Editorial: Um dia que não podemos comemorar!


Por Redação Publicado 08/03/2021 às 05h56 Atualizado 15/02/2024 às 20h29

Para todos nós do JB Litoral não é nada fácil termos que noticiar frequentes casos de feminicídios em nossa região. Somos uma equipe formada por 75% de mulheres, que atuam no jornalismo, na administração, na revisão, que são violentamente impactadas com a produção desse tipo de informação necessária. Dói para toda mulher saber, por meio de denúncias, notícias e casos, que somos frequentemente violentadas, agredidas fisicamente, psicologicamente e, como veremos na nossa reportagem especial de Marinna Protasiewytch, nas páginas 4 e 5, também constantemente mortas, apenas pelo simples fato de sermos mulheres. Escrevemos esse editorial na primeira pessoa do plural, pois esse semanário que, você leitor, segura nas mãos, é uma produção FEMININA.

Nesta semana do Dia Internacional da Mulher nós não temos nada o que comemorar. Como é que poderíamos, acompanhando, reportando e registrando tantos casos de feminicídios nos últimos tempos? Como conseguiríamos celebrar, sabendo que falta estrutura básica de atendimento para mulheres violentadas no litoral paranaense? Como é que festejaríamos sabendo que os números de casos de violência contra a mulher cresceram assustadoramente durante a quarentena da pandemia? É por isso que não! Hoje nós no JB Litoral não vamos comemorar.

Em entrevistas, conversas, encontro com várias fontes e autoridades da área, nós acreditamos que esse problema estrutural da nossa sociedade só irá mudar com o aprimoramento da aplicação da Lei Maria da Penha, no sentido de facilitar o processo da mulher que sofreu violência doméstica. A possibilidade da competência híbrida, que é necessariamente dar a oportunidade de a vítima resolver todas as questões, como guarda dos filhos, alimentos, divisão de bens, proteção, dentro de um juízo só, é uma das formas defendidas por dezenas de magistrados. Dessa forma, a mulher não precisaria passar constrangimentos em uma “via sacra” de falar e repetir sua triste e traumatizante história para outros juízes de família, cíveis, etc. Outra importante maneira, que acreditamos ser necessária nesta luta, é na área da educação, trazer a igualdade de gênero para dentro da escola. Acabar com a política de “meninos contra meninas”, de uma cultura de divisão que aprofunda a desigualdade desde a infância.

Neste dia 8 de março, a nossa capa do JB Litoral só tem uma notícia: “Feminicídio em Paranaguá é uma realidade, assim como a falta de estrutura para atender as mulheres”. Pois nós somos, com muito orgulho, um jornal de alma feminina, idealizado, pensado e produzido por maioria de mentes e corações de mulheres. Nesta capa está refletida a nossa voz, o nosso pedido de socorro! O grito da Jéssica, da Luiza, da Maisy, da Marinna, da Katia, da Ester, da Magaléa, da Valquiria, mas também do Max, do Diogo, do Cleverson, do Lucas e de todos os que acreditam e esperam que um dia teremos um mundo, um Brasil, um litoral paranaense que não mate mais as nossas MULHERES.