Lama, frustração e críticas: ambulantes de Matinhos reclamam de abandono durante festa de aniversário da cidade
A festa promovida pela Prefeitura de Matinhos, que custou mais de R$ 4 milhões aos cofres públicos, está sendo alvo de duras críticas por parte dos ambulantes autorizados a trabalhar no evento. Com a estrutura montada no entorno da Avenida Paranaguá, uma das principais do Litoral paranaense, a organização deixou de lado um detalhe essencial: o chão. Bastou a primeira chuva para transformar o espaço num lamaçal, comprometendo as vendas e gerando revolta. [Vídeo no final da matéria].
“Olha como a gente está aqui. Largado no barro. Quem vai querer vir comer no meio da lama?”, reclamou um dos ambulantes em um grupo de mensagens, ao compartilhar imagens do local tomado por lama e poças de água. A crítica é acompanhada de outras reclamações sobre a falta de infraestrutura básica. “Isso, ao meu ver, é um descaso com os ambulantes. Como já foi falado, poderíamos estar lá em cima, na calçada, em uma praça de alimentação. Com certeza todos estariam satisfeitos pensando ainda em ir outros dias. Se continuar chovendo, não vai ter condições de trabalhar, infelizmente”, desabafou outro.
O tom da indignação cresce à medida que os prejuízos aparecem. “Faltou planejamento por parte de quem organizou a festa. Ninguém olhou a previsão do tempo? Ninguém imaginou que poderia ser péssimo e virar um lodo ao fazerem um aterro com areia e colocar os ambulantes para vender em cima?”, questionou mais um trabalhador. As mensagens compartilhadas revelam frustração generalizada: “Vou ter que trabalhar de novo no meio do barro. Essa água toda é bem na frente da minha barraca”.
Na tentativa de melhorar a condição do ambiente dos shows, a Prefeitura de Matinhos tem se mobilizado: colocou pedra brita nas áreas ao redor dos ambulantes, o que, segundo trabalhadores ouvidos pelo JB Litoral, melhorou a condição de atendimento aos clientes, mas não resolveu totalmente a situação, principalmente porque o maior adversário para que a comemoração atraia turistas e moradores locais tem sido o mau tempo.
Festa foi anunciada com glamour e shows nacionais
As celebrações do aniversário de 58 anos de Matinhos foram anunciadas pela Prefeitura como um dos grandes eventos do ano, com shows de artistas regionais e nacionais e estrutura de lazer para atrair turistas. Em reportagem publicada anteriormente, com exclusividade pelo JB Litoral, foi revelado que o valor total investido no evento ultrapassa R$ 4,2 milhões, considerando a contratação de shows, locação de estruturas e serviços diversos. O objetivo, segundo a gestão, era fomentar a economia e atrair visitantes para aquecer o comércio local durante a baixa temporada.
Os shows que já ocorreram foram os de Munhoz e Mariano, que custou R$ 160 mil, US Agroboy, no valor de R$ 150 mil, e Rosa de Saron, que foi contratada por R$ 90 mil. Hoje (10) se apresenta a banda gospel Trazendo a Arca, pelo valor de R$ 90 mil, e na quarta-feira (11) ocorre o principal show: Marcos e Belutti, dupla sertaneja que recebeu R$ 250 mil para estar em Matinhos.
Inclusive, diferentemente do que alegou o prefeito Eduardo Dalmora (PL), a festa não “saiu de graça”. Só para as empresas de tendas e estruturas, foram pagos R$ 79.239,56 entre os meses de abril, maio e junho. A empresa Canção Estrututas Para Eventos LTDA ficou com 95% desse total. O restante foi destinado à Tendas Litoral Eventos e Locações LTDA.
Falta de público e lamaçal viram memes na internet
Apesar do investimento milionário e da presença de artistas conhecidos, a festa tem enfrentado uma série de dificuldades que comprometeram o sucesso esperado pela gestão municipal. O cenário do evento, para além da frustração por parte dos ambulantes, é também de pouca adesão do público e críticas generalizadas à falta de planejamento por parte da Prefeitura.
As condições climáticas também não ajudaram. O frio intenso e as chuvas frequentes dos últimos dias afastaram o público, e a combinação entre o mau tempo e a ausência de infraestrutura adequada fez do local do evento um verdadeiro lamaçal. As barracas dos ambulantes, montadas diretamente sobre a terra batida, ficaram cercadas por poças e barro, afastando os poucos visitantes que apareceram. “Quem virá com essa chuva? Minha mãe está com trailer e não vendeu nenhum real hoje. Está muito mal organizado esse ano”, disse uma vendedora. Em resposta, um outro morador da cidade escreveu “eu não vou”.
Nas redes sociais, imagens do chão enlameado viralizaram e viraram meme. Um vídeo em que o público escorrega próximo a estrutura dos shows repercutiu em grupos locais e escancarou o sentimento de insatisfação de parte da população, principalmente porque a filmagem é ironizada com uma música divertida e que dá a entender que Matinhos não tem infraestrutura para sediar grandes eventos.
O tom de deboche se mistura ao desabafo, reforçando a percepção de que a festa se transformou em símbolo de desorganização administrativa. “Nossa, foi uma vergonha esses dias de show, pois tivemos que trabalhar debaixo de chuva forte. Tive que vir de galocha e não vendi nada, já que os clientes se recusavam a pisar na água”, lamentou outro ambulante.
A baixa participação popular na primeira semana do evento também chamou a atenção. Palcos vazios, espaços cobertos com pouca ocupação e comerciantes parados atrás de bancas vazias contrastaram com o discurso oficial de fomento ao turismo e à economia. Para muitos, os milhões gastos pela Prefeitura até agora não trouxeram o retorno social e econômico prometido. “Se pelo menos tivessem distribuídos esses shows, em dois finais de semana, nas sextas, sábados e domingos, a gente teria mais chances. Quem vai beber em dia de semana para trabalhar no dia seguinte? Me arrependi até o último fio de cabelo de ter investido”, escreveu outra trabalhadora.
A dois dias do encerramento da festa, o clima entre os trabalhadores é de desânimo. Muitos já contabilizam prejuízos e avaliam que o evento, longe de ser uma vitrine positiva para a cidade, está se tornando um retrato da falta de preparo da atual administração em lidar com eventos dessa magnitude.
A reportagem procurou a Secretaria de Turismo para questionar sobre as reclamações dos ambulantes, mas não obteve retorno.







