Com recursos garantidos pelo Estado, revitalização da Rua Conselheiro Sinimbú está “travada” no Iphan, diz Prefeitura
Com investimento estimado em R$ 8 milhões, a Prefeitura de Paranaguá e o Governo do Estado anunciaram, no ano passado, a revitalização completa da Rua Conselheiro Sinimbú, no Centro Histórico. O plano é requalificar a área para que a via se torne um “boulevard urbano” no trecho entre a Catedral Diocesana (Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário) e a Igreja de São Benedito.

O conceito de “boulevard” transforma o espaço urbano ao priorizar os pedestres, com vias largas e arborizadas, sem deixar de manter a circulação de veículos. A área no município é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e é o Marco Zero do Paraná, onde a história do Estado começou a se construir.
O projeto executivo para a revitalização do trecho foi elaborado pela equipe técnica da Prefeitura. O JB Litoral traz, nesta edição, os entraves que impedem o avanço do projeto. Esta é a segunda reportagem da série sobre os prédios históricos de Paranaguá, iniciada na edição 914, que apresentou exemplos de discussões recentes entre autoridades sobre a possível restauração de imóveis pertencentes ao Município.
Valorização do Centro Histórico à espera do Iphan
A proposta, junto à promessa de requalificação da Rua da Praia, integra o conjunto de obras voltadas à valorização do Centro Histórico e à melhoria da experiência de moradores, comerciantes e visitantes, conectando-se às demais intervenções previstas para a orla e o eixo turístico da cidade.

Como anunciado inicialmente, as intervenções contarão com apoio da Secretaria das Cidades. “A Conselheiro Sinimbú é parte da história de Paranaguá e do Paraná. Ter um boulevard moderno muda a cara da cidade. O projeto apresentado pelo prefeito é belíssimo e dialoga com a revitalização do Rio Itiberê”, disse o secretário de Estado das Cidades, Guto Silva, em outubro do ano passado.
Mas, mesmo com todos os requisitos cumpridos pela Prefeitura, a proposta continua à espera de autorização do Iphan, conforme explicou ao JB Litoral a arquiteta e secretária de Planejamento de Paranaguá, Vania Foes, responsável pelo projeto.
“A ideia é nivelar todo o piso, ampliar a área para pedestres e as calçadas, permitindo a instalação de mais atividades comerciais e a valorização da Conselheiro Sinimbú. O recurso está garantido, mas precisamos da aprovação. Estamos aguardando o aval final do Iphan”, disse.

Ainda segundo a secretária, o projeto para a requalificação foi concluído, mas a obra ainda não seguiu devido a pedidos recorrentes de correções pelo órgão federal. Entre eles, adequações no tipo de estacionamento e colocação de árvores.
A última versão, já com as adequações exigidas, foi enviada para análise em fevereiro deste ano. O documento também foi encaminhado para a Coordenadoria de Patrimônio Cultural (CPC) da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Entre as intervenções previstas também está o aterramento elétrico, para que os fios de energia não fiquem expostos.
Iphan defende critérios técnicos e mantém ajustes sob análise
O JB Litoral procurou o Iphan para entender como funciona a aprovação de projetos para conjuntos históricos, especificamente em Paranaguá. Em nota, o Instituto disse que o prazo para aprovar propostas de intervenções em bens tombados é de 45 dias, conforme Portaria Iphan 289/2025.
O posicionamento do órgão sobre a proposta para a Rua Conselheiro Sinimbú contraria o afirmado pela secretária municipal de Planejamento. Segundo a entidade, as alterações teriam sido encaminhadas somente no mês de abril e não em fevereiro.
“Especificamente sobre o projeto de revitalização da Rua Conselheiro Sinimbú, em Paranaguá, o Iphan realizou a primeira análise em setembro de 2025 e apontou a necessidade de ajustes, com o objetivo de resguardar as características fundamentais do conjunto tombado. Com as alterações, foi encaminhado ao Instituto neste mês abril de 2026, e está no referido prazo legal para resposta”, defendeu o Iphan.
A Portaria mencionada considera desde intervenções simples, tais como pintura, reparos em revestimentos e manutenção elétrica, por exemplo, até adequação dos imóveis para acessibilidade ou para prevenção e combate a incêndio; instalação de equipamentos; grandes reformas que incluem construção de novos elementos; novas construções; demolições; e restauração.
O órgão ainda destacou que há critérios técnicos utilizados para solicitar ajustes ou complementações em propostas como esta, que levam em conta: “a proteção dos valores que levaram ao tombamento federal dos bens, priorizando a manutenção de ambiência urbana harmônica com as características do setor histórico (proporções, alinhamentos, materiais e técnicas construtivas, padrões de insolação e ventilação e elementos paisagísticos), respeitando elementos relevantes e a importância histórica das edificações”.
Outros projetos em análise e fiscalização mensal
Além da intervenção na Conselheiro Sinimbú, o Iphan acrescentou que outros processos relacionados ao Conjunto Histórico de Paranaguá estão em análise, referentes a:
- Igreja de São Francisco das Chagas – reforma simplificada (substituição de peças de madeira – barrote – da estrutura da Sacristia).
- Rua Itiberê de Lima, nº 35 e 45 – reforma (substituição das telhas da cobertura, revisão hidráulica e elétrica, substituição de esquadrias danificadas, reforma de banheiros e cozinha e adequação dos vãos da fachada).
- Rua Professor Cleto, nº 172, esquina com Praça Monsenhor Celso, nº 106 – reforma simplificada (destelhamento, limpeza do forro e das telhas, troca da manta térmica, recolocação e amarração de todas as telhas com fio de cobre).
- Mercado do Artesanato – reforma simplificada (reparos no telhado, troca de calhas, revisão das esquadrias e gradis, limpeza e pintura das fachadas, manutenção no piso, tratamento e pintura das estruturas metálicas).
- MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia) da UFPR (Universidade Federal do Paraná) – adequação (promoção de prevenção e combate a incêndio e pânico).
A respeito da fiscalização de bens tombados, de responsabilidade do Instituto, o Iphan afirmou ao JB Litoral que realiza inspeções mensais em Paranaguá. A última visita ao Centro Histórico ocorreu nos dias 14 e 15 de abril e, no último dia 11, a equipe esteve na Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel.
Segundo o Iphan, o objetivo é verificar o estado de conservação dos imóveis, como condições gerais de cobertura, elementos estruturais visíveis, instalações elétricas e hidrossanitárias, acervos e elementos artísticos, além de outros itens sob proteção do tombamento.
“Sempre que toma ciência de algum risco, o Iphan notifica prontamente o proprietário para que tome as providências cabíveis”, disse, em nota.
Competência também é do Estado
A Coordenadoria de Bens Tombados da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná (CPC) também enviou uma nota ao JB Litoral. Questionada sobre a existência de algum projeto em fase mais avançada para restauro em Paranaguá, a Coordenadoria não especificou quais estariam um passo à frente para receber obras.
“Tramitam nesta Coordenação diversos processos em fase de análise que visam a melhoria e preservação dos bens. Esses processos são bastante variados, indo desde pedidos de regularização de publicidade e letreiros até a aprovação de projetos arquitetônicos de restauro”, disse a CPC.
*O JB Litoral também entrou em contato com o Instituto Água e Terra (IAT) para obter informações sobre quais obras aguardam licenciamento ambiental no município, mas não recebeu resposta até o fechamento desta reportagem.
Projeto propõe melhorias para atrair empreendedores e consumidores
Durante a conversa com a secretária de Planejamento de Paranaguá, outro assunto foi apontado como fundamental para a valorização da região central da cidade. Para Vania Foes, é preciso criar movimento no centro comercial de Paranaguá, mas isso depende de incentivos aos empreendedores, além de revitalização com acessibilidade para atrair o público.

“Temos que criar movimento no Centro Histórico, atrair o empreendedor que vai fazer loja embaixo e residência em cima. Para isso, temos que ver trânsito e acessibilidade. Nosso centro ficou abandonado todo esse tempo; não teve manutenção de pavimento, cuidado com as calçadas. Precisamos pensar em investimentos para um piso tátil”, pontuou a secretária.
A Secretaria de Planejamento iniciou um projeto de revitalização do centro comercial. Segundo a pasta, já foi realizado um levantamento de todas as calçadas, com desenhos urbanos para aumentar o número de estacionamentos, mas também proporcionar conforto para moradores que precisam de vaga para acesso de idosos, compras, entre outras necessidades da população local.
