Entre mau cheiro, rachaduras e insegurança, moradores da região portuária cobram providências


Por Maisy Pires Publicado 21/07/2026 às 16h46

Segurança, indenização, atendimento à saúde e a elaboração de um plano de emergência foram as principais cobranças feitas por moradores da Serraria do Rocha e de comunidades do entorno dos terminais portuários de Paranaguá. As reivindicações foram apresentadas durante reunião realizada na Câmara Municipal, na sexta-feira (17), para discutir o vazamento de óleo de xisto registrado no último dia 10. O encontro, porém, ocorreu sem a presença do Instituto Água e Terra (IAT), da Prefeitura de Paranaguá e de outros órgãos públicos para prestar esclarecimentos.

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Foto: divulgação/Câmara Municipal de Paranaguá

Em ofício encaminhado à Câmara, o IAT informou que não compareceu porque a chefia do Escritório Regional do Litoral participava de um compromisso institucional previamente agendado em Guaratuba. O órgão afirmou que permanece à disposição para receber vereadores e demais interessados a partir de 21 de julho.

A reunião foi solicitada pelos vereadores Ezequias Rederd, o Maré (PSD) e Tenile Xavier (PSD), com a participação de Antonio Ricardo dos Santos (Progressistas) e Luizinho Maranhão (PL) e o presidente da Câmara, Adalberto Araújo (Republicanos). Durante o encontro, moradores cobraram providências para evitar novos vazamentos, defenderam indenizações ou a compra de imóveis das famílias que desejam deixar o local e relataram problemas antigos, como rachaduras nas casas, tráfego intenso de caminhões, barulho durante a madrugada, odores de produtos químicos e o receio constante de acidentes.

Moradores relatam impactos

Um dos relatos que mais chamaram a atenção durante a sessão foi o de Jucimara Tereza da Silva Marques, moradora da Vila Ruth. Ela afirmou que a população convive diariamente com os impactos das atividades portuárias e que muitas famílias já não conseguem mais permanecer na região.

“Nós não estamos lutando aqui só pelo cheiro de combustível […] nós estamos morrendo aos poucos pelo problema químico que está no ar. Nossa vida está um inferno ali dentro”, declarou a moradora.

“Eu não estou te pedindo dinheiro. Eu só quero que vocês possam nos indenizar, porque nós não estamos suportando essa vida de mau cheiro, de tóxico e de tudo”, ressaltou.

Além da indenização, moradores cobraram atendimento médico às pessoas que relataram náuseas, dores de cabeça e irritação nas vias respiratórias após o vazamento.

A presidente dos bairros Serraria do Rocha, Vila Ruth, Jardim Santa Rosa e adjacências, Claudiane Carvalho, afirmou ao JB Litoral que a reunião permitiu que a comunidade desabafasse sobre problemas antigos, mas sem a apresentação de soluções concretas.

“São muitas as casas que estão detonadas por conta das diversas construções das empresas Cattalini, CBL, Terin e pátios de contêineres. São muitos os danos causados pelas obras e pelo funcionamento dessas empresas, principalmente à nossa saúde física e mental”, afirmou.

E a fiscalização?

Os vereadores também cobraram maior participação dos órgãos públicos. Maré afirmou que a principal reivindicação é garantir segurança à população e informou que pretende encaminhar denúncia ao Ministério Público. A vereadora Tenile Xavier defendeu que a expansão portuária ocorra sem comprometer a saúde dos moradores.

Já Luizinho Maranhão criticou a ausência do IAT, do Ministério Público, do Corpo de Bombeiros e de outros órgãos ambientais, enquanto Antonio Ricardo questionou a possibilidade de novas aquisições de imóveis pela Cattalini caso haja mudanças no Plano Diretor.

Cattalini reconhece vazamento

A Cattalini foi representada pelo superintendente Administrativo-Financeiro, Fábio Martins Jorge; o superintendente Operacional, Carlos Ichi; e o gerente de Saúde, Segurança e Qualidade, Fernando Pereira.

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Corpo de Bombeiros esteve nos locais para verificar a possibilidade de explosão e incêndio.Foto: JB Litoral

Durante a conversa, Fábio Martins Jorge reconheceu que o vazamento teve origem em uma instalação da Cattalini. “A causa foi na Cattalini. Se a gente erra, a gente levanta a mão”, disse.

Segundo o superintendente Operacional, Carlos Ichi, cerca de 180 litros de óleo de xisto saíram do sistema de contenção e atingiram uma rede de drenagem. A Cattalini afirmou que comunicou o episódio aos órgãos competentes e sustentou que não houve dano ambiental porque o produto foi recolhido na rede de esgoto antes de atingir rios ou a Baía de Paranaguá.

O gerente Fernando disse que o produto envolvido no vazamento não é tóxico e nem inflamável, e explicou que a presença de cheiro não significa, necessariamente, risco à saúde. Ele fez comparação com perfume, afirmando que “perfume também tem cheiro e não é tóxico”, destacando que o odor, por si só, não caracteriza uma substância perigosa.

A explicação foi contestada por moradores, que relataram a propagação do forte odor pelas residências e a presença do Corpo de Bombeiros para verificar a possibilidade de explosão e incêndio.

Cattalini anuncia reforço na segurança e descarta novas compras de imóveis

Questionada pelo JB Litoral, a empresa informou que já instalou sensores redundantes para detectar vazamentos, reforçou o monitoramento da bacia de contenção, realizou obras de impermeabilização e contratou uma empresa especializada para identificar possíveis conexões entre o terminal e galerias externas.

Sobre a possibilidade de adquirir mais imóveis para que as famílias deixem a região, Fábio Jorge deixou claro que a Cattalini não prevê novas compras. Segundo ele, desde 1993, já foram adquiridas mais de 1,5 mil residências e novas aquisições dependerão de uma eventual necessidade futura.

“A Cattalini já comprou mais de 1.500 casas. Dependendo da oportunidade de mercado, se for necessário no futuro comprar mais, vai ser comprado. Mas, nesse momento, não tem nenhuma previsão”, declarou.

Quem são as empresas citadas pelos moradores

Durante a reunião, moradores mencionaram diferentes empresas instaladas na região portuária:

  • Cattalini Terminais Marítimos: opera um terminal especializado na armazenagem e movimentação de granéis líquidos, como combustíveis, derivados de petróleo, produtos químicos e óleos vegetais.
  • CBL (Companhia Brasileira de Logística): também atua no segmento de granéis líquidos, realizando a armazenagem e movimentação de combustíveis, derivados de petróleo, etanol e biodiesel.
  • Terin: é especializada na armazenagem e movimentação de granéis líquidos destinados às operações de importação e exportação.


Sobre

Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, com pós-graduação em Comunicação e Oratória, atua há mais de 10 anos na área, com experiência em portais, televisão, rádio e assessoria de imprensa. Atualmente, é editora-chefe do JB Litoral, onde lidera a produção de conteúdo com foco em informação de qualidade e responsabilidade.

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