer pancreatite aguda e hipoglicemia.

Segundo Cleber, também há preocupação com a banalização do medicamento e aumento da compra de produtos vindos do exterior. “A gente não sabe em quais condições essa medicação foi transportada, armazenada e se realmente é original”, alerta.

Por ser termolábil, o medicamento precisa ser mantido em temperatura adequada durante transporte e armazenamento.

Pacientes diabéticos, pessoas com histórico de pancreatite, casos de câncer de tireoide na família e mulheres que usam anticoncepcional oral exigem atenção redobrada.

Impacto já chega aos consultórios de bariátrica

Nos consultórios de cirurgia bariátrica, os reflexos da nova medicação já começaram a aparecer.

Segundo Lucas Nitsche Rocha, houve redução na procura por cirurgia nos últimos meses, principalmente entre pacientes que antes buscavam diretamente a operação.

DOUTOR LUCAS - FOTO ALINE CARDOSO
Especialista em cirurgia bariátrica, Lucas Nitsche Rocha. Foto: Aline Cardoso

Apesar disso, ele afirma que a bariátrica continua sendo indicada em casos específicos. “O paciente com obesidade grave, diabetes importante e múltiplas doenças associadas ainda continua procurando cirurgia”, afirma.

O especialista destaca que a bariátrica vai além da redução do estômago. “Eu costumo dizer que a bariátrica é como se o paciente tivesse mil canetas de Mounjaro dentro da barriga, produzindo esse efeito hormonal para sempre”, compara.

Segundo ele, inclusive, os estudos hormonais da cirurgia ajudaram no desenvolvimento de medicamentos como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.

Nem cirurgia, nem caneta funcionam sozinhas

Apesar da transformação no tratamento da obesidade, os especialistas reforçam que não existe solução isolada. “Não existe cirurgia nem medicação que resolva tudo sozinha. Sem mudança de hábitos e alimentação, o paciente pode voltar a engordar”, afirma Lucas.

O custo do tratamento contínuo também entra na conta. Segundo o cirurgião, em cerca de um ano usando Mounjaro, o paciente pode gastar valor próximo ao de uma cirurgia bariátrica particular.

Para Cleber, a chegada da medicação representa uma mudança histórica. “A história do emagrecimento vai ser dividida em antes e depois do Mounjaro”, resume.

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